O que te assusta?

Medo é algo que pode aparecer de várias formas. Às vezes ele vem claro, às vezes disfarçado. A pergunta não é sobre ter medo ou
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Tem uma pergunta simples que pouca gente se faz: o que, de verdade, te assusta? Não precisa responder em voz alta. Mas talvez valha a pena deixar a pergunta pairar um pouco.

As pessoas podem sentir medo, e isso é algo comum. Não é uma doença, nem fraqueza. O medo é um sentimento, que constitui os seres humanos. Ele avisa quando algo não está certo, quando é preciso ficar alerta, quando o corpo precisa se preparar. O problema não é sentir medo, mas quando o medo começa a vir sem que se saiba bem de onde, quando ele se antecipa a tudo, quando passa a acompanhar cada pensamento, cada decisão, cada passo.

Tem gente que tem medo de avião, da polícia, de morrer, de ir ao trabalho, medos que limitam a vida de muitas formas. O que muita gente não percebe é que o medo pode se disfarçar. Ele vem como irritação, como impaciência, como vontade de fugir de situações simples, como dificuldade de dormir, como aperto no peito que aparece do nada. Às vezes a pessoa passa o dia inteiro funcionando, resolvendo, dando conta, e só quando vai deitar percebe que o corpo está travado, que a mente não desliga, que algo ali não está bem. Isso pode ser medo, pode ser cansaço de carregar medo sozinho.

Tem medos que são maiores porque vêm de fora, como o medo da violência, por exemplo. Não é um medo inventado pela cabeça da pessoa, pode ser uma resposta real a um mundo que pode ser perigoso. O cotidiano evidencia que a maioria das pessoas se sente insegura nas ruas de suas cidades. E para as mulheres, esse medo é ainda maior. O medo de sair de casa, de voltar sozinha à noite, de pegar transporte público. Muitas mulheres já sofreram assédio, grande parte em transportes públicos, tem mulher que sente medo até dentro da própria casa. É o medo que vem de uma realidade que não deveria ser assim, mas é.

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E tem também o medo que muitos homens carregam, muitas vezes sem perceber ou admitir, que homens sentem medo de falhar, de não serem fortes, de mostrar fragilidade num mundo que exige dureza. Esse medo não reconhecido pode se transformar em controle sobre a mulher, ciúme excessivo, violência. Pois os homens não aprenderam a lidar com o que sente. A sociedade ensina que homem não pode chorar, não pode ser vulnerável. O medo então se volta para fora, tentando controlar o que assusta, especialmente as mulheres. O medo não elaborado vira opressão, vira feminicídio.

Tem medos que aprendemos, como uma experiência difícil na infância, uma perda, uma situação de violência, um ambiente de trabalho que adoece, uma relação que machuca. O corpo guarda, a mente guarda. E, sem perceber, a pessoa vai se acostumando a viver em estado de alerta, como se algo ruim pudesse acontecer a qualquer momento. Viver assim desgasta o corpo, desgasta as relações, desgasta a vontade.

Por isso a pergunta volta: o que te assusta? Não para que você liste e resolva tudo agora. Mas para que possa, aos poucos, reconhecer o que está aí. O medo nomeado já pesa menos. O medo que se pode falar já não aperta do mesmo jeito.

Se você conhece alguém que vive assustado, mesmo sem motivo aparente, talvez o que essa pessoa mais precise seja de alguém que pergunte sem pressa. Não pra dar soluções, não pra dizer que “isso é besteira”. Mas pra escutar. Quem sente medo constante já se cobra o suficiente. O que faz diferença é a presença que acolhe, que não apressa, que permite à pessoa falar sem medo de ser desqualificada.

E se você mesmo se reconhece nisso, talvez este texto seja um lembrete: não precisa enfrentar tudo sozinho. O medo pode ser conversado. Pode ser entendido. Pode, aos poucos, ocupar um lugar menor. Existem profissionais que escutam sem julgamento, lugares que acolhem sem pressa, pessoas que sabem que o medo não é escolha — é experiência.

O que te assusta? Não precisa responder agora. Mas talvez valha a pena começar a perceber.

Por Nilson S. Aliprandi, psicólogo clínico humanista (CRP 16/11049)
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