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Serra, 19 de outubro de 2018 às 18:36

Índios do ES criam cooperativa para produção de mel com abelhas nativas


O cooperado Pedro Carlos, de 68 anos, já tirou R$ 12 mil em um ano com a atividade.Foto: Patrícia Sales/Coperativa Tupyguá

Denys Lobo

Preocupados com o desaparecimento das abelhas uruçu-amarela – espécie nativa que se diferencia das demais por não possuir ferrão –, um grupo de índios de Aracruz, Norte do Estado, começou a criar colônias com o inseto a fim de multiplicá-los e reintroduzi-los na área indígena, transformando suas propriedades e mudando a forma como eram vistos pela sociedade.

A ideia inicial deu certo, o número de abelhas cresceu e a meliponicultura se tornou uma atividade rentável e representativa dentro do território indígena. Tanto que a ação, que começou em 2012 com apenas cinco famílias, foi ampliada para 60, motivando a criação da primeira cooperativa capixaba formada exclusivamente por índios.

A Cooperativa de Agricultores Indígenas de Aracruz (Coopyguá), conforme explica seu primeiro diretor-presidente, Tiago dos Santos, tem sua origem ligada a Tupyguá, uma identidade criada pelos próprios nativos da fusão do nome das etnias Tupiniquim e Guarani – predominantes no território indígena de pouco mais de 18 mil hectares localizado em Aracruz. Confira o depoimento de Tiago no vídeo a seguir.

 

Como funciona?

O meliponicultor Pedro Carlos trabalha diariamente de 7h às 10h na gestão das colônias. Fotos: Patrícia Sales

A criação das uruçu-amarela acontece nos quintais das famílias e todo o projeto é tocado em parceria com a empresa Fibria, por meio do Plano de Sustentabilidade Tupinikim e Guarani (PSTG), um conjunto de ações que visa restabelecer aos ocupantes das terras indígenas as condições ambientais necessárias às suas práticas socioculturais, a afirmação de sua identidade étnica e atividades econômicas sustentáveis, de acordo com a consultora de sustentabilidade da Fibria, Claudia Belchior. Veja o que ela diz no vídeo abaixo.

Segundo Santos, cerca de 600 colônias de abelhas nativas estão espalhadas por todo território atualmente, produzindo mais de meia tonelada de mel por ano. “Em 2017, nós coletamos, aproximadamente, 500 quilos de mel e, este ano, ultrapassamos 600 quilos durante a colheita, que acontece entre os meses de abril e maio. Acredito que essa seja a maior quantidade de mel de abelha nativa produzida em toda a América Latina e a previsão para 2019 é colher ainda mais”, comemora.

Todas as etapas da produção são feitas de forma artesanal e, após a colheita, o mel é envasado e vendido para estabelecimentos parceiros de duas formas: in natura refrigerado, por R$ 25,00 o pote com 185 gramas; e maturado, por R$ 20,00 na embalagem com 130 gramas.

O presidente Tiago dos Santos: maior parte da produção da Coopygua vai para mercados fora do ES. Foto: Patrícia Sales.

A maior parte desse mel, no entanto, não fica no Espírito Santo e segue diretamente para São Paulo, onde é vendido no Mercado Municipal de Pinheiros, por meio de um projeto desenvolvido por um dos mais famosos chefes de cozinha do Brasil, Alex Atala.

“Um de seus principais objetivos é trazer luz à rica biodiversidade do Brasil, que se traduz em um leque sem-fim de ingredientes, repletos de aromas e sabores desconhecidos de grande parte de nossa população.  Outro objetivo é fortalecer a ponta da cadeia, contribuindo para que esse grupo de pequenos produtores, artesãos e comunidades se estruturem e sejam remunerados de maneira justa, tornando seus negócios sustentáveis economicamente, e facilitando sua entrada no competitivo mercado paulistano”, diz o site do Instituto ATÁ sobre o projeto Biomas Brasileiros, criado por Atala e outros chefes.

Nova espécie, nova vida

Saber que o mel produzido a poucos passos da sala de casa ultrapassou as barreiras do Espírito Santo é motivo de orgulho para o casal de índios tupiniquins Ronas e Ana Aparecida Souto.

O casal Ronas e Ana Aparecia Souto: trabalho envolve toda a família. Foto: Patrícia Sales

Criadores de abelha-europeia – outra espécie já tradicional no Brasil, conhecida por ter ferrão – antes de entrarem no projeto, eles apontam as uruçu-amarela como as principais responsáveis pela mudança no convívio familiar.

“Participar de um programa como esse foi muito importante. Nós mexíamos com a abelha-europeia, que era muito brava, aí nossos filhos voltaram para casa e a gente decidiu começar a trabalhar com a uruçu, todo mundo junto. Os benefícios foram enormes: o manejo é mais fácil, permite que toda nossa família trabalhe junto, ajuda a manter as abelhas vivas, fortalece a nossa condição financeira e ainda melhora o alimento que nós consumimos, graças à polinização das plantas”, explica Ronas. Confira mais da experiência de Ronas no vídeo abaixo.

A criação da cooperativa, segundo ele, também aconteceu no momento certo, de afirmação dos beneficiários e aumento na produção de mel. Produtor de farinha e beiju, ele agora já faz planos para a expansão dos negócios.

“A Coopyguá vai abrir mais espaço para gente no mercado, dar mais segurança às nossas vendas e, principalmente, mostrar para todo mundo que o índio trabalha e é por isso que temos que ser reconhecidos. Hoje, a gente está trabalhando com o mel, mas a cooperativa vai ser importante para vender outros produtos e nos ajudar a planejar o futuro”, ressalta Ronas.

O casal Ronas e Ana Aparecida: outras 25 famílias da comunidade devem entrar na meliponicultura. Foto: Patrícia Sales

Segunda família

Inserido no projeto desde 2014 e reconhecido como um dos beneficiários de maior sucesso dentro do programa, o senhor Pedro Carlos também aponta a facilidade no manejo como um dos principais fatores da evolução no resgate das uruçus.

Bastante apegado às abelhas, ele conta que o cuidado com os insetos, principalmente durante o período de entressafra, quando elas estão se fortalecendo para começar uma nova fase de produção de mel, é igual ao que teve na criação dos 12 filhos.

“Eu venho aqui trabalhar com as abelhas todos os dias, faça chuva ou faça sol. Fico aqui de 7 às 10 horas, alimentando cada uma das minhas colônias. Para mim, elas são igual uma família”, diz o índio de 68 anos, que agora reside na casa apenas com a mulher, Flordalice, e um dos filhos.

Pedro e a esposa Flordalice Carlos cuidam das colméias de uruçu amarela. Foto: Patrícia Sales

O trabalho caprichoso realizado por ele em todas as etapas do processo, desde a alimentação adequada para as abelhas até a divisão e multiplicação das colônias, também renderam benefícios financeiros.

“Em 2016, eu tive uma renda aqui de R$ 12 mil, contando apenas venda de mel e de colônias. Apesar da produção de 2018 não ter sido tão boa, estou com a expectativa de melhorar a colheita no próximo ano. Minha ideia é produzir cerca de 40 quilos de mel com as 23 colônias que eu tenho atualmente”, revela.

Futuro

O bom retorno financeiro que a cooperativa está oportunizando aos cooperados fez despertar o interesse de outros índios no projeto. De acordo com o diretor-presidente da Coopyguá, cerca de 25 famílias já estão em uma lista de espera, aguardando a data do próximo curso para ingressarem no programa.

Além de abrigar esses novos membros, Tiago dos Santos revela também quais são os passos da Coopyguá para os próximos meses: “Estamos trabalhando bastante para conseguir a certificação do mel de abelhas nativas. Assim que sair, acredito que as nossas vendas vão aumentar. Além disso, começamos a pensar na criação de um site para a venda dos produtos e a expectativa é que ele comece a funcionar no primeiro semestre do ano que vem”.

O presidente Tiago dos Santos diz que a Coopyguá trabalha para conseguir certificação do mel e mira vendas on line. Fotos: Patrícia Sales

Final feliz

A regulamentação estadual para a criação das abelhas nativas, tão sonhada pelos índios, já vem sendo discutida pelo setor produtivo junto aos órgãos estaduais. Além do Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Mel de Abelha sem Ferrão, o grupo também está elaborando o Plano de Ação Estadual (PAE) para a conservação da meliponicultura capixaba, como política pública de conservação para espécies ameaçadas.

Segundo Talita Paoli, médica-veterinária do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), um dos órgãos que compõem o Comitê Gestor de Apicultura e Meliponicultura do Estado, a previsão é que esse regulamento fique pronto em breve. Confira o depoimento dela em vídeo.




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