Instabilidade na Câmara da Serra reacende fantasma da violência política

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Vereadores da Câmara da Serra durante sessão ordinária em que foi rejeitada a proposta de destituição da atual Mesa Diretora do Legislativo municipal.

A Câmara da Serra vive momentos de instabilidade política. A situação ainda está restrita aos bastidores, mas nem por isso menos efervescente. Há, inclusive, receio da possibilidade de maior exaltação de ânimos e, no limite, preocupação com casos de violência política, uma situação que precisa ser acalmada.

Desde o afastamento de quatro vereadores, ocorrido em setembro de 2025, a Casa de Leis passou a experimentar níveis elevados de tensão política, que vêm se escalonando desde então.

O atual presidente, William Miranda (União Brasil), que assumiu o posto deixado pelo então presidente Saulinho da Academia (PDT), que está entre os afastados, fez um esforço louvável para tentar manter a normalidade legislativa na Câmara. No entanto, ele está inserido em um cenário político desafiador que pode acabar por engoli-lo.

A ascensão de Saulinho e a reorganização da Câmara

Há, na verdade, uma confluência de variáveis que se somaram ao longo do tempo. Saulinho foi eleito presidente da Câmara da Serra pela primeira vez em 2022, para exercer o biênio 2023/2024. Naquela legislatura, ele formou maioria no plenário e substituiu o então presidente Rodrigo Caldeira (Republicanos).

A Câmara da Serra vinha de pelo menos uma década enfrentando instabilidades jurídicas e políticas. Ao assumir, Saulinho conseguiu apaziguar a Câmara. Mas conviveu naturalmente com uma oposição política interna, às vezes mais silenciosa e às vezes mais barulhenta.

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Chegada a eleição de 2024, Saulinho foi reeleito vereador com mais de 8 mil votos e se tornou, em razão desse resultado, o favorito para permanecer como presidente.

Nova legislatura e surgimento de forças de oposição

Porém, tratava-se de uma nova legislatura, com um novo plantel de vereadores. Saulinho era visto como um candidato natural a deputado estadual. E isso chamou a atenção de forças opostas, que também possuíam o mesmo projeto político.

Esse movimento contrário à candidatura de Saulinho a deputado estadual se somou a um grupo de oposição interna. Foi então articulada uma chapa de oposição para a eleição da Mesa Diretora da Câmara da Serra para o biênio 2025/2026.

Ainda assim, Saulinho sagrou-se vencedor daquela contenda política. No entanto, o movimento de oposição interna se avolumou no contexto da nova legislatura.

O afastamento dos vereadores e a mudança no comando

Em setembro de 2025, Saulinho e mais três vereadores foram afastados pela Justiça a pedido do Ministério Público. Desses três parlamentares, dois eram do grupo de apoio a Saulinho [Serrinha e Teilton Valim/ambos PDT].

O vereador William Miranda assumiu a presidência, já que era o primeiro na linha de sucessão e, reconhecendo a liderança interna de Saulinho, manteve-o como uma personalidade de influência interna, como uma espécie de conselheiro. Até porque, naquele momento, não estava claro se o afastamento seria revisto no âmbito da Justiça; fato que não aconteceu.

Em dezembro, o vereador Marlon Fred (PDT) se envolveu em problemas com a ex-namorada e acabou preso após entrar em conflito com uma guarnição da Polícia Militar. Situação que não diz respeito em nada a Saulinho, se Fred não fosse um de seus principais apoiadores internos.

O enfraquecimento político e a nova ofensiva

Dessa forma, o ex-presidente viu seus espólios políticos enfraquecidos, situação que se agravou com a assunção dos quatro suplentes, todos contrários a Saulinho e William. Somado a isso, e talvez também a equívocos por parte do atual presidente William Miranda, como o suposto fato de não ter feito um trabalho político interno junto ao PDT, o grupo de oposição interna (já avolumado e liderado por Rodrigo Caldeira) formou maioria e passou a reivindicar uma nova eleição para escolha da Mesa Diretora.

Na semana passada, um requerimento de destituição da atual Mesa Diretora foi colocado em votação. Porém, o movimento ainda não estava maduro o suficiente, e William conseguiu derrubá-lo. Mas, desde então, a oposição interna se estruturou e prepara uma nova ofensiva.

Clima de tensão preocupa

Toda essa trama, lida dessa forma, parece apenas política em seu estado puro. Quem dera fosse apenas isso. No meio de toda essa dramaturgia política, há um escalonado clima de tensão que não aparece publicamente; um estado de conflitos que começa a transbordar a política e que, se continuar a evoluir, pode sair do controle a qualquer momento.

Tudo isso em um contexto no qual vereadores transitam pelas dependências da Câmara da Serra armados, como o Tempo Novo já noticiou.

Além disso, não se pode tratar com irrelevância o vastíssimo histórico de violência política da Serra. É importante que as coisas se acalmem e voltem para as quatro linhas da política, instrumento criado pelo ser humano exatamente para evitar a violência.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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