Conheça o ultramaratonista capixaba que venceu 100 km e mira desafio de 240 km em 2027

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Militão e o treinador Carlos Gusmão, da esquerda para a direita, durante a prova no Rio de Janeiro. Foto: arquivo pessoal

Correr cem quilômetros já seria uma façanha para qualquer atleta. Fazer isso entre estradas de terra, pastos com bois no caminho, cachorros na perseguição e ainda se perder nas ruas da cidade-destino é outro nível de desafio. Foi exatamente o roteiro que Josenildo Rosseto Militão, de 49 anos, enfrentou na última ultramaratona realizada em Valença, no Rio de Janeiro, no último dia 1 de maio, e mesmo assim cruzou a linha de chegada em primeiro lugar geral.

Morador da Serra, Militão integra a equipe Ultrasports, comandada pelo treinador Carlos Gusmão, que recebeu o convite da organização para levar um grupo à prova. O projeto era ambicioso desde o início: levar cinco atletas, com cinco metas diferentes, em diferentes distâncias, ao pódio.

Segundo Josenildo, o convite chegou com pouco tempo de antecedência, mas o grupo decidiu não recuar. Em dois ou três meses, o treinador montou o projeto, captou patrocinadores e estabeleceu metas objetivas: primeiro e segundo lugar geral nos 100 km, primeiro feminino e masculino nos 160 km e primeiro no masculino dos 230 km. “Nossa meta mais leve era um segundo lugar, que no caso poderia ser o meu no 100 km, porque o resto da turma estava sozinho, cada um numa distância, e eu estava na mesma prova que meu treinador”, conta Militão ao Tempo Novo.

O corredor ainda conta que os treinos longos chegaram a 60 quilômetros. Entre as rotas, a equipe rodou de Vila Velha a Vitória, cruzando as cinco pontes, e fez outro percurso de Praia Grande até Serra Sede, pelo mesmo tipo de estradão de terra que encontrariam na prova. Nos dias mais leves, o atletismo acontecia perto de casa, entre o Parque da Cidade e as ruas da Serra. “O corpo estava bom, os treinos foram bem. Com esse espaço de dois, três meses, nós chegamos lá e, graças a Deus, o resultado foi muito positivo”, explica o corredor.

Foto: divulgação

Desafios durante todo o percurso

De acordo com Militão, a largada foi tranquila. Ele e o treinador correram lado a lado até perto da metade da prova, quando ele puxou o ritmo e abriu vantagem. Apesar disso, um problema no relógio logo no quilômetro seis fez Militão correr sem referência de tempo ou distância por toda a corrida, usando apenas os ponto de apoio como únicos balizadores.

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Chegando no quilômetro 51, viu que estava em segundo lugar. Já no 66, soube que havia assumido a liderança, pois o atleta que estava à frente havia se perdido pelas estradas rurais. A partir daí, Militão apenas administrou a vantagem, conta ele, tendo que desviar de cachorros, encarar gado no meio da pista e subir ladeiras sem saber quantos quilômetros ainda faltavam. “Eu morro de medo de cachorro. Tinha hora que tinha vaca na pista, barranco de um lado, buraco do outro, não tinha para onde correr. Você tem que encarar e passar”, explica.

Segundo o corredor, foi no quilômetro 86, que avistou uma ciclista que cruzou seu caminho e deu a informação mais valiosa da corrida: faltavam cerca de 14 km para Valença, destino final, e o segundo colocado estava 4km atrás, sendo ele, o próprio treinador de Militão.

Apesar de já no fim da prova, o maior desafio ainda estaria por vir. As fitas de sinalização começaram a serem retiradas dos postes enquanto os atletas ainda estavam correndo. Além da dificuldade, Militão ainda não avistou uma das fitas, por causa de um ônibus parado na frente da placa, o que fez com que perdesse 600 metros. Para piorar mais ainda, o atleta ainda se perdeu mais uma vez durante o percurso, pegando o caminho que o levou para o percurso da prova dos 230km. Perdido, ligou para a organização enquanto corria. “Eu falei: vou perder o primeiro lugar nessa prova por causa de uma marcação errada. Não tem condição um negócio desses”. conta o atleta.

A organização enviou um carro para orientá-lo, que o ajudou a voltar ao ponto do erro. Nos últimos três ou quatro quilômetros, correu no ritmo de uma prova de 5 km, depois de já ter mais de 90 km nas pernas. Chegou à pousada praticamente junto com o treinador Carlos Gusmão, que ao ver o próprio aluno chegando, não ofereceu resistência, o deixando passar para conquistar o título.

O balanço da equipe foi expressivo: Militão campeão geral dos 100 km, Gusmão em segundo na mesma prova, Tereza com o primeiro feminino nos 160 km (chegando à frente de vários homens da categoria), Alessandro em segundo, também nos 160 km, e Léo Seabra em segundo nos 230 km masculino. “Nós fomos para lá e catamos tudo. Só fugiram dois detalhezinhos; a ideia era pegar o primeiro em tudo, mas a gente sabe que cada dia é um dia.”

Próximos desafios e o grande sonho

Poucos dias após a ultramaratona de Valença, Militão já tinha passagem marcada para Santa Catarina, onde neste domingo (17), disputa a Rio do Rastro Maratona, prova de 42 km inteiramente em subida, da base ao topo da Serra do Rio do Rastro. Para ele, a participação vai além da performance. “A ideia lá é participar, conhecer, buscar mais experiência. Correr sempre no mesmo lugar acaba ficando repetitivo. A gente aproveita o que gosta para conhecer lugares diferentes”, resume.

Num horizonte próximo, o atleta projeta mais um grande desafio. A ultramaratona na BR-135, um percurso de 241 km entre Minas Gerais e São Paulo, prevista para janeiro de 2027, projeto para o qual já articula equipe e busca patrocinadores. Já num sonho mais distante está a Spartathlon, na Grécia, uma das provas mais tradicionais e exigentes do mundo, com 246 km, que impõe um rigoroso índice classificatório, exigindo que o atleta percorra ao menos 185 quilômetros em 24 horas em uma prova anterior. “O filtro é muito alto, mas acredito que tudo é tempo e preparo. É treinar, se preparar e ter paciência. Se tiver que acontecer, vai acontecer”, afirma.

Além dos objetivos esportivos, ele reforça o compromisso de manter a corrida como um espaço de convivência e incentivo. Para Militão, a prática não se limita à competição, mas também à troca com outros corredores, independentemente do ritmo. “Às vezes a pessoa só precisa de um incentivo. Você vai junto, ou dá uma palavra, e isso pode abrir um outro caminho para ela”, conclui.

Foto de Guilherme Marques

Guilherme Marques

Guilherme Marques é jornalista e atua como repórter do Portal Tempo Novo.

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