Trinta e seis anos depois do assassinato do prefeito José Maria Miguel Feu Rosa, crime que marcou a história política da Serra e chocou o Espírito Santo, a filha dele coloca o sobrenome da família de volta nas urnas. Penélope Feu Rosa (Novo) é candidata a deputada federal com o número 3030 e disputa uma vaga na Câmara dos Deputados no próximo domingo (4), com a Serra como principal base eleitoral.
Advogada e servidora do Poder Judiciário há três décadas, Penélope estreia em disputas eleitorais. Nas redes sociais, ela se apresenta como filha de Zé Maria Feu Rosa e de dona Penha. Além disso, transformou a defesa de leis penais mais duras em uma das principais bandeiras da campanha, pauta que relaciona diretamente à impunidade que marcou o caso do pai.
O crime que marcou a Serra
Zé Maria ‘Cabeça Fria’, como era conhecido, governou a Serra em dois períodos. Eleito pela primeira vez em 1976, ainda pela Arena, voltou à prefeitura em 1988, pelo PTB. O segundo mandato, porém, foi interrompido. Em 8 de junho de 1990, ele e o motorista Itagildo Coelho caíram em uma emboscada numa estrada de chão entre Itabela e Caraíva, no Sul da Bahia, onde o prefeito tinha uma fazenda. Os dois morreram a tiros.
A violência não parou ali. Ao longo das duas décadas em que o caso tramitou, ao menos nove pessoas ligadas ao crime acabaram mortas, entre testemunhas, intermediários e apontados como executores. Um dos episódios mais conhecidos envolve o advogado Carlos Batista de Freitas, que defendia acusados do crime e desapareceu em janeiro de 1992. O corpo nunca apareceu. Segundo o Ministério Público, ele morreu porque conhecia detalhes do assassinato do prefeito. Em 1997, Claudia Rodrigues Novaes, de 22 anos, também desapareceu, em mais um caso tratado pela Justiça como queima de arquivo.
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O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) denunciou como mandantes o então vice-prefeito Adalto Martinelli, que assumiu a prefeitura após a morte de Feu Rosa, e os empresários Alberto Ceolin e Antonio Roldi. Martinelli chegou a ficar oito anos preso e, em 2009, recebeu condenação pela morte do advogado Carlos Batista. No processo do assassinato do prefeito, no entanto, a Justiça reconheceu a prescrição em 2015, por causa da idade do réu. Roldi morreu em 2001, e Ceolin, em 2010.
O caso ganhou repercussão nacional e virou episódio do programa Linha Direta, da TV Globo. Antes do crime, a viúva, Maria da Penha Vervloet Feu Rosa, que exerceu mandato de deputada estadual, chegou a denunciar na tribuna da Assembleia Legislativa que o marido vinha sofrendo ameaças de morte.
A dor que virou bandeira de Penélope Feu Rosa

Para Penélope, a trajetória dos pais é a maior motivação para entrar na política. “A trajetória deles na vida pública me ensinou a importância de estar perto das pessoas e compreender a política como um instrumento de transformação social”, afirmou ao Tempo Novo.
Ela ressalta, no entanto, que quer construir a própria história. “Eu carrego comigo essa referência, mas também quero construir a minha trajetória, com as minhas experiências, convicções e um olhar voltado para as pessoas mais necessitadas e mais humildes, que foram as de maior acolhimento na gestão de papai e de mamãe.”
A carreira no Judiciário também pesou na decisão. Há 16 anos, Penélope está à frente da Justiça Comunitária, ação do Tribunal de Justiça do Espírito Santo que leva mediação de conflitos e acesso à cidadania às comunidades mais carentes. “Essa experiência me colocou em contato direto com problemas reais das famílias e mostrou que muitas mudanças precisam acontecer dentro do Legislativo”, disse.
Propostas para mulheres, crianças e mães atípicas
Entre as prioridades, a candidata cita o endurecimento das leis contra agressões físicas e psicológicas à mulher, feminicídio e abusos contra crianças e adolescentes. Ela também promete atuar pelo empreendedorismo, pelo acesso à justiça e pela inclusão social. Outro foco são as mães atípicas, grupo que, segundo ela, ainda enfrenta um déficit grande de cuidado e acolhimento.
Na educação, Penélope diz que pretende destinar emendas para a construção de creches em tempo integral, principalmente na Serra. Já na causa animal, defende clínicas veterinárias públicas e punições mais duras para quem maltrata animais.
Família Feu Rosa ajudou a formar a Serra
A candidatura recoloca nas urnas um sobrenome ligado à própria formação política da cidade. A linhagem começa com o libanês João Miguel, maior liderança da Serra no início do século passado, que chegou a presidir a Câmara Municipal, cargo equivalente ao de prefeito na época. Mais tarde, ele passou o comando político ao genro, o médico Pedro Feu Rosa, que foi vereador em Vitória e deputado estadual. Pedro é pai de Zé Maria e, portanto, avô de Penélope.
O sobrenome da família batiza o bairro Feu Rosa, o segundo mais populoso da Serra. Depois do crime, o núcleo familiar de Zé Maria manteve por algum tempo a participação em disputas eleitorais, especialmente com o irmão, João Miguel Feu Rosa, que foi deputado federal e chegou a disputar a Prefeitura da Serra em 1996, quando o ex-prefeito Sérgio Vidigal venceu pela primeira vez.
Expectativa para a eleição
Penélope define a relação com a Serra como uma ligação de origem, família e pertencimento. “Fui criada no município da Serra, foi onde eu cresci, estudei e trabalhei. Também foi aqui que construí minha trajetória na Justiça Comunitária, ouvindo as pessoas e conhecendo suas necessidades.”
A meta, segundo ela, é chegar a Brasília com o voto serrano. “Quero ser lembrada como uma deputada presente, acessível e corajosa, que não se afastou das pessoas depois da eleição.”