A Polícia Civil do Espírito Santo (PCES) apresentou nesta quarta-feira (9) os detalhes da Operação Tron, que apura o sequestro de um empresário de 30 anos em Jardim Camburi, Vitória. Segundo a investigação, criminosos armados cercaram o Porsche conversível da vítima no dia 11 de junho, levaram o empresário para um matagal em Jardim Carapina, na Serra, e o obrigaram a transferir criptomoedas. A operação identificou nove envolvidos: sete já estão presos e dois continuam foragidos.
Como o grupo agiu antes do sequestro
De acordo com apuração, o planejamento começou cerca de um ano antes, de acordo com o delegado Gabriel Monteiro, chefe do Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic). O grupo acompanhava a rotina da vítima, que praticava esporte em Jardim Camburi, e sabia até o horário em que ela trocava de turno com o professor e os amigos. Enquanto isso, dois homens apontados como líderes da associação criminosa organizavam a abordagem com os demais integrantes.
No dia do crime, um HB20 fechou a passagem do Porsche no meio de uma avenida movimentada. Em seguida, um Celta parou ao lado e os suspeitos desceram vestidos de preto, com duas pistolas e uma metralhadora, e se apresentaram como policiais federais. Como a vítima tentou reagir, um deles deu uma coronhada na cabeça do empresário. Os criminosos então amarraram as mãos dele, colocaram um capuz e seguiram para a Serra. Um dos apontados como mentores assumiu a direção do carro de luxo.
Monteiro também explicou a tipificação. Apesar de o caso ser tratado popularmente como sequestro relâmpago, o crime responde no Código Penal como extorsão com restrição de liberdade, porque a própria vítima foi obrigada a fazer as transferências, e não terceiros.
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Vítima se jogou de barranco para escapar do cativeiro na Serra
No matagal, o grupo manteve as ameaças de morte e exigiu o envio de valores para uma corretora internacional de criptomoedas. A vítima repassou 3.192 USDT, equivalentes a R$ 16.382,77, mas o restante do plano não avançou. O pai do empresário rastreou o celular do filho e acionou a Polícia Militar. Com viaturas e o helicóptero do Notaer circulando na região, os suspeitos se esconderam. Nesse momento, o empresário se jogou de um barranco alto, atravessou uma casa e correu para a rua, onde encontrou uma guarnição da PM.
Operação Tron rastreou criptomoedas na blockchain
O nome da Operação Tron vem da rede usada na transferência do USDT, criptomoeda atrelada ao dólar. Segundo o delegado Gianno Trindade, titular da Delegacia Especializada de Segurança Patrimonial (DSP), cada transação em blockchain gera um registro alfanumérico, o hash, que funciona como uma impressão digital. Com autorização judicial e quebra de sigilo financeiro, a polícia chegou à corretora, identificou o titular da carteira que recebeu o dinheiro e mapeou os repasses seguintes. A divisão dos valores em várias contas, prática conhecida como smurfing, também entrou no rastreio.
Para Trindade, o caso derruba a ideia de que criptoativo não deixa rastro. Ainda assim, a investigação exigiu cruzamento com dados de telefonia para colocar os suspeitos na cena do crime.
Nove identificados na Operação Tron, dois ainda foragidos
A polícia deflagrou a operação em 27 de agosto, com nove mandados de busca e apreensão e seis de prisão preventiva cumpridos na Serra. Outro suspeito já estava preso por tráfico de drogas, o que elevou o total a sete detidos. Dois integrantes ficaram encarregados de registrar um falso roubo do Celta usado no crime e de apagar mensagens dos aparelhos do grupo de forma remota. Segundo o Deic, os investigados somam passagens por roubo, extorsão, tráfico e homicídio.
Continuam foragidos Samuel Camilo Santos, que segundo informações de inteligência estaria no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, e uma mulher apontada como olheira da associação criminosa. Ela usava um grupo de WhatsApp para avisar os comparsas sobre a movimentação policial nos bairros.
Polícia alerta para exposição nas redes sociais
O delegado-geral Jordano Bruno afirmou que a investigação não aponta uma quadrilha especializada em sequestros, mas um crime de oportunidade. A vítima atuava no mercado de criptomoedas e mantinha ampla exposição nas redes, o que provavelmente chamou a atenção dos criminosos.
Ataques físicos ligados a criptomoedas somam US$ 30 milhões no mundo neste ano, contra US$ 58 milhões em todo o ano passado, segundo dados citados na coletiva. O Brasil está entre os quatro países com mais registros, ao lado de Tailândia, França e Estados Unidos. Por isso, a polícia recomenda dois cuidados a quem investe no setor: manter silêncio sobre patrimônio e ganhos nas redes, além de usar recursos do próprio aplicativo que exibem saldo reduzido no primeiro acesso, o que reduz o prejuízo em caso de abordagem.
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