Uma gigante do setor automotivo iniciou uma das discussões de reestruturação mais profundas dos últimos anos. O plano pode atingir dezenas de milhares de trabalhadores e colocar em risco quatro grandes fábricas que hoje empregam milhares de pessoas.
No cenário mais severo analisado pela direção, a companhia poderá eliminar até 100 mil postos de trabalho em diferentes países. Ao mesmo tempo, quatro unidades industriais perderam a garantia de novos projetos para a próxima década e entraram no centro das negociações.
A fabricante é a Volkswagen. No Brasil, a marca ocupa atualmente a segunda posição entre as montadoras em vendas. Somente em julho de 2026, foram 41.956 veículos emplacados, atrás apenas da Fiat, que registrou 49.008 unidades.
Entretanto, os cortes e eventuais fechamentos discutidos pelo grupo concentram-se, neste momento, principalmente na Alemanha. A Volkswagen não anunciou o encerramento de fábricas brasileiras dentro desse plano.
Leia também
- Segunda maior montadora do Brasil fecha 4 fábricas e manda demitir 100 mil funcionários em crise histórica
- Maior fabricante de eletrodomésticos do Brasil fecha 2 fábricas e manda demitir 2 mil funcionários
- Maior rede de supermercados do Brasil fecha 28 lojas e manda demitir 6 mil funcionários em várias cidades
Montadora vai cortar 100 mil empregos
O tamanho da reestruturação ganhou uma nova dimensão depois que o CEO do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, enviou uma comunicação interna aos funcionários.
No documento, Blume reconheceu que a companhia pode precisar eliminar aproximadamente 50 mil empregos adicionais para reduzir custos e competir em condições semelhantes às principais rivais.
Esse número se somaria a outros 50 mil postos que já fazem parte de programas de redução de pessoal dentro do grupo, incluindo medidas envolvendo Volkswagen, Audi e Porsche.
Portanto, caso a empresa aplique todo o cenário discutido, o corte poderá chegar a aproximadamente 100 mil empregos em todo o mundo. A Reuters informou que a própria comunicação interna do CEO confirmou, pela primeira vez, que esse volume total está efetivamente sob análise.
Ainda assim, isso não significa que a Volkswagen já decidiu demitir 100 mil trabalhadores.
A companhia analisa diferentes caminhos para reduzir despesas. Assim, uma queda nos custos por funcionário, mudanças administrativas e ganhos de produtividade podem diminuir a necessidade de novos desligamentos.
Por que a montadora vai demitir tantos funcionários?
A direção identificou uma diferença significativa entre seus custos e os de empresas concorrentes.
Segundo Oliver Blume, o Grupo Volkswagen apresenta uma desvantagem de aproximadamente 20% nos custos em comparação com companhias semelhantes. Por isso, a fabricante começou a revisar praticamente toda a sua estrutura.
A estratégia inclui reduzir despesas administrativas, simplificar as marcas, diminuir a quantidade de modelos, enxugar a produção e buscar novos usos para fábricas com capacidade ociosa.
Além disso, a Volkswagen enfrenta concorrência cada vez mais forte das fabricantes chinesas, tarifas de importação nos Estados Unidos e custos elevados de produção na Europa.
A pressão aumentou principalmente porque o grupo precisa investir pesadamente em carros elétricos, baterias, plataformas digitais e software enquanto tenta recuperar sua rentabilidade.
Quatro fábricas serão fechadas
Quatro unidades industriais aparecem no centro da reestruturação: Hannover, Zwickau, Emden e Neckarsulm.
Hannover, Zwickau e Emden pertencem à Volkswagen. Já Neckarsulm pertence à Audi, que faz parte do Grupo Volkswagen.
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, o encerramento dessas quatro plantas poderia colocar mais de 45 mil empregos em risco. Caso a companhia avançasse simultaneamente com os 100 mil cortes e o fechamento das unidades, a reorganização poderia se tornar a maior já registrada pela indústria automotiva em números absolutos.
No entanto, a Volkswagen ainda não aprovou o fechamento definitivo dessas fábricas.
Oliver Blume reconheceu que a companhia ainda não encontrou projetos competitivos que garantam a utilização das unidades de Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm durante a década de 2030.
Por isso, o futuro dessas fábricas permanece em aberto.
Segunda maior montadora do Brasil tenta evitar fechamento das fábricas
A própria direção afirma que prefere encontrar outras soluções antes de simplesmente encerrar as unidades, conforme apurado pelo Portal Tempo Novo.
Entre as possibilidades aparecem novos projetos industriais, entrada de parceiros, produção de veículos desenvolvidos para outros mercados e utilização de áreas ociosas por empresas de diferentes setores.
Além disso, a Volkswagen poderá reduzir turnos e concentrar determinados modelos em menos fábricas.
Essas medidas diminuiriam a capacidade produtiva sem obrigar a montadora a fechar imediatamente todas as plantas ameaçadas.
Mesmo assim, sindicatos temem que a redução gradual da produção acabe tornando algumas unidades inviáveis nos próximos anos.
Montadora também vai reduzir quantidade de carros
A transformação não ficará restrita aos funcionários e às fábricas.
O grupo anunciou que pretende reduzir gradualmente sua linha de modelos em até metade. Além disso, a Volkswagen planeja baixar sua capacidade de produção anual de aproximadamente 10 milhões para 9 milhões de veículos.
A empresa também quer diminuir drasticamente a complexidade de versões e equipamentos oferecidos aos consumidores.
Hoje, diferentes marcas do grupo disputam faixas semelhantes do mercado. Volkswagen, Audi, Porsche, Skoda, Seat e Cupra, por exemplo, compartilham plataformas, motores, componentes e tecnologias.
Porém, manter uma quantidade muito grande de modelos, versões e opcionais aumenta os custos de engenharia, produção, logística e marketing.
Portanto, a companhia pretende concentrar investimentos nos segmentos considerados mais rentáveis.
Crise na China aumenta pressão sobre a montadora
Um dos maiores problemas aparece justamente em um mercado que ajudou a transformar a Volkswagen em uma das maiores fabricantes do planeta.
A China ganhou importância estratégica para o grupo durante décadas. Entretanto, marcas locais avançaram rapidamente com carros elétricos, híbridos e veículos altamente conectados.
O resultado começou a aparecer nas vendas.
No segundo trimestre de 2026, as entregas do Grupo Volkswagen na China caíram 36,6% na comparação anual. No primeiro semestre, a queda acumulada chegou a 25,9%.
A companhia também perdeu posições no mercado chinês. Depois de liderar o país durante anos, a Volkswagen perdeu o primeiro lugar para a BYD em 2024 e caiu para a terceira posição em 2025.
Enquanto isso, fabricantes chinesas também aumentam sua presença na Europa e em países emergentes.
Assim, a Volkswagen precisa cortar custos justamente quando precisa acelerar investimentos em tecnologia.
Lucro também preocupa a segunda maior montadora do Brasil
Os números financeiros ajudam a explicar a urgência da transformação.
A Volkswagen encerrou 2025 com margem operacional de apenas 2,8%, depois de registrar resultado operacional de 8,9 bilhões de euros. O lucro operacional caiu 53% em relação ao ano anterior.
Para 2026, o grupo trabalha com uma margem operacional entre 4% e 5,5%. A própria companhia confirmou essa projeção ao divulgar os resultados do primeiro semestre.
Portanto, a direção tenta recuperar rentabilidade enquanto enfrenta tarifas, concorrência asiática e custos elevados na Alemanha.
Trabalhadores resistem aos novos cortes
A Volkswagen também enfrenta um obstáculo importante dentro da própria estrutura da companhia.
Os trabalhadores possuem forte representação no conselho de supervisão. Além disso, o estado alemão da Baixa Saxônia participa da estrutura acionária e exerce influência sobre decisões estratégicas.
Essa configuração dificulta mudanças profundas sem negociação.
Representantes trabalhistas já rejeitaram propostas envolvendo novos cortes e possíveis fechamentos de unidades. Funcionários também realizaram manifestações contra a reestruturação.
Os sindicatos defendem que problemas de planejamento, decisões administrativas e atrasos tecnológicos também contribuíram para a situação atual.
Por outro lado, a direção argumenta que precisa agir rapidamente para recuperar a competitividade.
As 100 mil demissões já estão confirmadas?
A Volkswagen não anunciou uma demissão imediata de 100 mil funcionários.
Na prática, o número representa a soma de dois movimentos.
O grupo já acertou aproximadamente 50 mil cortes de postos de trabalho em diferentes empresas. Agora, Oliver Blume reconheceu que outros 50 mil empregos poderão desaparecer caso a companhia não consiga reduzir seus custos por outros caminhos.
Portanto, os 100 mil representam o cenário máximo atualmente discutido.
As negociações ainda podem alterar significativamente esse total.
Além disso, a redução de funcionários pode ocorrer por aposentadorias, programas voluntários, não reposição de vagas e outras formas de diminuição do quadro.
Fábricas brasileiras também podem fechar?
Até agora, não existe anúncio de fechamento das fábricas da Volkswagen no Brasil dentro desse plano.
As quatro unidades diretamente citadas nas discussões ficam na Alemanha.
Atualmente, a Volkswagen mantém quatro fábricas brasileiras: Anchieta, em São Bernardo do Campo; Taubaté e São Carlos, no estado de São Paulo; e São José dos Pinhais, no Paraná.
A fábrica de São Carlos produz motores. Já as demais concentram a fabricação de veículos como Tera, Polo, Nivus, Virtus, Saveiro e T-Cross.
Portanto, não há decisão que determine o encerramento dessas operações brasileiras.
Além disso, o desempenho comercial da marca continua forte no país. Em julho, a Volkswagen terminou como a segunda montadora com mais veículos emplacados no Brasil, atrás somente da Fiat.
Mesmo assim, mudanças globais dessa dimensão podem influenciar investimentos futuros, distribuição de modelos e decisões sobre onde a montadora produzirá novos veículos.
Montadora entra em fase decisiva da reestruturação
A discussão agora ultrapassa um simples programa de redução de despesas.
A Volkswagen pretende diminuir sua capacidade industrial, cortar modelos, reorganizar operações e aproximar seus custos dos principais concorrentes.
Caso essas medidas não entreguem o resultado esperado, o grupo poderá avançar com cortes ainda mais profundos.
Nesse cenário, até 100 mil postos de trabalho poderiam desaparecer e quatro grandes fábricas alemãs enfrentariam risco de encerramento.
Por enquanto, porém, nenhuma dessas duas medidas extremas está definitivamente aprovada.
A direção ainda precisa negociar com sindicatos, representantes dos funcionários e integrantes do conselho de supervisão. Dessa forma, o desenho final da reestruturação poderá mudar.
Mesmo assim, a dimensão das propostas mostra o tamanho do desafio enfrentado pela fabricante. Se o cenário mais duro avançar, a Volkswagen poderá executar uma das maiores reestruturações já vistas pela indústria automobilística mundial.
