Uma das maiores fabricantes de automóveis do mundo avança com uma profunda reestruturação para reduzir custos e recuperar a rentabilidade. A Nissan colocou em execução um plano que prevê a eliminação de aproximadamente 20 mil postos de trabalho em diferentes países, número equivalente a cerca de 15% de seu quadro global quando a medida foi anunciada.
A transformação também atinge diretamente as fábricas. A montadora decidiu reduzir sua estrutura mundial de produção de 17 para 10 unidades, uma diminuição equivalente a sete plantas. O processo envolve encerramentos de produção, consolidação de operações e, em alguns mercados, transferência ou venda de unidades.
Parte das decisões já saiu do papel. A Nissan encerrou a fabricação de veículos em fábricas na Argentina e no México, enquanto outras unidades históricas no Japão já têm data definida para parar de produzir. Ao mesmo tempo, novas demissões continuam acontecendo em diferentes regiões.
O chamado plano Re nasceu após uma sequência de resultados ruins, perda de participação em mercados importantes e dificuldades principalmente nos Estados Unidos e na China. Entretanto, os números mais recentes indicam que o programa de redução de custos começou a produzir resultados financeiros positivos.
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Nissan vai demitir 20 mil funcionários
A primeira grande rodada de redução previa cerca de 9 mil empregos. Em maio de 2025, porém, a Nissan aprofundou a reestruturação e anunciou outros 11 mil cortes.
Com isso, o total previsto subiu para aproximadamente 20 mil postos de trabalho, ou cerca de 15% da força global da companhia.
Os cortes não acontecem todos de uma vez.
A empresa distribuiu o processo ao longo de diferentes mercados e áreas administrativas, comerciais, logísticas e industriais. Na Europa, por exemplo, a Nissan confirmou em maio de 2026 uma nova redução de aproximadamente 900 empregos, cerca de 10% do quadro regional considerado naquela reorganização.
A medida atinge principalmente funções administrativas e de armazenagem. Além disso, a empresa passou a simplificar estruturas internas e reduzir camadas de gestão.
A Nissan quer chegar ao fim da transformação com uma companhia menor, menos cara e capaz de obter lucro vendendo menos veículos.
Nissan reduz número de fábricas de 17 para 10
A redução industrial representa uma das partes mais duras da estratégia.
Quando apresentou o novo plano, a Nissan informou que diminuiria sua rede mundial de fabricação de 17 para 10 plantas. Na prática, sete unidades deixariam a estrutura produtiva global até a conclusão da reorganização.
A empresa também pretende reduzir sua capacidade global de aproximadamente 3,5 milhões para 2,5 milhões de veículos por ano.
Nem todas as sete unidades necessariamente terão o mesmo destino. Em alguns casos, a Nissan encerra completamente sua fabricação. Em outros, concentra a produção em outra fábrica ou transfere ativos para um novo proprietário.
Mesmo assim, dois encerramentos importantes já aconteceram, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Fábrica já parou de produzir carros
Uma das primeiras mudanças ocorreu na América do Sul.
A Nissan encerrou a fabricação de veículos na fábrica de Santa Isabel, na Argentina, em outubro de 2025. A própria companhia registrou oficialmente o fim da produção no local em seu relatório mais recente.
A decisão fez parte da reorganização das operações latino-americanas.
Curiosamente, a fábrica era relativamente nova na estrutura da Nissan. A unidade ligada à companhia havia começado a operar para a montadora em 2018.
Com a mudança, a empresa deixou de fabricar veículos naquele complexo argentino e reorganizou sua produção regional.
Nissan encerrou fábrica histórica
Outro fechamento ganhou ainda mais destaque devido à história da unidade.
Em março de 2026, a Nissan encerrou a produção de veículos na fábrica CIVAC, localizada no México. A informação aparece no relatório oficial da companhia referente ao último exercício fiscal.
A unidade possuía enorme importância para a trajetória internacional da montadora.
A Nissan iniciou suas operações industriais em CIVAC em 1966, quando começou sua expansão produtiva fora do Japão. Ao longo de aproximadamente seis décadas, a fábrica produziu mais de 6,5 milhões de veículos.
Com o encerramento, a empresa concentrou aquela produção em seu complexo industrial de Aguascalientes, também no México.
Portanto, nesse caso, não se trata apenas de uma intenção futura: a histórica operação de CIVAC já deixou efetivamente de fabricar automóveis.
Outras duas fábricas históricas serão fechadas
A reestruturação também chegou ao próprio Japão.
A Nissan decidiu encerrar a fabricação de automóveis na unidade de Shonan, operada pela Nissan Shatai, até março de 2027. A fábrica produzia principalmente veículos comerciais.
Além disso, a montadora confirmou o fim da produção na histórica fábrica de Oppama até março de 2028.
Oppama começou a produzir carros em 1961 e se tornou uma das unidades mais simbólicas da fabricante japonesa. A fábrica chegou a empregar aproximadamente 3.900 trabalhadores e possui capacidade anual próxima de 240 mil veículos.
Foi também em Oppama que a Nissan iniciou, em 2010, a fabricação do Leaf, um dos primeiros automóveis elétricos produzidos em grande escala no mundo.
Já Shonan possuía aproximadamente 1.200 funcionários quando entrou no processo de reestruturação.
Assim, o plano deixa de atingir apenas operações consideradas periféricas e alcança fábricas tradicionais dentro do próprio país de origem da Nissan.
Por que a Nissan decidiu demitir funcionários e fechar fábricas?
A empresa entrou na reestruturação depois de enfrentar forte deterioração de seus resultados.
No ano fiscal encerrado em março de 2025, a Nissan registrou prejuízo líquido de aproximadamente 671 bilhões de ienes, equivalente na época a cerca de US$ 4,5 bilhões. O lucro operacional também despencou 88% naquele exercício.
Os problemas não desapareceram no exercício seguinte.
No ano fiscal encerrado em março de 2026, a montadora voltou a apresentar prejuízo líquido. A perda atribuída aos acionistas chegou a 533,1 bilhões de ienes. As vendas globais de veículos também recuaram 5,8%, para aproximadamente 3,15 milhões de unidades.
Entre os principais desafios estão a forte concorrência das montadoras chinesas, especialmente no segmento de veículos elétricos, e a perda de força da Nissan em mercados fundamentais.
A companhia também enfrentou dificuldades nos Estados Unidos, além de tarifas comerciais e aumento de custos.
Outro episódio que marcou o período foi o fracasso das negociações para uma possível fusão com a Honda. As conversas chegaram a abrir caminho para a criação de uma das maiores fabricantes de veículos do planeta, mas acabaram encerradas sem acordo.
Plano quer cortar bilhões em despesas
Ao assumir o comando da Nissan em abril de 2025, o CEO Ivan Espinosa aumentou significativamente a intensidade da reestruturação.
A meta do plano Re inclui uma redução de aproximadamente 500 bilhões de ienes em custos. Para alcançar esse valor, a empresa começou a revisar praticamente todas as áreas da operação.
Além das fábricas e funcionários, a Nissan diminui a complexidade de componentes, reorganiza desenvolvimento de veículos e busca produzir mais modelos compartilhando peças e plataformas.
A companhia também pretende reduzir em aproximadamente 70% a complexidade de seu portfólio de peças, diminuindo custos de desenvolvimento e fabricação.
O objetivo principal é simples: permitir que a Nissan consiga ganhar dinheiro mesmo com um volume de vendas significativamente menor do que aquele registrado nos melhores anos da companhia.
Brasil também sofreu efeito da reestruturação da Nissan
O Brasil não ficou completamente fora das mudanças.
A Nissan decidiu encerrar seu centro de design em São Paulo. O fechamento entrou na reorganização mundial da área de desenvolvimento e design da companhia.
Além da unidade brasileira, a empresa fechou um centro na Califórnia e reduziu operações em Londres e no Japão. A Nissan, entretanto, não informou quantos empregos foram eliminados no Brasil com o fechamento do centro paulista.
Por outro lado, até agora não existe anúncio de fechamento da principal fábrica brasileira.
Fábrica da Nissan no Brasil foi preservada
Enquanto unidades de outros países param de produzir, o complexo de Resende, no Rio de Janeiro, continua dentro dos planos da montadora.
A lista mundial de instalações da própria Nissan, atualizada em 2026, mantém Resende como unidade produtiva brasileira. Atualmente, o complexo fabrica os modelos Nissan Kicks e Nissan Kait.
Além disso, a situação brasileira contrasta com os fechamentos internacionais.
A empresa concluiu um ciclo de R$ 2,8 bilhões em investimentos no Brasil, direcionado principalmente à modernização do complexo industrial de Resende e à preparação das linhas para fabricar novos veículos.
O Kait produzido no Rio de Janeiro também ganhou papel regional. Em maio de 2026, a Nissan informou que o SUV brasileiro já seguia para oito mercados da América Latina.
Portanto, apesar de o corte global envolver aproximadamente 20 mil empregos, não há anúncio de uma demissão em massa na fábrica brasileira de Resende.
Nissan começa a apresentar sinais de recuperação
Apesar do tamanho dos cortes, os resultados mais recentes trouxeram uma mudança importante.
No trimestre encerrado em junho de 2026, a Nissan registrou lucro operacional de 77,9 bilhões de ienes, equivalente a cerca de US$ 497 milhões. Um ano antes, exatamente no mesmo período, a companhia havia apresentado prejuízo operacional de 79,1 bilhões de ienes.
Foi o quarto trimestre consecutivo com lucro operacional.
O resultado ficou muito acima da expectativa média dos analistas consultados pela LSEG, que esperavam lucro de apenas 7,5 bilhões de ienes.
A Nissan atribuiu parte dessa melhora justamente às medidas para controlar despesas.
Mesmo assim, a companhia ainda enfrenta problemas. Em agosto, reduziu em 5% sua projeção de vendas mundiais para o atual exercício, para aproximadamente 3,15 milhões de veículos, principalmente diante das dificuldades enfrentadas na China.
Na China, a previsão anual caiu 18%, para cerca de 580 mil unidades.
Reestruturação da Nissan
Portanto, a Nissan continua no meio de uma das maiores reorganizações de sua história recente.
Os 20 mil postos de trabalho não representam 20 mil pessoas demitidas de uma única vez. Trata-se do tamanho total da redução global planejada pela companhia, que vem acontecendo gradualmente em diferentes países e setores.
O mesmo cuidado vale para as sete fábricas.
A meta anunciada pela Nissan consiste em diminuir sua estrutura industrial de 17 para 10 unidades, enquanto executa encerramentos, consolidações e outras mudanças. Algumas fábricas já pararam definitivamente de produzir, enquanto outras possuem datas futuras para o encerramento das linhas.
A estratégia é dura, mas os primeiros números de 2026 indicam que a redução de custos começou a ajudar a empresa a recuperar rentabilidade.
Agora, a Nissan tenta completar a transformação sem perder espaço justamente no momento em que fabricantes chinesas avançam rapidamente no mercado mundial de automóveis elétricos e híbridos.
