Opinião | Pazolini representa o retorno da bolha “vitóriacentrista”

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Pazolini quer governar o Espírito Santo, mas consegue olhar para além das regiões nobres de Vitória? Crédito: divulgação.

Não muito tempo atrás, as necessidades e os desejos do Espírito Santo eram confundidos com as necessidades e os desejos da elite dominante de Vitória. Nesse passado, construiu-se uma capital para poucos capixabas, concentrando atenção e recursos públicos em Vitória e virando-se, muitas vezes, as costas para o restante do Espírito Santo, em especial para a Serra.

A ascensão política de Lorenzo Pazolini à Prefeitura de Vitória retoma esse projeto “vitóriacentrista”, em que o estado orbita Vitória – e não o inverso, uma mentalidade incapaz de enxergar o Espírito Santo para além das áreas nobres da capital e, quando muito, da faixa litorânea de Vila Velha.

Bolha ‘vitóriacentrista’

As próprias falas públicas de Pazolini são bastante explícitas nesse sentido. Ao anunciar a urbanização do poluído Canal de Camburi, o prefeito afirmou que a obramuda o eixo de desenvolvimento do Espírito Santo. É evidente que a autopromoção faz parte da atividade política, mas uma declaração como essa beira a abstração diante do momento que o Espírito Santo vive. Uma declaração como essa diz muito sobre Pazolini e a forma como ele vê e compreende o Espírito Santo, em uma bolha.

A economia petrolífera do sul capixaba e o complexo logístico-portuário do norte falam por si. Para citar apenas um dado, entre tantos possíveis, em 2025 Aracruz abriu mais do que o dobro de empregos formais em comparação com Vitória: 2.524 contra 1.186. A economia da capital perde protagonismo de forma progressiva diante da dinamização do Espírito Santo, um processo que teve início na Serra, em meados dos anos 2000, e que hoje se espalha para outras regiões; e não será a urbanização do poluído canal de Vitória que mudará isso.

Em outro momento, Pazolini foi ainda além em sua abstração “vitóriacentrista”. Ao visitar as obras do mergulhão de Camburi, que conecta a Norte-Sul à Avenida Dante Michelini, o prefeito classificou o projeto como o “investimento mais importante para a mobilidade urbana da história do Espírito Santo”. A declaração beira o caricato (Saturnino de Brito deve ter se revirado). Trata-se de uma obra que não é a mais importante nem mesmo para a mobilidade urbana da história de Camburi, quanto mais da história do Espírito Santo.

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Um terceiro exemplo foi a entrega de casas em um programa habitacional da Prefeitura, classificado por ele como “o maior da história do Espírito Santo”. Em alguns casos, o programa, em questão, retirou moradores de baixa renda da capital e os realocou em outros municípios, seguindo exatamente a cartilha histórica adotada por Vitória.

Trata-se, sobretudo, de uma declaração que desconsidera por completo o doloroso processo de ocupação urbana da Grande Vitória, especialmente da Serra, onde foi necessária uma enorme força-tarefa, em diversos níveis, para lidar (ainda que parcialmente) com a explosão populacional dos anos 1980, período em que surgiram bairros inteiros, como Barcelona e Laranjeiras.

Esses três exemplos, pequenos, mas sintomáticos refletem a mentalidade da antiga elite da capital, que é um um contraponto político e conceitual ao processo de democratização dos investimentos no Espírito Santo, processo que interiorizou recursos e permitiu que regiões historicamente periféricas ao orçamento estadual passassem a experimentar parte do desenvolvimento que, por séculos, esteve concentrado na capital.

Um Espírito Santo plural, rico e democrático

Ao afirmar continuamente que ações tão pontuais de Vitória são as “maiores da história do Espírito Santo’, o prefeito ignora séculos de história, lutas, esforços e realizações que realmente nos trouxeram até aqui. Mais do que isso, ignora o futuro do Espírito Santo.

Pazolini agora ensaia uma subida ao Palácio Anchieta para o cargo de governador. Trata-se de um movimento legítimo, já que esse é um caminho natural para um prefeito de Vitória. No entanto, o Espírito Santo está mudando rapidamente, e Pazolini parece ainda preso a um entendimento estrutural do estado típico do século passado, quando Vitória era o centro de tudo.

Vitória é, sem dúvida, uma cidade maravilhosa para se viver, mas isso tem muito mais a ver com fatores históricos, econômicos e sociais acumulados ao longo do tempo do que com Pazolini, que é apenas um grão na longa história de formação da capital, com quase 500 anos.

É justo e democrático que Pazolini se coloque como um contraponto aos planos de continuidade da governança de Renato Casagrande, que já tem em seu vice, Ricardo Ferraço, o candidato à sucessão. É evidente que a gestão de Casagrande é passível de questionamentos, ninguém permanece oito anos no cargo e agrada a todos.

No entanto, não há como negar que a democratização do orçamento público entre os municípios capixabas e a interiorização dos investimentos e das ações de governo, processo que se libertou da âncora que Vitória historicamente representou, fizeram com que o Espírito Santo efetivamente experimentasse crescimento plural. Esse movimento é uma das maiores marcas e legados da gestão Casagrande.

Pazolini, ao que tudo indica, posiciona-se como um contraponto a esse processo, alinhando-se a setores das elites de Vitória que desejam o retorno a um passado marcado pelo vitóriacentris­mo e pela concentração de recursos, como se o estado ainda estivesse preso às estruturas dos séculos anteriores.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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