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Apex | Dinheiro, conflito entre sócios e crise na mais poderosa gestora financeira do ES 

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Fernando Cinelli, fundador afastado da Apex Partners, gestora capixaba que administra R$ 17 bilhões e enfrenta dívida de R$ 985,6 milhões.
Apex Partners protocolou pedido de proteção judicial contra dívida de R$ 985,6 milhões nesta semana.
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A Apex Partners administra R$ 17 bilhões em ativos e reúne, entre sócios e clientes, boa parte da elite empresarial do Espírito Santo. É esse tamanho que explica por que o afastamento do fundador Fernando Cinelli, no dia 6 de agosto, e a dívida de R$ 985,6 milhões que a empresa levou à Justiça dois dias depois abalaram o mercado capixaba de um jeito que poucas crises corporativas locais conseguem.

A Apex não é um banco nem uma corretora comum. A gestora atua em quatro frentes: capta e aplica dinheiro de investidores em projetos regionais, como galpões logísticos; assessora famílias de alto patrimônio na organização e sucessão de bens; presta consultoria a empresas em fusões, vendas e captação de recursos; e produz estudos sobre a economia local. Na prática, funcionava como um banco de investimentos pensado para fora do eixo Rio-São Paulo, algo raro no mercado financeiro brasileiro.

Fundador afastado por inconsistências financeiras

Os sócios da Apex abriram uma investigação interna e identificaram inconsistências financeiras na companhia. O resultado foi o afastamento de Cinelli e também do diretor financeiro, Eduardo Siqueira. A empresa acusa o fundador de gestão temerária e má-fé, e já anunciou que vai pedir o bloqueio dos bens dele.

A tensão não começou agora. Meses antes, a Apex havia investido na compra de ações da CVC, maior operadora de turismo da América Latina, que enfrenta forte queda no mercado. Cinelli chegou a ocupar uma cadeira no conselho da CVC e precisou deixar o cargo. Foi esse episódio que levou os sócios a montar um grupo de trabalho para entender, de fato, o tamanho do problema dentro da própria Apex.

Proteção judicial em 24 horas

A Apex protocolou o pedido de tutela cautelar antecedente na quinta-feira (06), na Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. O juiz Marcos Pereira Sanches deferiu já na sexta (07). O instrumento blinda os ativos da empresa por até 60 dias contra execuções, penhoras e buscas e apreensões, enquanto a própria Apex tenta entender seu balanço.

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O juiz deu 30 dias para a companhia decidir se entra com pedido formal de recuperação judicial, sob pena de a proteção cair, e nomeou uma consultoria para verificar, em 20 dias, como as empresas do grupo funcionam de fato. A decisão também trouxe a lista de 172 empresas com CNPJ próprio que compõem o Grupo Apex, sob controle societário comum e gestão integrada. É o retrato mais completo já divulgado do alcance da gestora na economia capixaba.

Onde está o R$ 1 bilhão

O maior bloco do passivo é também o mais delicado: R$ 452,1 milhões em debêntures emitidas via Rhino Securitizadora, pagando de 110% a 130% do CDI, ou IPCA mais 1,1% a 1,3% ao mês. A garantia dada a quem comprou esses papéis são ações do próprio grupo Apex, sem avaliação independente e sem penhor formalizado em registro. Quem investiu contava com um ativo emitido pelo próprio devedor, e ninguém de fora da empresa mediu o valor real dessa garantia.

Há ainda R$ 309,8 milhões devidos a clientes em 1.600 posições de cashback, produto que prometia remuneração de até 125% do CDI. A dívida bancária soma R$ 201,7 milhões, com Sicoob, BTG Pactual e Daycoval, sendo R$ 144,4 milhões com aval pessoal dos sócios. Fecham a lista R$ 35,2 milhões em impostos e R$ 78,2 milhões em pedidos de resgate de fundos regulados, com vencimentos entre 12 de agosto e 30 de setembro.

O aval bancário é o ponto mais perigoso para os sócios. Diferente da recuperação judicial, que suspende cobranças contra a empresa, o aval pessoal não tem essa proteção. Bancos podem executar diretamente o patrimônio de quem garantiu o empréstimo, mesmo com a companhia sob tutela cautelar.

Dinheiro novo pagando conta velha

Os números explicam a velocidade da crise. A dívida líquida da Apex saltou de R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho. Setenta e dois por cento desse crescimento foi para aportes em fundos e aquisições que não devolveram caixa para a empresa. Só no primeiro semestre deste ano, dos R$ 300 milhões captados em dívida nova, R$ 80 milhões cobriram déficit operacional e R$ 95 milhões pagaram encargos financeiros e fiscais. A Apex vinha tomando dinheiro novo para pagar dívida velha.

Em resposta ao processo, a Apex diz que os valores apontados não são definitivos, não representam obrigações vencidas nem imediatas, e que o real impacto só será confirmado após a auditoria externa. O problema é que parte da garantia que sustenta esse passivo já murchou no papel da própria empresa: dos R$ 261,5 milhões em valor nominal de uma das carteiras, a Apex estima recuperar apenas R$ 190,1 milhões numa venda.

A defesa de Cinelli

Em nota, a assessoria de Fernando Antonio Kulnig Cinelli afirmou que o empresário está dedicado e comprometido a contribuir da melhor forma para a preservação da companhia, dos investidores e dos acionistas. Segundo o texto, Cinelli demonstra disposição em esclarecer todas as questões levantadas, com total transparência e idoneidade.

A Apex ainda não informou quando a auditoria externa deve começar, nem qual empresa vai conduzir o trabalho. A companhia tem até 30 dias para decidir se formaliza o pedido de recuperação judicial.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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