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Trator, protestos e até arma apontada: como nasceram a Av. Norte/Sul e o Terminal de Laranjeiras

Artigo de opinião. O autor é engenheiro civil e atuou como secretário de obras e assessor especial da Prefeitura da Serra nos anos 1980
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Fotos antigas mostram terraplenagem da Avenida Norte/Sul na Serra e a estrutura do Terminal de Laranjeiras
Registros da construção do Terminal de Laranjeiras, na Serra, nos anos 1980. Crédito: Acervo TN.
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Houve um tempo em que o progresso na Serra não se pedia por memorandos; rasgava-se no braço, sob o ronco de motores pesados e o calor das disputas que moldavam o chão do futuro.

Tudo começou a desenhar-se em 1983, quando o prefeito João Batista Motta cruzou gabinetes em Brasília e trouxe na bagagem a garantia dos recursos da EBTU, Empresa Brasileira de Transportes Urbanos, pelo diretor Arlindo Villaschi. Era o dinheiro que financiaria um sonho audacioso: a Avenida Norte/Sul e o embrião do Sistema Transcol. O primeiro fruto desse esforço ganhou festa no segundo semestre de 1986, quando o Terminal Urbano de Laranjeiras abriu suas portas.

Naquele dia, a celebração transbordou para o asfalto: em um palanque montado na própria avenida, bem em frente ao terminal, o povo se espremeu para ver e cantar junto com o sambista nacional Agepê. A voz do artista ecoava festiva, embalando o orgulho de uma cidade que começava a se integrar. Logo após a grande festa, o terminal passou a funcionar plenamente com os ônibus das linhas municipais. À frente daquela entrega e de toda a condução política e administrativa do município rumo à modernidade estava o verdadeiro realizador da obra, o visionário prefeito João Batista Motta.

A votação dos moradores sobre a Avenida Norte/Sul na Serra

Mas o verdadeiro teste de fogo da avenida estava reservado para o ano seguinte. Em 1987, as opiniões se dividiam e a tensão política corria pelas calçadas. Antes que as máquinas avançassem em definitivo, o debate sobre a importância da via ferveu dentro da comunidade. A Associação de Moradores do bairro Parque Residencial Laranjeiras, sob a liderança firme de seu presidente Pedro Tozetti, convocou a comunidade para uma eleição histórica. As urnas comunitárias ditaram o destino de forma democrática: o resultado foi favorável à abertura da avenida.

Legitimado pelo voto dos moradores, o prefeito João Batista Motta determinou, pouco tempo depois da eleição da comunidade, a abertura do trecho da avenida. Em um sábado de 1987 carregado de expectativa, o cenário ganhou contornos dramáticos. O engenheiro e assessor especial do prefeito, João Luiz Castello Lopes Ribeiro, que havia atuado como secretário de obras em 1986, assumiu a liderança da operação de campo no bairro Parque Residencial Laranjeiras ao lado de um trator D-8, cedido pela Construtora Nobel. Frente a frente com o operador da máquina, o engenheiro determinou ao funcionário da empreiteira a abertura imediata da avenida naquele pequeno trecho de mata que restava perto do supermercado Dim Dom, o pedaço que faltava para empurrar a Norte/Sul até o bairro Jardim Limoeiro e o Bairro de Fátima.

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A arma apontada e o protesto na mesma manhã

A lâmina da máquina avançava derrubando a vegetação quando o progresso bateu no muro do imprevisto. Ao lado de uma residência, longe dos olhos do público, o proprietário surgiu do nada, com os nervos à flor da pele, e apontou um revólver diretamente para a cabeça do engenheiro. O cano frio da arma paralisou o ar em um duelo silencioso e solitário. Entre a vida e a morte, João Luiz manteve a firmeza e não recuou. Falou com a calma de quem carrega o interesse coletivo no peito: a utilidade pública estava acima de qualquer cerca. Se a terra fosse legalmente do morador, haveria a devida indenização; mas a Norte/Sul precisava passar.

Enquanto esse drama velado acontecia ao lado da casa, o cenário na rua principal era de puro tumulto político. Alheios à ameaça de morte sofrida pelo engenheiro e assessor especial do prefeito, militantes do PT local se concentravam e estendiam faixas em protesto contra as obras, enquanto as lentes da TV Gazeta registravam a agitação do bairro. Duas realidades distintas dividiam o mesmo sábado de nervos à flor da pele: a disputa ideológica sob os holofotes e o risco real da bala nos bastidores da mata. No fim, a determinação e a lâmina do trator foram mais fortes. O clarão se fez, a vegetação cedeu e a avenida finalmente seguiu seu rumo.

Do terminal municipal ao Transcol metropolitano

O prefeito Motta concluiu seu mandato histórico em 31 de dezembro de 1988. Com as eleições de 15 de novembro daquele ano, José Maria Miguel Feu Rosa foi eleito o novo governante e assumiu a administração da Serra em 1º de janeiro de 1989. No primeiro semestre de 1990, o município da Serra vendeu o Terminal Urbano de Laranjeiras para o Governo do Estado. Essa transferência foi um passo de extrema importância prática e institucional: como o município da Serra não tinha competência legal para atuar em outros territórios, era imprescindível que o Estado assumisse a gestão do espaço.

Só assim o novo sistema de transportes poderia se tornar plenamente metropolitano, exatamente como o prefeito Motta havia idealizado lá atrás, em 1983. A partir dessa transição, as linhas de ônibus municipais continuaram como alimentadoras do Sistema Transcol e, do próprio terminal, as linhas troncais seguiram em direção aos demais municípios da Região Metropolitana da Grande Vitória.

João Luiz Castello Lopes Ribeiro
Engenheiro Civil.

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