O boom econômico de Aracruz e a abertura do Contorno de Jacaraípe estão valorizando áreas estratégicas da Suzano Celulose S/A no município da Serra. A empresa já possui uma extensa presença territorial na cidade, e a nova valorização imobiliária pode abrir caminho para uma estratégia que ampliaria ainda mais essa ocupação.
Localizadas em pontos considerados estratégicos, essas terras passaram a ganhar importância para expansão urbana. Na prática, essas áreas podem funcionar como retaguarda para as atividades portuárias e industriais do centro-norte capixaba, região que vive um novo ciclo de investimentos.
Entre os projetos previstos está a futura fábrica de veículos da GWM, que deverá ser instalada em Barra do Riacho, no município de Aracruz.
Suzano controla cerca de 8,6% do território da Serra
A Suzano mantém no município da Serra cerca de 2,37 mil hectares de plantios florestais, área que corresponde a pouco mais de 4% do território serrano. Além disso, a empresa possui aproximadamente 2,38 mil hectares de vegetação nativa no município.
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Somadas, essas áreas totalizam cerca de 4,75 mil hectares, cerca de 8,6% de todo o território da cidade da Serra.
Parte dessas terras está localizada às margens da Rodovia Audifax Barcelos, enquanto extensas faixas também se distribuem nas duas margens do Contorno de Jacaraípe, regiões que passaram a ganhar valor estratégico com a nova dinâmica econômica da região.
Origem das áreas remonta à expansão da celulose
A presença de grandes áreas de eucalipto na Serra remonta à criação da Aracruz Florestal S/A, em 1967. A empresa foi criada com o objetivo de garantir matéria-prima para a produção de celulose.
Esse processo ocorreu ainda durante o período da ditadura militar, quando começaram a ser formadas extensas áreas de reflorestamento destinadas ao abastecimento da futura Aracruz Celulose S/A, que entrou em operação em 31 de outubro de 1978 e se consolidou como uma das maiores produtoras de celulose do mundo.
Na Serra, representantes da Aracruz Florestal percorreram extensas áreas que formam o polígono entre Nova Almeida, Jacaraípe e Serra Dourada, adquirindo propriedades rurais para estruturar a base florestal que abasteceria a indústria em Aracruz.
Baixa arrecadação municipal
Atualmente, essas áreas permanecem classificadas como propriedades rurais. Segundo informações obtidas pela reportagem com um servidor do setor de finanças da Prefeitura da Serra, não há registro de arrecadação tributária relevante proveniente desses plantios.
Por estarem em zona rural, essas propriedades pagam apenas o ITR (Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural), um tributo federal significativamente inferior ao IPTU, aplicado em áreas urbanas.
Investidores tentam negociar áreas
Nos últimos meses, aumentaram as tentativas de aquisição dessas áreas por investidores interessados em desenvolver projetos logísticos, industriais e imobiliários. Empresários do setor relatam, no entanto, dificuldades nas negociações com a Suzano.
Entre fevereiro e março, proprietários rurais localizados nas regiões de Putiri e Nova Almeida relataram que vêm sendo procurados por empresários interessados na compra de suas propriedades.
A intenção, segundo relatos obtidos pela reportagem, seria utilizar essas áreas como parte de negociações de permuta com a Suzano, envolvendo terras localizadas ao longo do Contorno de Jacaraípe.
Permutas podem ampliar áreas de eucalipto
Na prática, a operação consistiria na troca de áreas menores, porém mais valorizadas, por áreas maiores situadas em regiões mais afastadas do município.
Essa dinâmica permitiria à empresa ampliar o espaço destinado ao cultivo de eucalipto na Serra, ao mesmo tempo em que liberaria terrenos hoje valorizados para outros tipos de empreendimento.
Caso esse movimento avance, o impacto territorial apenas mudaria de localização. Áreas próximas à Rodovia Audifax Barcelos e ao Contorno de Jacaraípe poderiam ser liberadas para novos projetos, enquanto novas áreas de plantio avançariam para o interior do município.
Como muitas dessas propriedades também estão relativamente próximas da malha urbana, uma eventual expansão do cultivo de eucalipto poderá, no médio prazo, atrapalhar ainda mais o debate sobre uso do solo e planejamento urbano na Serra, como já ocorre hoje em dia.
No caso das plantações de eucalipto, essas áreas costumam gerar poucos empregos diretos, possuem baixa arrecadação municipal e apresentam biodiversidade reduzida quando comparadas a ecossistemas naturais. Além disso, relatos recorrentes de empresários e investidores apontam dificuldades de negociação com a empresa proprietária das terras, o que acaba dificultando ou retardando projetos logísticos, industriais e imobiliários que poderiam se desenvolver nessas regiões.