Qual é o sentido do movimento ‘traiçoeiro’ de Arnaldinho?

Compartilhe:
Pazolini e Arnaldinho: parceria que nunca existiu. Foto: Marcos Salles / Folha Vitória.

O cavalo de pau dado por Arnaldinho Borgo (PSDB), prefeito de Vila Velha, é daqueles movimentos que, além de deixar sequelas, geram muitas dúvidas. Nem mesmo do ponto de vista tático a mudança parece fazer sentido. Na política, quando se opta por um movimento considerado “traiçoeiro”, o benefício precisa ser maior do que a cicatriz deixada. Ainda assim, é necessário medir com cuidado o risco de manchar a própria trajetória e ficar mal-afamado nos meios políticos (que, vale lembrar, não costumam perdoar).

Arnaldinho se beneficiou politicamente, por anos, da aliança com o governador Renato Casagrande (PSB), especialmente durante suas eleições para a Prefeitura de Vila Velha. No entanto, essa relação começou a azedar nos últimos meses, após Casagrande anunciar que seu apoio na disputa pelo Governo do Estado em 2026 será direcionado a Ricardo Ferraço (MDB).

Depois de recados indiretos e sinalizações públicas, Arnaldinho apareceu no Carnaval de Vitória ao lado (e em total sintonia) do principal adversário político de Casagrande, o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini. Mais do que a presença, chamou atenção o contexto: o prefeito de Vila Velha estava ao lado de Pazolini no momento em que este tomou o microfone e fez declarações cifradas, mas claras, de enfrentamento político ao governador.

Mesmo assim, a conta não fecha. Esse cavalo de pau só faria algum sentido se Arnaldinho viesse a ser o candidato de Lorenzo Pazolini, algo que, até o momento, não está colocado de forma objetiva no tabuleiro político.

Arnaldinho & Pazolini: nem afinidade, nem tática, nem conveniência…

Essa aliança Arnaldinho e Pazolini não se sustenta por afinidade, seja política, ideológica ou geracional… Desde que se tornou prefeito de Vila Velha, Arnaldinho sempre adotou um posicionamento claramente casagrandista, e não faltam registros, discursos e decisões que comprovam isso.

Receba as notícias mais importantes do dia no grupo de WhatsApp do Tempo Novo

Se não há como justificar por afinidade, tampouco há lógica do ponto de vista estratégico. Politicamente, não parecem existir benefícios concretos em apoiar Pazolini em detrimento de Ricardo Ferraço. Num cenário em que Ferraço seja eleito governador, ele sequer teria disponibilidade política para disputar a reeleição em 2030, já que tudo indica que Casagrande renunciará em abril de 2026 para disputar uma vaga ao Senado, fazendo com que Ferraço assuma o Governo ainda nesse mandato. Portanto, para efeitos da legislação eleitoral, uma eventual vitória de Ferraço em 2026 já o colocaria automaticamente em situação de reeleição.

A situação é completamente diferente no caso de Pazolini. Em uma vitória hipotética, ele teria quatro anos inteiros de mandato e a possibilidade concreta de buscar a reeleição, alcançando até oito anos à frente do Palácio Anchieta. Qual seria, então, o sentido dessa escolha para Arnaldinho?

Há ainda um elemento central nessa equação: a vice de Ricardo Ferraço. Trata-se de uma das posições mais disputadas do processo político, justamente porque, assim como Casagrande em 2026, Ferraço em 2030 também precisaria renunciar caso quisesse disputar outro cargo. Isso faria com que o vice escolhido agora, em uma eventual vitória, pudesse assumir o Governo do Estado a partir de abril de 2030, tornando-se, na prática, governador.

Se fosse o caso de Lorenzo Pazolini ser um candidato em franco favoritismo, do ponto de vista tático ainda seria possível enxergar alguma conveniência política no cavalo de pau dado por Arnaldinho Borgo, embora moralmente questionável. Mas nem isso se sustenta. Nenhuma pesquisa séria aponta Pazolini como favorito; ao contrário, os levantamentos indicam uma disputa acirrada.

Na semana passada, inclusive, Pazolini sofreu alguns baques políticos relevantes, com a entrada de Magno Malta na pré-eleição ao Governo do Estado, movimento que tende a reduzir seu espaço eleitoral; e com a aproximação da federação União Brasil–PP do governador Renato Casagrande. Ou seja, Arnaldinho fez seu movimento justamente em um momento de fragilidade política de Pazolini.

Diante disso, a equação fica ainda mais confusa. Arnaldinho não fez o movimento por afinidade política; Pazolini não é franco favorito; e uma eventual vitória de Ricardo Ferraço abriria um ciclo de, no máximo, quatro anos de governo enquanto Pazolini seria de 8 anos. Afinal, qual é o real sentido desse cavalo de pau?

Pazolini tem mais cartas na mesa do que Arnaldinho

Talvez o movimento fizesse algum sentido caso o próprio Arnaldinho Borgo fosse o candidato de Lorenzo Pazolini, mas não há absolutamente nenhuma sinalização nesse sentido. Pazolini é um líder de envergadura muito maior, tem brilho próprio, sustentou seu projeto político até aqui sem o apoio do Palácio Anchieta e atrai ao seu redor nomes de peso. Conta com um partido forte e estruturado, o Republicanos, e, até o momento, com uma vice considerada confiável.

Arnaldinho, por outro lado, é praticamente só ele. Seu partido, o PSDB, foi esvaziado. Se retirada a estrutura da Prefeitura de Vila Velha, sobra muito pouco em termos de força política própria.

Se queimou?

Se Arnaldinho não é o candidato de Pazolini, então o que explica esse movimento? Um erro de contabilidade política? Um equívoco de cálculo eleitoral? Vaidade falando mais alto? Seja qual for a resposta, o custo é alto. A pecha de “traidor” já está bastante consolidada dentro do PSB e entre aliados mais próximos do governador Renato Casagrande, ainda que interlocutores formais tentem minimizar o desgaste.

Mesmo que Arnaldinho tente recuar, dificilmente retornará do mesmo tamanho e, sobretudo, desfrutando do mesmo nível de confiança política de antes.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

Leia também