Já parou para pensar no que faria se tivesse um dia inteiro só seu durante a semana, sem obrigações, sem culpa? A pergunta é simples, mas pode dizer muito sobre como você tem vivido.
Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre a possibilidade de um dia extra de descanso na semana. Não como um feriado qualquer, mas como uma mudança real na forma como organizamos o trabalho. E diante disso, uma pergunta simples aparece: o que você faria com esse tempo?
Pode parecer uma questão fácil de responder, mas para muita gente ela traz um certo incômodo. É como se, ao pensar num dia livre, viesse junto um pensamento de uma lista de tarefas atrasadas, a sensação de que descansar é desperdício, a culpa por não produzir. Isso acontece porque crescemos ouvindo que nosso valor está no que fazemos, no que entregamos. E, aos poucos, fomos perdendo a capacidade de simplesmente ser.
A verdade é que descansar vai muito além de dormir. Dormir é parte, mas não é tudo. O corpo pode estar deitado enquanto a mente continua acelerada, remoendo problemas, respondendo a mensagens, se comparando com a vida que os outros mostram nas redes. Há diferentes formas de cansaço, e cada uma pede um tipo de descanso. Há o cansaço físico, que pede movimento ou quietude. Há o cansaço mental, que pede silêncio interior. Há o cansaço emocional, que pede acolhimento sem julgamento. Há o cansaço social, que pede a companhia de quem nos faz bem. E há tantos outros.
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Talvez por isso, para muita gente, o domingo não seja suficiente. Um dia de folga no meio da semana, sem tempo para planejar nada, sem energia para estar com quem se gosta, acaba sendo apenas um intervalo entre uma jornada e outra. É o que vive quem trabalha na escala 6×1 (ou em alguns casos escala 7×0), ainda tão comum no país. Seis dias trabalhando, um descansando. Nesse ritmo, o que sobra é o cansaço. O que falta é tempo para viver.
E quando olhamos para as mulheres, especialmente as mães, a coisa se complica ainda mais. Para elas, o fim do expediente não é o fim da jornada. É o começo de outra: o cuidado com os filhos, a casa, a comida, a roupa, a vida da família. Trabalho que não aparece, não é pago, mas pesa. E ocupa o tempo que seria de descanso. Não é à toa que as mulheres são as que mais adoecem por causas ligadas ao trabalho. O corpo avisa quando a conta não fecha.
Talvez a pergunta sobre o que faríamos com um dia a mais de descanso seja, no fundo, uma pergunta sobre o que temos deixado de lado em nós mesmos. Sobre o que a gente não se permite porque a vida corre, as obrigações apertam, e a gente vai empurrando com a barriga o cuidado com a própria saúde.
Não se trata de ter uma resposta pronta. Mas talvez valha a pena se perguntar: o que eu faria se pudesse parar um dia inteiro sem culpa? Se a resposta for “não sei”, tudo bem. Se for “cuidar de mim”, também. O importante é que a pergunta fique. Porque ela pode ser o começo de algo maior: a redescoberta de que a gente não é só o que faz. A gente é, antes de tudo, o que sente, o que deseja, o que precisa.
E se um dia a mais de descanso se tornar realidade para milhões de brasileiros, que ele não seja apenas mais um dia. Que seja um dia para se reconectar. Com a gente, com os outros, com a vida simples que corre lá fora enquanto a gente trabalha. Porque descansar não é luxo. É necessidade. E cuidar de si não é egoísmo. É condição para seguir em frente.
Por Nilson S. Aliprandi, psicólogo clínico humanista (CRP 16/11049)
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