Ninguém segura o volante, e mesmo assim o ônibus segue o caminho, identifica o que aparece pela frente e decide como passar. A cena já faz parte da rotina dentro do complexo da ArcelorMittal Tubarão, na Serra, onde um ônibus sem motorista transporta passageiros desde o final de junho. O sistema que comanda o veículo saiu de um laboratório da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Hoje ele é o produto de uma startup capixaba, a Lume Robotics.
Fundada em 2019, a empresa tem seis clientes ativos e dez veículos autônomos em operação no país, entre caminhões de carga e o ônibus que circula na siderúrgica. Além da ArcelorMittal, a carteira inclui Suzano, Portocel, Ypê e Mercedes-Benz.
Como funciona o ônibus sem motorista
O “cérebro” do veículo é um sistema de inteligência artificial que lê o ambiente em tempo real. Durante o percurso, ele reconhece objetos parados e em movimento, identifica obstáculos e toma as decisões de condução, como faria um motorista.
A tecnologia, porém, ainda não está nas ruas. A Lume trabalha em áreas privadas e controladas, como fábricas, portos e pátios industriais, onde os veículos repetem trajetos definidos. Por isso, quem dirige pelas avenidas da Serra não vai cruzar com um desses ônibus no trânsito.
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Numa unidade da Suzano, por exemplo, quatro caminhões autônomos levam a produção da fábrica até o centro de distribuição. É esse tipo de deslocamento repetitivo, feito o dia inteiro, que a startup quer automatizar.
Dez anos de pesquisa na Ufes
A empresa nasceu de cerca de uma década de estudos sobre veículos autônomos conduzidos por pesquisadores da Ufes. Em 2019, quando a tecnologia já tinha maturidade para virar produto, o grupo decidiu abrir a startup.
Segundo o CEO e fundador, Rânik Guidolini, o primeiro impulso financeiro veio do Programa Centelha, iniciativa federal de apoio a negócios inovadores. Com esse dinheiro, a equipe pagou bolsas para pesquisadores e comprou equipamentos. Para ele, empresas de tecnologia avançada têm custo de desenvolvimento muito alto e dependem desse tipo de apoio no começo.
O sistema também já passou por um teste curioso, numa aeronave da Embraer. Nesse caso, no entanto, o avião não voou sozinho: a tecnologia apenas conduziu a aeronave em solo, dentro do aeroporto.
Ônibus sem motorista e o futuro dos empregos
A Lume afirma crescer, em média, 150% ao ano e já captou quase R$ 5 milhões com fundos de investimento. Agora, o plano é dobrar de tamanho até 2027, chegando a cerca de 12 clientes e 20 veículos. A empresa também quer abrir operação no Uruguai, no Chile e no México, mas isso ainda depende de negociações em andamento.
Além disso, a startup estima que a automação pode cortar cerca de 25% dos custos operacionais das indústrias, com economia de combustível e manutenção. O número, contudo, é projeção da própria empresa e muda conforme cada operação.
Fica a pergunta que toda tecnologia desse tipo provoca: e os motoristas? A divulgação da empresa não informa quantos postos de trabalho os veículos autônomos substituem nem o que acontece com esses profissionais. Também não diz desde quando o ônibus opera dentro da ArcelorMittal, qual é o trajeto e quantas pessoas ele leva por dia.
Por enquanto, o ônibus sem motorista circula longe do trânsito comum. Ainda assim, a cena dentro de uma das maiores indústrias da Serra mostra que a direção autônoma já chegou ao Espírito Santo. E, neste caso, foi inventada aqui.