Guerra no Oriente Médio começa a afetar setor bilionário da Serra: o plástico

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Vista aérea do Civit II, na Serra, um dos principais polos industriais do município e área que concentra grande parte do arranjo produtivo ligado à indústria do plástico. Crédito: divulgação.

A escalada do conflito no Oriente Médio já começa a gerar reflexos diretos na indústria da Serra, um dos principais pólos produtivos do Espírito Santo.

Entidades do setor e empresas locais relatam aumento nos custos, risco de desabastecimento e necessidade de reajustes nos preços, especialmente por causa da alta nas resinas plásticas, principal matéria-prima da indústria.

Abiplast alerta para impacto global

A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) manifestou preocupação com os efeitos da crise internacional sobre o setor.

Segundo a entidade, os desdobramentos da guerra já afetam a logística, os custos e a disponibilidade de insumos petroquímicos no mundo.

“Os recentes desdobramentos da guerra já começam a gerar efeitos sobre a logística internacional, os custos e a disponibilidade de insumos petroquímicos. No Brasil, esses impactos se somam a fragilidades estruturais existentes no fornecimento de algumas resinas”, afirmou a Abiplast em nota.

O Brasil depende da importação de parte significativa dessas matérias-primas, o que torna o setor ainda mais sensível às oscilações internacionais.

Indústria capixaba já sente aumento nos preços

No Espírito Santo, o cenário também preocupa. O SindiplastES destacou que empresas já enfrentam reajustes expressivos e dificuldades no abastecimento.

A resina virgem, base da produção de plásticos, é derivada da indústria petroquímica e vem registrando aumentos sucessivos.

“Os fornecedores anunciaram reajustes expressivos e já existem relatos de escassez e restrições de oferta no mercado”, informou a entidade.

Segundo a presidente do SindiplastES, Barbara Esteves, o impacto chega diretamente às indústrias.

“A indústria transformadora não define o preço da resina. Nós somos diretamente impactados por esses aumentos e, infelizmente, muitas empresas terão que readequar seus preços para continuar operando e garantir o abastecimento do mercado”, disse.

Empresas da Serra já anunciam reajustes

Na Serra, empresas começaram a formalizar aumentos de preços diante do cenário.

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Um exemplo é a Maifredo Embalagens, localizada em Campinho da Serra, que comunicou reajuste médio imediato de 15% em seus produtos, válido para novos pedidos a partir de março.

No comunicado enviado aos clientes, a empresa aponta que os custos de matéria-prima subiram rapidamente nas últimas semanas.

“Somente na primeira quinzena deste mês, registramos reajustes próximos a 10% em nossos custos de matéria-prima, seguidos por novos aumentos de aproximadamente 18% nesta segunda quinzena”, informou a empresa.

A Maifredo também destacou que o cenário foi agravado pelos impactos da guerra no Irã sobre a indústria petroquímica global.

Serra concentra grandes indústrias do plástico

O impacto ganha ainda mais relevância na Serra devido à forte presença do setor no município.

A cidade abriga algumas das principais empresas do país na cadeia do plástico, como:

Fibrasa empresa que registrou R$ 532 milhões de receita operacional líquida em 2024, segundo estudo do IEL.
Fortlev – gigante do setor, com mais de 9 fábricas no país, tendo a matriz localizada na Serra.
Nova Forma – maior fabricante de revestimentos de PVC e portas sanfonadas do Brasil.
Novapol – uma das maiores produtoras de resina poliéster da América Latina.

Essas indústrias atendem setores essenciais como construção civil, saneamento, alimentos, saúde, logística e agricultura.

Dependência externa aumenta vulnerabilidade

Um dos principais desafios do setor é a dependência de matéria-prima importada.

O Brasil não possui produção suficiente de insumos petroquímicos para atender toda a demanda interna, o que expõe a indústria às oscilações do mercado internacional.

No Espírito Santo, o setor conta com:

  • 138 empresas ligadas à indústria do plástico
  • 3.617 empregos diretos (dados de 2024 – Abiplast)

Serra importou mais de US$ 50 milhões em produtos plásticos em 2025

Os dados detalhados de importação mostram que a indústria do plástico tem peso relevante na economia da Serra. Apenas considerando os produtos plásticos e seus derivados, o município movimentou maisde US$ 50 milhões em compras internacionais em 2025.

O levantamento revela que a maior parte desse volume não é de produtos acabados, mas sim de matéria-prima essencial para a indústria. Entre os principais itens estão os polímeros em formas primárias, utilizados na fabricação de embalagens, peças industriais, tubos e revestimentos.

Os destaques ficam para os códigos:

  • 3907, que inclui resinas industriais como poliésteres e policarbonatos (US$ 14,8 milhões);
  • 3904, referente ao PVC (US$ 13,1 milhões);
  • 3902, com polímeros de polipropileno (US$ 3,1 milhões).

Somados, esses três grupos representam uma parcela significativa das importações e são diretamente ligados à cadeia produtiva petroquímica.

Qualquer aumento no custo internacional dessas matérias-primas, como ocorre no caso da guerra no Oriente Médio, tende a impactar diretamente a produção local.

Economia circular ganha importância

Diante do cenário, o SindiplastES reforça a necessidade de fortalecer a reciclagem e a economia circular como estratégia para reduzir a dependência da resina virgem.

A medida pode ajudar a tornar a cadeia produtiva mais resiliente frente a crises internacionais.

Impacto pode chegar ao consumidor

Com o aumento nos custos da matéria-prima, a tendência é que os reajustes cheguem gradualmente ao consumidor final.

A produção de plástico e derivados é indispensável à vida moderna. Produtos do dia a dia, como embalagens, itens de higiene, materiais de construção e soluções logísticas, podem sofrer aumento de preço nos próximos meses.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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