O oceano Atlântico está aquecendo e os efeitos desse fenômeno já começam a ser observados no litoral da Serra. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo identificou que ondas de calor marinhas estão provocando mudanças importantes nos recifes costeiros do Sudeste brasileiro.
A pesquisa foi conduzida entre dezembro de 2017 e maio de 2022 em Aracruz e publicada recentemente na revista científica PeerJ, sob o título Marine heatwaves alter intertidal communities in the Southwestern South Atlantic.
Embora o monitoramento tenha sido realizado em Aracruz, os pesquisadores alertam que o fenômeno ocorre em uma região ambientalmente integrada e pode impactar todo o litoral norte da Grande Vitória, incluindo áreas costeiras da Serra.
Área protegida inclui parte do litoral da Serra
O estudo foi desenvolvido em um recife rochoso da Praia de Gramuté, em Aracruz, dentro da Área de Proteção Ambiental Costa das Algas.
Leia também
A unidade de conservação federal foi criada em 2010 e abrange aproximadamente 115 mil hectares entre os municípios de Aracruz, Fundão e Serra (Jacaraípe a Nova Almeida).
Cerca de 99% dessa área é marinha, protegendo ambientes naturais como:
- bancos de algas
- recifes de arenito
- manguezais
- áreas importantes para a reprodução de diversas espécies
Esses ecossistemas sustentam cadeias alimentares marinhas e são fundamentais para a pesca artesanal e a biodiversidade costeira.
Por isso, mudanças observadas em Aracruz também refletem um alerta para todo o território da APA, que inclui áreas marítimas ligadas ao litoral serrano que vão de Jacaraípe a Nova Almeida.
Monitoramento revelou aquecimento extremo do mar
A pesquisa foi conduzida pelo Grupo de Ecologia Bêntica do Departamento de Oceanografia e Ecologia da Ufes.
Os cientistas combinaram duas fontes principais de informação:
- dados de satélites da Nasa e da Agência Espacial Europeia (ESA)
- monitoramento direto em campo, com visitas mensais ao local de estudo
Durante quatro anos de observação, os pesquisadores registraram 22 eventos de calor extremo no oceano.
Um dos episódios mais intensos ocorreu em 2019, quando o aquecimento durou 47 dias consecutivos, com temperaturas até 4°C acima da média histórica.
Segundo o professor Angelo Bernardino, coordenador científico do estudo, as ondas de calor marinhas já são o principal fator de transformação nos recifes monitorados.
“Observamos que mais de 80% das mudanças na cobertura das comunidades marinhas tiveram relação direta com as ondas de calor”, explica o pesquisador.
Mudança nos recifes e perda de algas
Os impactos mais significativos foram observados nas chamadas “florestas” de algas marinhas, que funcionam como abrigo e fonte de alimento para várias espécies.
De acordo com o estudo, essas algas tiveram redução de 38% na cobertura durante os eventos de aquecimento.
No lugar delas começaram a surgir organismos de crescimento mais rápido, como pequenos corais e outros invertebrados.
Essa mudança não afeta apenas a aparência dos recifes.
Segundo os pesquisadores, ela pode alterar todo o funcionamento do ecossistema marinho.
Entre os possíveis efeitos estão:
- redução da produtividade costeira
- mudanças na ciclagem de nutrientes
- impactos nas cadeias alimentares marinhas
Maré baixa agrava o estresse térmico
A primeira autora do estudo, a pesquisadora Ana Carolina Mazzuco, explica que os efeitos do calor se intensificam quando coincidem com períodos de maré baixa.
Nessas situações, os organismos ficam expostos ao ar, o que aumenta ainda mais o estresse térmico.
“O impacto do calor é maior quando as espécies ficam fora da água. Quando ondas de calor coincidem com maré baixa, criam condições críticas que muitas espécies podem não suportar”, afirma.
Recuperação parcial, mas com novo equilíbrio ecológico
Após 2020, os pesquisadores observaram uma recuperação gradual das algas.
No entanto, a comunidade marinha não voltou exatamente ao padrão anterior.
Segundo Bernardino, a recuperação completa pode levar muitos anos — ou talvez nem aconteça.
Isso depende da frequência das ondas de calor no futuro.
“Esses eventos funcionam como agentes de mudança rápida. Eles aceleram processos ecológicos que normalmente levariam décadas”, afirma o pesquisador.
Monitoramento contínuo é essencial
O recife monitorado faz parte do Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração – Habitats Costeiros do Espírito Santo (PELD-HCES).
O projeto acompanha mudanças ambientais no litoral capixaba e reúne pesquisadores, estudantes e programas de pós-graduação da Ufes.
Para os cientistas, manter esse tipo de monitoramento é fundamental para orientar políticas de conservação.
Isso é especialmente importante em áreas protegidas como a APA Costa das Algas, cuja preservação influencia diretamente a biodiversidade marinha e atividades econômicas tradicionais do litoral capixaba, incluindo a pesca artesanal.
Com o avanço das mudanças climáticas, os pesquisadores alertam que os impactos observados nos recifes podem se tornar cada vez mais frequentes — afetando ecossistemas marinhos em toda a região costeira do Espírito Santo.
+ Leia também: Suzano, que já ocupa quase 9% da Serra, pode expandir e ‘esterilizar’ mais áreas