O fechamento dos supermercados aos domingos no Espírito Santo já aparece nos números do setor. Nos dois primeiros meses da medida, o faturamento do varejo alimentar capixaba caiu 1,3%, enquanto o Brasil registrou alta de 0,7% no mesmo período. Os dados são de um levantamento da consultoria Scanntech obtido pelo jornal Valor Econômico.
A diferença entre o Estado e o país chega a 2 pontos percentuais no comparativo de março e abril com o mesmo período do ano anterior. Além disso, o quadro se inverteu em relação ao início do ano. Em janeiro e fevereiro, antes do fechamento, o Espírito Santo havia crescido 3%, acima da média nacional de 2,3%. Ou seja, entre um período e outro, a distância chega a 2,7 pontos percentuais.
Os supermercados e atacarejos capixabas deixaram de abrir aos domingos em 1º de março, após acordo coletivo firmado entre a Fecomércio-ES e o Sindicato dos Empregados no Comércio do Estado. A medida tem caráter experimental e será reavaliada em novembro. Farmácias, perfumarias, postos de combustíveis e bares não são obrigados a seguir a regra.
Segundo a reportagem do Valor, os dados da Scanntech vêm da leitura direta de vendas por scanner nos caixas. De acordo com Thomaz Machado, presidente da Scanntech Brasil, a base cobre 64% das vendas do varejo alimentar no Estado.
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Consumo migrou para outros dias da semana
O estudo também mostra que parte das compras de domingo se deslocou para o restante da semana. Em março, primeiro mês da medida, as vendas de segunda e terça-feira cresceram 15% e 25,3%, respectivamente, na comparação com a média de fevereiro. Já em abril, o movimento se concentrou no meio da semana, com alta de 14,8% na quarta-feira e de 34,3% na quinta-feira.
Ainda assim, a migração não compensou totalmente a perda. A queda também não foi uniforme. Entre os canais, o atacarejo foi o mais afetado, com diferença negativa de 5,1 pontos percentuais em relação à média nacional. Produtos de maior estocagem, como arroz, açúcar, azeite e café, tiveram desempenho pior no Espírito Santo do que no restante do país.
Setor confirma queda, mas vê ganhos
Para Hélio Schneider, superintendente da Associação Capixaba de Supermercados (Acaps), os números da Scanntech estão em linha com o que a entidade apura junto aos associados. Segundo ele, dados preliminares mostram queda de faturamento entre 1% e 2%, com variação conforme a região de cada loja.
Por outro lado, Schneider afirma ao Valor Econômico que a perda de receita foi compensada pela redução de custos operacionais. Além disso, a medida aumentou a satisfação dos colaboradores, o que se traduziu em menor rotatividade de funcionários, segundo relatos das empresas associadas.
O superintendente também faz uma distinção que considera importante: a mudança no Espírito Santo não alterou a escala de trabalho dos funcionários. O que mudou foi a obrigação de fechar as portas aos domingos. Portanto, o caso capixaba é diferente do debate nacional sobre o fim da escala 6×1, tema de uma PEC que tramita no Congresso e que trata da jornada de trabalho, não do funcionamento das lojas.
Economista pede cautela com os dados
Já o economista Ricardo Meirelles de Faria, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que a série de dados ainda é curta para conclusões mais amplas. Ele afirma que “são muito poucos dados” para uma análise robusta até o momento, sem uma metodologia mais ampla de comparação, como a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE. Em março, o professor havia projetado que as vendas do Estado se manteriam estáveis com a migração do consumo para outros dias.
As maiores redes em operação no mercado capixaba, como o Grupo Coutinho, dono das bandeiras Extrabom, Atacado Vem e Extraplus, além de Carrefour Brasil e Assaí Atacadista, foram procuradas pelo Valor, mas não responderam. A Fecomércio-ES também não se manifestou.
O acordo coletivo será reavaliado pelas entidades signatárias em novembro, quando o setor deve decidir se o modelo se torna permanente.
Com informações do Valor Econômico