O setor supermercadista brasileiro acompanha uma mudança significativa na estrutura de uma de suas maiores empresas. Depois de investir durante anos na abertura de estabelecimentos e na conquista de novos mercados, uma gigante do varejo decidiu diminuir operações, encerrar lojas e reduzir expressivamente seu quadro de funcionários.
Em apenas três meses, a companhia registrou uma redução de aproximadamente 6,6 mil trabalhadores. Além disso, 28 estabelecimentos deixaram de funcionar, enquanto outros 20 pontos comerciais perderam departamentos inteiros.
A reorganização ocorre em meio à pressão sobre os resultados financeiros e à necessidade de melhorar a rentabilidade. Mesmo com faturamento bilionário e novas inaugurações, a empresa passou a concentrar investimentos em operações que oferecem melhores perspectivas de retorno.
A rede responsável pelas mudanças é o Grupo Mateus, dono das bandeiras Mateus Supermercados, Mix Mateus e Eletro Mateus. Com forte atuação no Norte e Nordeste, o conglomerado figura entre as três maiores empresas do varejo alimentar brasileiro.
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Gigante dos supermercados demite 6,6 mil funcionários
Os números mostram uma diminuição expressiva na quantidade de profissionais que trabalham para o Grupo Mateus.
Em dezembro de 2025, a companhia contava com aproximadamente 47,9 mil empregados. Entretanto, ao encerrar março de 2026, esse contingente havia diminuído para cerca de 41,2 mil pessoas.
A diferença representa aproximadamente 6.673 trabalhadores a menos, o equivalente a uma redução próxima de 14% do quadro anterior.
Vale destacar que essa diferença corresponde à queda líquida no número de empregados. Os dados não permitem afirmar que todos os 6.673 trabalhadores sofreram demissões, já que a variação também pode incluir saídas voluntárias e outras alterações no quadro.
O Grupo Mateus mantém operações em diferentes estados, principalmente Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Bahia e Sergipe.
Apesar disso, a empresa não apresentou uma relação detalhada das reduções por município, estado ou estabelecimento. Portanto, não é possível identificar exatamente quais localidades concentraram a maior quantidade de desligamentos.
A diminuição do quadro aconteceu durante a revisão da estrutura operacional da companhia, que passou a dar maior atenção à produtividade e ao controle de despesas.
Rede encerra 28 lojas no Brasil
A redução no número de empregados não foi a única medida adotada pelo conglomerado.
Durante 2025, o Grupo Mateus também decidiu encerrar 28 lojas da bandeira Eletro Mateus, especializada na comercialização de eletrodomésticos, móveis e aparelhos eletrônicos.
Os estabelecimentos faziam parte de uma divisão diferente dos supermercados e atacarejos tradicionais da empresa.
Dessa maneira, os fechamentos não significam que 28 supermercados alimentícios tenham encerrado suas atividades. A medida atingiu especificamente pontos comerciais dedicados ao segmento de eletroeletrônicos.
O Pará apareceu entre os estados mais afetados por essa reorganização. Apenas nos últimos três meses de 2025, a companhia fechou 13 estabelecimentos Eletro Mateus no território paraense.
Além das lojas independentes, a empresa também encerrou a operação de departamentos de eletroeletrônicos instalados dentro de outros 20 estabelecimentos.
Esses setores funcionavam como espaços destinados à venda de produtos como televisores, geladeiras, fogões e outros equipamentos dentro de unidades que comercializavam alimentos.
Com a mudança, o grupo passou a reduzir sua exposição a atividades que apresentavam resultados financeiros inferiores aos esperados.
Por que uma das maiores redes de supermercados decidiu fechar lojas?
A decisão representa uma mudança de prioridades na administração da rede de supermercados, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Nos últimos anos, a companhia apostou em um ritmo acelerado de crescimento. Novas unidades surgiram em diferentes estados, enquanto a empresa ampliou sua estrutura logística e fortaleceu a presença no comércio atacadista.
Contudo, o aumento da rede também elevou os gastos necessários para manter as operações.
Uma estrutura maior exige investimentos constantes em funcionários, transporte de mercadorias, distribuição, energia elétrica, manutenção de imóveis e outras despesas administrativas.
Diante desse cenário, a direção passou a analisar com mais rigor a capacidade de cada unidade gerar resultados.
A estratégia envolve a revisão de contratos, o encerramento de atividades menos rentáveis e a concentração de recursos nos negócios considerados mais eficientes.
Na prática, a companhia busca evitar que operações de baixo desempenho comprometam a rentabilidade das demais unidades.
Essa mudança não significa o abandono dos planos de expansão. O grupo continua interessado em novos mercados, mas pretende crescer de maneira mais seletiva.
Lucro da gigante dos supermercados
Os resultados financeiros ajudam a compreender o momento enfrentado pela rede.
No segundo trimestre de 2026, o Grupo Mateus alcançou lucro líquido de aproximadamente R$ 236,8 milhões.
Embora o valor represente um resultado positivo, ele ficou consideravelmente abaixo dos cerca de R$ 390 milhões registrados no mesmo trimestre de 2025.
A comparação revela uma queda próxima de 39,3% no lucro da companhia.
O desempenho também apresentou retração quando considerados os primeiros seis meses de 2026.
Entre janeiro e junho, o lucro líquido chegou a aproximadamente R$ 449,7 milhões, valor 32,1% inferior ao registrado no primeiro semestre do ano anterior.
Outro sinal de desaceleração apareceu nas vendas das unidades que já estavam em funcionamento.
Durante o segundo trimestre, as vendas nas mesmas lojas recuaram cerca de 8%. No acumulado dos primeiros seis meses, a queda ficou próxima de 7,7%.
Esse indicador permite avaliar como os estabelecimentos existentes estão vendendo, sem considerar o crescimento provocado por novas inaugurações.
Assim, mesmo com a expansão da rede, parte das unidades apresentou um desempenho comercial mais fraco.
Mesmo após fechar lojas, rede continua faturando bilhões
Um aspecto importante é que a redução no lucro não acompanhou o comportamento do faturamento.
Na realidade, a receita do Grupo Mateus continuou aumentando.
Durante o segundo trimestre de 2026, a companhia registrou receita líquida de aproximadamente R$ 9,85 bilhões, crescimento de 12,2% em relação ao mesmo intervalo de 2025.
O avanço ocorreu principalmente com a ampliação das operações, novas unidades comerciais e a incorporação de negócios.
Entre as operações que contribuíram para aumentar a presença do conglomerado está o Novo Atacarejo, além de outros estabelecimentos inaugurados em mercados estratégicos.
Os números revelam uma situação em que a empresa consegue ampliar suas vendas totais, mas enfrenta dificuldades para transformar esse crescimento em lucros maiores.
Por isso, a administração passou a priorizar não apenas o tamanho do faturamento, mas também o retorno efetivo de cada operação.
Rede continua inaugurando supermercados
Apesar do encerramento das 28 unidades Eletro Mateus, o conglomerado não interrompeu suas atividades de expansão.
A companhia continuou inaugurando supermercados e atacarejos ao longo de 2026, principalmente em localidades consideradas estratégicas para seus negócios.
A principal diferença está na escolha dos novos investimentos.
Anteriormente, o grupo mantinha uma estratégia fortemente orientada ao aumento da quantidade de estabelecimentos e à entrada em novos mercados.
Agora, cada projeto passa por avaliações mais rigorosas de rentabilidade, demanda e custos operacionais.
Dessa forma, uma unidade existente pode passar por mudanças ou até encerrar as atividades caso apresente desempenho insatisfatório. Ao mesmo tempo, cidades com potencial comercial continuam recebendo novas operações.
O objetivo é combinar o crescimento da receita com uma estrutura mais eficiente e menos onerosa.
Rede de supermercados é uma das maiores do Brasil
Mesmo diante da reorganização, o Grupo Mateus mantém uma posição de destaque no mercado nacional.
Segundo o Ranking ABRAS 2026, elaborado pela Associação Brasileira de Supermercados com base no faturamento de 2025, a companhia alcançou aproximadamente R$ 43,55 bilhões em receitas.
O resultado garantiu ao grupo a terceira colocação entre as maiores empresas do varejo alimentar brasileiro.
O Carrefour ocupou o primeiro lugar, com faturamento próximo de R$ 123,59 bilhões. Já o Assaí apareceu na segunda posição, com aproximadamente R$ 84,74 bilhões.
Apesar de ficar atrás dessas duas gigantes, o Grupo Mateus liderou a classificação entre as empresas de capital integralmente nacional.
A posição evidencia o tamanho de uma companhia que construiu grande parte de sua trajetória comercial fora dos principais centros econômicos do Sudeste.
A presença no Maranhão, Pará e em outros estados do Norte e Nordeste foi fundamental para transformar o negócio em uma das maiores redes do país.
Gigante dos supermercados nasceu de uma mercearia
A história do Grupo Mateus começou muito antes de a companhia alcançar faturamento bilionário.
Em 1986, o empresário Ilson Mateus abriu uma mercearia de aproximadamente 50 metros quadrados no município de Balsas, no interior do Maranhão.
O estabelecimento atendia consumidores locais e marcou o início de uma expansão que ganhou força nas décadas seguintes.
Com o crescimento das vendas, o empresário ampliou o negócio e passou a atuar também na distribuição de produtos para outros comerciantes.
Posteriormente, vieram os depósitos, os centros de distribuição, os supermercados e as operações atacadistas.
A empresa ultrapassou as fronteiras maranhenses e chegou a diferentes estados brasileiros, consolidando marcas como Mateus Supermercados, Mix Mateus, Eletro Mateus, Armazém Mateus, Camiño e Spazio.
Atualmente, o conglomerado também participa das operações do Novo Atacarejo.
Depois de quatro décadas de crescimento, a empresa enfrenta uma etapa diferente de sua trajetória. O encerramento de 28 lojas e a redução de mais de 6,6 mil trabalhadores no quadro mostram que a administração passou a combinar expansão com revisão de custos.
Assim, enquanto continua investindo em novos supermercados e atacarejos, o Grupo Mateus busca recuperar a rentabilidade e concentrar seus recursos nas operações que oferecem melhores resultados financeiros.