
A ex-jogadora do Serra Futebol Clube e do time do Vila Nova, de Vila Velha, Gabriela Zidoi, passou por momentos difíceis nos últimos dias. A atacante estava na Ucrânia desde julho de 2021 e presenciou o terror da guerra que o país europeu está vivendo desde que a Rússia do autocrata Vladimir Puttin invadiu o território ucraniano no dia 24 de fevereiro.
Gabriela que conseguiu ao lado de outras jogadoras fugir da zona de guerra esta semana conversou com o Tempo Novo e contou como foi o pavor de viver em meio a bombardeios e ameaças. Ela não irá retornar ao Brasil, irá continuar sua carreira no futebol feminino em Portugal, país onde seus pais já moram.
A atacante presenciou um bombardeio no primeiro dia de invasão que ocorreu numa base militar que ficava próximo ao hotel onda ela e outras três brasileiras estavam hospedadas. “A gente já estava de malas prontas, porque tínhamos um jogo na Turquia. Foram quatro bombardeios, a gente sentiu os quatro, chegou a tremer o chão e as paredes. Foi um momento muito tenso pra gente. É muito lamentável, porque são pessoas inocentes morrendo, crianças morrendo, mães deixando maridos, não por opção, mas ter que fazer isso, porque nenhum homem pode sair de lá. São crianças tendo que deixar seus pais, sem saber se é um adeus ou um até logo. É um momento muito triste que essas famílias estão vivendo”.
Zidoi estava na cidade de Kryvyi Rih onde atuava pelo clube Kryvbas Woman. “Foi uma experiência que não desejo a ninguém, de muito medo, de muita dúvida de não saber o que poderia acontecer nas próximas horas, nos próximos dias. Éramos três brasileiras e tentávamos sempre tranquilizar uma a outra. A gente via o que acontecia em outras cidades e não sabíamos como que ia ser. Será que vai acontecer aqui, como que vai ser?”, disse Zidoi ao TN.
A atleta conta que a vontade das brasileiras era de sair de lá desde que tudo começou. “Conversamos com diversas pessoas e decidimos sair mesmo na segunda (28/02) ou na terça (01/03) da semana passada. E nossa única possibilidade no momento era de sair de trem. Fizemos a primeira tentativa na quarta (2). Éramos só nós três, não falamos inglês fluente e nem a língua local. Fomos com a cara e a coragem, tentamos e não conseguimos entrar pela quantidade de pessoas”.

A entrada no trem ainda em território ucraniano aconteceu na quinta-feira (3), quando mais uma tentativa foi feita, desta vez ao lado de outras jogadoras do mesmo time. “Uma ucraniana, georgiana e uma angolana a gente fez uma corrente, uma segurando na outra para que se uma entrasse, as outras iam se apertando para entrar também. E assim fizemos. Era muita gente e muita tristeza”.
De acordo com Zidoi a maioria dos passageiros eram mulheres e crianças. “Homem nenhum poderia entrar. Muita criança chorando, mulheres e pais implorando para que deixassem suas mulheres e filhos entrarem. Homem nenhum podia entrar a não ser que fosse acima de 60 anos e abaixo de 18”.
Gabriela relatou que a viagem de fuga foi bem apertada e por muitas horas. “O trem tinha 1.80 por 1.50, não era muito grande o espaço, tinham quatro camas. Cinco ou seis crianças e 10 ou 11 adultos, não lembro direito. A gente se apertou e se revezava em questão da cama. As crianças a gente deixava dormir, são crianças né?! Se foi difícil pra mim que tenho 21 anos, imagine para estas crianças. Traumatizante”.
No meio do caminho Gabi ainda teve tempo que dar apoio a uma ação de solidariedade. “Quando estávamos saindo da Ucrânia, ajudamos a fazer umas entregas numa escola que estava abrigando pessoas e foi um momento gratificante e inexplicável. Todos muito gratos com a Frente Brazuca”.
Gabriela saiu da Ucrânia rumo a Polônia e depois foi para Portugal, país onde irá ficar ao lado dos pais, que já residem por lá. “Elas chegaram no Brasil na quarta (8) e eu na segunda (7) e desde quinta-feira (3) de trem e não paramos nenhum minuto. Só conseguimos realmente descansar quando chegamos de fato em casa”, disse Gabriela.
O trajeto de fuga se tornou mais difícil por conta de que a cidade de Kryvyi Rih é distante dos grandes centros urbanos da Ucrânia, como a capital Kiev, e Lviv, cidade próxima à fronteira com a Polônia.
