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sexta-feira, 05 de junho de 2020

Óleo no mar do Nordeste avança e já está a 600 km do litoral da Serra

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Bruno Lyrahttps://www.portaltemponovo.com.br
Repórter do Tempo Novo há mais de 10 anos, Bruno Lyra escreve para diversas editorias do portal, principalmente Economia e Meio Ambiente, das quais é o responsável.

Praia do Nordeste contaminada pelo óleo; até ontem (21), pelo menos 201 praias de 74 municípios de 09 estados já haviam sido atingidas. Foto: Divulgação/Agência Brasil

O vazamento de petróleo que castiga as praias do Nordeste está se deslocando para o sul, ou seja, vindo em direção ao Espírito Santo. Manchas de óleo foram avistadas ontem (21) em Ilhéus, município do sul da Bahia que, em linha reta, está a pouco mais de 400 quilômetros da praia de Itaúnas (ponto mais ao norte do ES) e a aproximadamente 600 km do litoral da Serra.

E o risco da poluição chegar ao litoral capixaba é real por conta das correntes marinhas. Tanto que na tarde desta segunda – feira (21) o governo do ES criou comitê para planejar ações contra o problema.

Do comitê, fazem parte representantes da Marinha, ICMBio (Instituto Chico Mendes),Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), Seama (Secretaria de Estado do Meio Ambiente).

Também estão sendo articuladas ações com os municípios mais ao norte do ES, que podem ser os primeiros a serem atingidos caso o desastre/crime ambiental chegue às águas capixabas: Conceição da Barra, São Mateus e Linhares.

Segundo informações da Seama, o órgão estadual segue monitorando, pretende fazer visita à Bahia nos pontos atingidos para ver como estão as ações de limpeza. Ainda não é possível precisar se a contaminação de fato atingirá o ES.

Estuários e lagoa da cidade

De acordo com o Secretário de Governo da Prefeitura da Serra, Jolhiomar Massariol, disse que representantes da administração municipal se reuniram na manhã de hoje (22) com integrantes do comitê criado em âmbito estadual, para discutir ações caso o óleo chegue às praias da cidade. A Serra tem 24km de litoral e dentre pontos sensíveis, estão o estuário do rio Jacaraípe que leva água do mar até a lagoa Juara nas marés altas e a foz do rio Reis Magos. Neste último, o mar sobe vários quilômetros em temporadas de  maré alta e falta de chuva, chegando a atingir proximidades da capação de água para a Serra Sede em Putiri.

Tanto no rio Jacaraípe quanto no Reis Magos, há manguezais que servem de berço e habitat para várias espécies de peixes, crustáceos, aves e outros animais. São portanto, áreas especialmente sensíveis a poluição por óleo.  Assim que tiver retorno da Semma, publicará posicionamento neste espaço.

Governo Bolsonaro fechou comissões que cuidavam de vazamento de óleo

As primeiras manchas avistadas no litoral no Nordeste foram há 50 dias. E o posicionamento do governo federal vem sendo duramente criticado e até alvo de ação judicial por não ter tomado medidas, segundo críticos, para minimizar os estragos.

Uma das críticas refere-se a extinção, ainda em abril, de dois comitês, do Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo em Água (PNC). A extinção se deu por decreto. Críticos afirmam que tal fato explica a demora em acionar a estrutura federal para agir no caso.

Tanto que o Ministério Público Federal (MPF) acionou a Justiça para obrigar o governo federal a agir. No entanto, no último domingo (20), a juíza federal Telma Maria Santos considerou, em decisão, que o Governo Federal tomou as medidas que lhe cabe. Porém a mesma decisão pede ao MPF cobre do Governo Federal outras medidas que julga necessária para minimizar os estragos.

Presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado,  Fabiano Contarato (Rede-ES), é um dos críticos da ação do governo Bolsonaro. Em entrevista ao colunista do jornal O Globo, Bernardo Mello Franco, o senador capixaba lamentou a imobilidade federal no caso e disse que o governo já deveria ter acionado plano de emergência há tempos.

Polarização política acirra ainda mais

O desastre crime/ambiental também colocou mais lenha da fogueira da polarização que assola o país. O próprio presidente Bolsonaro se adiantou para culpar a Venezuela pelo vazamento, insinuou que o vazamento foi proposital para atrapalhar o leilão do pré-sal, sendo prontamente replicado por sua barulhenta rede de seguidores na internet.

Na sequência, os alvos dos Bolsonaristas foram as Ong´s, criticadas por um suposto silêncio em relação ao caso do Nordeste quando meses atrás fizeram estardalhaço com os incêndios da Amazônia.

Já a esquerda ampliou o tom das críticas a política ambiental de Bolsonaro.

Tambores de Shell

Até a manhã desta terça-feira (22), ainda o governo ainda não sabia a origem e responsabilidade pelo derramamento. Tambores de óleo da multinacional anglo holandesa do petróleo Royal Dusch Shell foram encontrados ao longo da costa atingida. Até tambor lacrados contendo foi achado pela Marinha.

Em nota divulgada em 17 de outubro a empresa nega a relação dos tambores com o óleo. Segundo a empresa, o que está atingindo as praias óleo cru (não processado) e o conteúdo dos tambores é Argina S3 30, um óleo lubrificante processado fora do país cuja coloração, dentre outras características, diverge do material vazado nas praias. Esse tambor foi achado em fevereiro, em Sergipe, ao passo que os vazamentos só seriam avistados em setembro.

A empresa diz que “os fatos apontam para uma possível reutilização da embalagem em questão – reutilização essa que não foi feita pela Shell”.

A mesma nota ainda afirma que em 17 de outubro foi achada nova embalagem, desta vez intacta e a princípio de outro produto da empresa. Porém a Marinha não confirmou se o que tem dentro desse galão corresponde ao rótulo.

Até a última segunda –feira (21) pelo menos 201 praias de 74 municípios, de 9 estados do Nordeste já haviam sido atingidos, impactando diretamente pesca e turismo na região. Os danos ao meio ambiente são devastadores: corais, manguezais, costões de pedra, praias de areia, e pelo menos 14 unidades de conservação já foram atingidos. Pescadores, ambientalistas e outros voluntários tem trabalhado, em mutirões e muitos sem EPI´s (Equipamentos de Proteção Individual), para remover o óleo.

No último dia 16 de outubro, o Ministério do Meio Ambiente disse que o PNC (Plano Nacional de Contingência) já estava acionado e que “mais de 1 mil homens, helicópteros, aviões e barcos estão sendo empregados nas operações” de retirada do material. Disse ainda que está sendo feito monitoramento por satélites e aeronaves. Na última segunda –feira (21) o vice presidente Mourão anunciou que o Exército vai reforçar o combate ao vazamento.

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