A Serra é a cidade do Espírito Santo onde mais se aposta em bets. Em junho de 2026, o município registrou 1,22 milhão de apostas nas plataformas on-line, o equivalente a 16,7% de todas as jogadas feitas no estado naquele mês. O dado está no Radar Econômico “Bets, Consumo e Saúde Mental no Espírito Santo”, divulgado pela Fecomércio-ES.
A equipe Connect, da Fecomércio-ES, elaborou o levantamento com base no Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), do governo federal. Ao todo, os capixabas fizeram 7,34 milhões de apostas em junho, que movimentaram R$ 397 milhões.
Bets na Serra superam Vila Velha e Vitória
Logo atrás da Serra aparecem Vila Velha, com 14,5% das apostas do estado, Vitória, com 13,3%, e Cariacica, com 9,3%. Juntas, as quatro cidades da Grande Vitória concentram 54% das jogadas capixabas, cerca de 3,95 milhões em um único mês.
A liderança, porém, não vem só do fato de a Serra ser a cidade mais populosa do Espírito Santo. Segundo o estudo, o município registrou 2,1 apostas por habitante em junho, acima da média estadual de 1,8. Nesse indicador, Vitória aparece no topo, com 2,8.
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Quanto a Serra gasta com bets
O relatório também calculou o valor apostado em relação ao tamanho da população. Na Serra, o gasto chegou a R$ 125,71 por habitante em junho, cerca de 31% acima da média do Espírito Santo, de R$ 95,81.
A conta divide o total apostado por todos os moradores, incluindo crianças e quem nunca fez uma aposta. Por isso, o número não representa quanto cada apostador gasta, mas mostra o peso das bets na economia de cada cidade.
Com esse resultado, a Serra ocupa a sétima posição no ranking estadual. Ibatiba lidera, com R$ 279 por habitante, seguida por Marechal Floriano (R$ 201,48) e Vitória (R$ 155,38). Vila Velha, por sua vez, fica com R$ 119,89, abaixo da Serra.
Crescimento das apostas na Serra foi o menor da região
Apesar de liderar em volume, a Serra teve o menor crescimento médio entre as cidades da Região Metropolitana citadas no estudo: 3,9% entre janeiro de 2025 e junho de 2026. No mesmo período, Vitória avançou 6%, Cariacica 5,4%, Guarapari 5,3%, Vila Velha e Fundão 5% e Viana 4,4%. A média estadual ficou em 3%.
No conjunto do Espírito Santo, o pico das apostas ocorreu em outubro de 2025. Naquele mês, os capixabas fizeram mais de 9,3 milhões de jogadas e movimentaram R$ 518,8 milhões. Já o valor médio de cada aposta se manteve praticamente estável, em torno de R$ 54.
Impacto no comércio e na saúde
Para a Fecomércio-ES, o avanço das bets acende um alerta no varejo. Segundo o relatório, o dinheiro que vai para as apostas deixa de circular no comércio e nos serviços. O efeito tende a ser maior nas famílias de menor renda, que têm pouca folga no orçamento depois de pagar alimentação, moradia e transporte.
Na Grande Vitória, onde está boa parte do mercado consumidor capixaba, esse movimento pode mudar a forma como as famílias gastam. Entre os sinais apontados pelo estudo estão mais procura por crédito, preferência por produtos mais baratos e compras concentradas nos dias de pagamento.
O levantamento também mostra reflexos na saúde. Entre janeiro e julho de 2026, a rede pública do Espírito Santo registrou 564 atendimentos ligados às bets, envolvendo 247 pessoas. A maioria é de homens entre 25 e 34 anos e de baixa renda. O relatório, no entanto, não informa quantos desses pacientes moram na Serra.
Proibição das bets já está em vigor
Os números do estudo retratam um mercado que está saindo do ar. Em 25 de setembro, o presidente Lula editou a Medida Provisória 1.394/2026, que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade das bets no país. Desde então, as plataformas não podem receber novos depósitos.
Quem ainda tem saldo pode sacar até as 23h59 de 5 de outubro. A partir do dia 6, sites e aplicativos saem do ar, e os bancos devolvem os valores restantes aos apostadores entre 9 e 14 de outubro. As loterias tradicionais, como a Mega-Sena, continuam funcionando.
A proibição, porém, ainda pode mudar. O Congresso tem até 120 dias para analisar a MP, e entidades do setor pediram ao Supremo Tribunal Federal a suspensão da medida. Até agora, o ministro Luiz Fux, relator do caso, não decidiu.