Vandinho Leite (MDB) atravessou a eleição de 2026 no Espírito Santo na contramão do vento. Num pleito em que a polarização nacional engoliu a pauta local, o deputado estadual se reelegeu com 41.670 votos, cerca de 12,5 mil a mais que os 29.156 de 2022, um crescimento de quase 43%.
Ele ficou com a quinta maior votação para a Assembleia Legislativa, cercado por nomes que fizeram de Lula, Bolsonaro e do STF o centro de suas campanhas. São temas que estão longe do debate estadual e nem cabem a um deputado estadual resolver.
Uma eleição tomada pela polarização no ES
O resultado das urnas no Espírito Santo reflete a fagocitose que a polarização nacional promoveu sobre a pauta local em todo o Brasil. Por aqui, esse processo se fundiu a contextos capixabas próprios e gerou um resultado amargo para muitos.
O curioso é que a campanha começou com outra expectativa. Havia a aposta de que a disputa entre lulistas e bolsonaristas desceria com menos força para as realidades locais. Aos poucos, essa ideia se desfez, sobretudo com a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), que incendiou o eleitor.
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Somada a outras variáveis, essa combinação abriu espaço para candidatos jovens ou novos na política (nem sempre jovens na idade). São nomes comprometidos com agendas ideológicas e mais hábeis na leitura do algoritmo das redes sociais.
Vandinho Leite, a exceção entre os mais votados
Basta olhar a lista dos oito deputados estaduais mais votados para entender o tamanho da exceção que Vandinho foi. Sete deles pertencem ao PL, ao PT e ao PSOL, partidos alinhados aos dois polos da disputa nacional.
Camila Valadão (PSOL) liderou com 61.501 votos. Em seguida vieram Capitão Assumção (PL), com 60.097, Pastor Dinho Souza (PL), com 51.895, e Karla Coser (PT), com 51.306. Logo depois de Vandinho aparecem Thiago do Casal Policial (PL), Darcio Bracarense (PL) e Açucena (PT).
No meio desse grupo, Vandinho Leite ficou praticamente isolado. Foi o único entre os primeiros colocados a fazer campanha com discurso local, voltado a entregas e a demandas reais e permanentes da população capixaba. Ele não gastou tempo com Lula, Bolsonaro, STF ou o caso Banco Master.
Além disso, o deputado criticou abertamente esse modelo durante toda a campanha. Sua comunicação pediu ao eleitor que votasse em quem traz resultado concreto, e não em quem vive de narrativa.
O perfil municipalista do deputado
Vandinho tem perfil municipalista. Atua junto a comunidades da agricultura familiar e a cidades pequenas, muitas vezes esquecidas no orçamento do Estado. Na prática, funciona como elo entre prefeitos e o governo estadual, levando ao centro do poder vozes que têm dificuldade de chegar até lá.
Historicamente, a Serra sempre foi sua maior base eleitoral, e a cidade continua sendo sua casa política. Ao longo dos mandatos, porém, Vandinho espalhou sua atuação por vários municípios, estratégia que ajudou a segurar votos e evitou a dependência de uma única realidade.
Os números mostram esse desenho. Na Serra, ele recebeu 9.754 votos, cerca de 23,4% do total. A maior parte da votação veio de cidades onde o deputado atuou como vetor de desenvolvimento local, como Laranja da Terra, onde 2.943 eleitores votaram nele, e São Roque do Canaã, que lhe deu mais de 3 mil votos.
Foi essa base espalhada pelo interior que sustentou o crescimento nas urnas. E ela passou por um teste duro antes mesmo de a campanha começar.
A virada do PSDB para o MDB
Semanas antes do prazo final de filiação partidária, Vandinho, então presidente do PSDB no Espírito Santo, sofreu um revés. O prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, assumiu o comando do partido no Estado por meio de uma articulação em Brasília, com o aval de Aécio Neves.
Sem tempo a perder, o deputado se reorganizou e migrou para o MDB. Levou com ele prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, sinal de que seu capital político estava nas relações construídas nos municípios, e não na sigla.
O recado das urnas
O desempenho de Vandinho Leite não desmente a força da polarização em 2026. Pelo contrário, mostra o quanto ela dominou o pleito. Ainda assim, deixa um recado: mesmo numa eleição incendiada pela guerra ideológica, há um eleitor atento a quem resolve o problema da estrada, do posto de saúde e da ponte da sua cidade.