Uma multinacional com mais de 12 mil funcionários no Brasil encerrou a produção mantida em uma de suas fábricas mais tradicionais no país. A mudança coloca fim a uma operação industrial iniciada há cerca de 75 anos e afeta aproximadamente 150 trabalhadores diretos e indiretos.
A unidade fabricava um material usado no isolamento térmico e acústico de casas, edifícios, veículos e instalações industriais. Além disso, a operação movimentava transportadoras, fornecedores, empresas de manutenção e outros prestadores de serviços.
Com o encerramento, a fábrica deixa de produzir no Brasil e passa a funcionar apenas como centro de distribuição. Dessa forma, o imóvel continuará ligado à multinacional, mas não manterá as atividades industriais realizadas durante mais de sete décadas.
Trata-se da fábrica da Isover, empresa que pertence ao Grupo Saint-Gobain. A unidade está localizada em Santo Amaro, na zona Sul de São Paulo, e produzia lã de vidro desde 1951.
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Multinacional tem 12 mil funcionários no Brasil
A Saint-Gobain mantém uma das maiores estruturas industriais do setor de materiais para construção no país. Segundo a própria companhia, o grupo emprega mais de 12 mil funcionários somente no Brasil.
A multinacional também controla diferentes marcas e negócios ligados à construção civil, à indústria, à mobilidade e aos materiais de alto desempenho. Portanto, o fechamento da Isover não representa a saída completa da Saint-Gobain do mercado brasileiro.
A decisão atinge especificamente a produção de lã de vidro mantida na fábrica de Santo Amaro. A marca continuará atendendo seus clientes e distribuindo produtos, enquanto as demais unidades do grupo permanecem em operação no país.
Mesmo assim, a mudança marca o fim de uma era. A Isover mantinha produção no Brasil desde 1951 e se apresentava como a maior fabricante nacional de lã de vidro, material utilizado em diferentes setores da economia, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Produção da multinacional foi encerrada após mais de 70 anos
A fabricação de lã de vidro na unidade já foi encerrada. A medida faz parte de um acordo firmado entre a empresa, o Ministério Público de São Paulo e a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo, a Cetesb.
O Termo de Ajustamento de Conduta estabeleceu que a produção deveria terminar até 4 de julho de 2026. Além disso, a multinacional terá de desligar definitivamente o forno de fusão de vidro até 31 de julho.
O forno representa uma das principais estruturas da fábrica. O equipamento derrete o vidro antes das etapas de formação das fibras, tratamento e acabamento do produto.
Assim, o desligamento definitivo do forno encerra o ciclo industrial da unidade. Depois dessa etapa, o local ficará voltado ao armazenamento e à distribuição das mercadorias comercializadas pela Isover.
A desmobilização completa da planta deverá continuar nos próximos anos. O acordo prevê a desmontagem dos equipamentos, a retirada dos resíduos industriais e a investigação das condições ambientais do terreno.
Fábrica será transformada em centro de distribuição
A Saint-Gobain não deixará o imóvel após o encerramento da produção. Em vez disso, a empresa transformará a antiga fábrica em um centro de distribuição.
Portanto, o endereço continuará recebendo produtos e abastecendo clientes da marca. Entretanto, não haverá mais fabricação de lã de vidro no local.
Na prática, a Isover retira do país a produção realizada nessa unidade histórica, mas mantém a operação comercial e logística. A companhia também continuará presente no Brasil por meio das outras marcas e fábricas controladas pelo Grupo Saint-Gobain.
A transformação da fábrica em centro de distribuição também reduz a complexidade da operação. O local deixará de utilizar fornos, linhas industriais e equipamentos ligados ao processo de fabricação.
Cerca de 150 empregos são afetados
O encerramento da produção afeta cerca de 100 funcionários contratados diretamente pela fábrica. Além disso, aproximadamente 50 trabalhadores indiretos dependiam das atividades da unidade.
Dessa forma, o impacto pode alcançar cerca de 150 postos de trabalho. A paralisação também preocupa empresas terceirizadas, fornecedores e profissionais ligados ao transporte e à manutenção.
A multinacional informou que conduziria o processo de forma gradual para tentar reduzir os impactos sociais. No entanto, o fim da atividade industrial diminui a necessidade de mão de obra dentro da unidade.
Transportadoras que levavam matérias-primas e produtos acabados também podem perder demanda. O mesmo acontece com empresas responsáveis por manutenção, limpeza industrial, segurança e fornecimento de materiais.
Reclamações de moradores motivaram investigação
O encerramento ocorreu depois de anos de reclamações feitas por moradores dos bairros próximos à fábrica.
A população relatava fumaça, cheiro forte e barulho provocado pelos equipamentos. Segundo os moradores, os incômodos aconteciam durante o dia e também à noite e na madrugada.
As denúncias levaram o Ministério Público a abrir uma investigação. Ao mesmo tempo, a Cetesb ampliou as fiscalizações sobre as atividades da indústria.
Entre 2023 e 2025, a empresa recebeu autos de infração ligados principalmente à emissão de odores percebidos fora dos limites da propriedade. Também houve registros relacionados ao descumprimento de determinações anteriores.
A fábrica permaneceu no mesmo endereço enquanto Santo Amaro passava por um forte crescimento urbano. Com o passar dos anos, casas e condomínios residenciais avançaram sobre as áreas próximas à indústria.
Consequentemente, os conflitos entre moradores e fábrica aumentaram. As reclamações chegaram a audiências públicas, reuniões com autoridades e mobilizações comunitárias.
Empresa deverá recuperar áreas contaminadas
Além de encerrar a produção, a Saint-Gobain terá de cumprir uma série de obrigações ambientais.
O acordo exige que a companhia investigue possíveis áreas contaminadas dentro do imóvel. Caso os estudos identifiquem problemas, a empresa deverá executar medidas para recuperar o solo.
A multinacional também terá de desmontar os equipamentos industriais e dar uma destinação adequada aos resíduos acumulados na fábrica.
Durante o processo, a empresa precisará manter os sistemas de controle ambiental e apresentar relatórios ao Ministério Público e à Cetesb.
Caso descumpra as obrigações, a Saint-Gobain poderá receber multa diária de R$ 10 mil. O valor será corrigido monetariamente conforme as regras previstas no acordo.
Multinacional afirma que cumpria a legislação
A Isover declarou que sempre operou de acordo com a legislação brasileira e com critérios nacionais e internacionais de segurança e sustentabilidade.
Segundo a companhia, a fábrica também recebeu mais de 60 ações de melhoria ambiental. Entre as medidas estavam investimentos em isolamento acústico e tecnologias destinadas a diminuir as emissões.
A empresa ainda suspendeu parte das atividades aos finais de semana, encerrou descarregamentos noturnos e criou canais de comunicação com os moradores.
Além disso, a multinacional afirmou que monitorava as emissões da fábrica com empresas especializadas e sob fiscalização dos órgãos ambientais. A companhia sustenta que a operação não representava riscos à saúde dos trabalhadores.
Mesmo após as melhorias, a empresa e as autoridades decidiram encerrar a produção. Agora, os órgãos públicos acompanharão o desligamento do forno, a retirada dos equipamentos e o cumprimento das obrigações ambientais.
Com isso, uma fábrica instalada no Brasil desde 1951 encerra sua história industrial. A Isover mantém somente a distribuição no endereço, enquanto a Saint-Gobain continua com suas demais operações no país.
