Lixo nas praias da Serra ameaça ninhos e compromete a reprodução de tartarugas

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Imagens mostram uma desova de tartaruga-cabeçuda com uma embalagem de chips misturada aos ovos. Em outra situação, um ninho de coruja-buraqueira com grande quantidade de lixo acumulado na entrada da toca. Crédito: IBRAFF.

O descarte irregular de lixo nas praias da Serra tem causado impactos diretos à fauna silvestre e colocado em risco a reprodução de espécies nativas. Registros recentes feitos por equipes ambientais mostram ninhos de animais cercados por resíduos sólidos, incluindo embalagens plásticas, sacolas e restos de alimentos.

Em um dos casos, um vídeo flagrou uma desova de tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta) com uma embalagem de chips misturada aos ovos, no fundo do ninho. Em outra situação, imagens revelaram um ninho de coruja-buraqueira com grande quantidade de lixo acumulado na entrada da toca, dificultando o acesso e colocando os filhotes em risco.

As ocorrências foram divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Fauna e Flora (IBRAFF), que atua no monitoramento e na proteção da fauna no município.

Lixo: riscos à vida selvagem

De acordo com o IBRAFF, o lixo presente em ninhos pode provocar uma série de danos aos animais, inclusive ainda na fase de desenvolvimento. Entre os principais riscos estão enforcamento, estrangulamento e amputação, causados por fios, cordas, sacolas e outros materiais descartados; Ingestão de resíduos, que pode gerar intoxicação, obstrução intestinal e morte, mesmo em animais que ainda estão no ninho; Destruição e perda de habitat, tornando áreas naturais inadequadas para reprodução e abrigo.

O instituto alerta que diferentes grupos de animais são afetados pelo problema. Aves podem ter seus ninhos comprometidos por fios e plásticos; tartarugas marinhas correm risco de ingestão de resíduos ou contaminação direta das desovas; e mamíferos que se reproduzem em tocas também podem se ferir ou morrer em contato com o lixo.

Serra é berçário natural de tartarugas

Os impactos ambientais ocorrem em um momento em que o litoral da Serra entra em temporada de desova se tornando berçário natural de tartarugas marinhas. Dados do Programa de Monitoramento de Praias (PMP) apontam que o município já contabilizou mais de 100 desovas nesta temporada, a maioria da espécie Caretta caretta, considerada a mais comum na região.

A temporada de desova teve início em setembro, com o primeiro registro feito no dia 24, na praia de Costa Bela, e segue até março. O monitoramento também registrou, de forma pontual, desovas de tartaruga-de-couro, ocorrência considerada rara no município, com apenas dois registros em 25 anos.

As desovas ocorrem ao longo de todo o litoral da Serra, com maior concentração nas praias de Jacaraípe, região onde também foram feitos os registros de lixo nos ninhos. Após a postura dos ovos, o período médio para o nascimento dos filhotes é de cerca de 60 dias.

Ação humana e riscos adicionais

Além do lixo, a presença intensa de pessoas na orla, a redução da faixa de areia e intervenções indevidas nos ninhos também representam riscos. Em janeiro deste ano, uma desova não monitorada mobilizou equipes ambientais em Jacaraípe, após o ninho ficar exposto em uma área de grande circulação. Os filhotes emergiram durante o dia e precisaram ser resgatados e soltos seguindo protocolos ambientais, para evitar atropelamentos e outros acidentes.

O trabalho envolveu a Guarda Civil Municipal, a Fiscalização de Meio Ambiente, o IBRAFF e o IPRAM, órgão responsável pelo monitoramento ambiental no litoral da Serra.

Orientações à população

O IBRAFF reforça que a preservação da fauna costeira depende diretamente do comportamento da população. Entre as orientações estão:

  • Reduzir o uso de plástico e optar por alternativas sustentáveis;
  • Reciclar materiais e descartar corretamente o lixo;
  • Não jogar resíduos em praias e áreas naturais;
  • Evitar interferir em ninhos e desovas;
  • Manter distância de animais silvestres em reprodução.

O instituto destaca que pequenas atitudes podem evitar danos irreversíveis à fauna e contribuir para a manutenção dos ecossistemas costeiros do município.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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