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Nome de creche vira “salseiro” na Câmara da Serra, com acusação de racismo e regimento chamado de “porcaria”

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Vereador Cea ergue o regimento interno durante sessão na Câmara da Serra que rejeitou nome de creche
Cea exibe o regimento interno no plenário da Câmara da Serra durante o debate sobre o nome do CEMEI
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A tentativa de dar nome a uma creche no bairro Estância Monazítica virou quase uma hora de gritos, acusações de racismo e ataques a lideranças comunitárias na Câmara da Serra. Na sessão desta segunda-feira (19), os vereadores rejeitaram por 16 votos a 2 o Projeto de Lei nº 892/2025, do vereador Antônio Carlos Cea (Republicanos). A proposta dava ao Centro Municipal de Educação Infantil (CEMEI) do bairro o nome do professor Joelson dos Santos, falecido em 2025.

Depois da derrota, Cea relacionou o resultado à cor da pele do homenageado. “Talvez pelo fato do senhor ser negro, o senhor seja esculachado igual estou sendo nessa casa”, disse. Em seguida, começou a completar: “Porque talvez se você fosse loirinho dos olhos azuis…”. Os pedidos de ordem dos colegas cortaram a frase no meio.

O próprio vereador resumiu a sessão: “Eu nunca vi o nome de uma escola, o nome de uma rua, o nome de uma praça causar um salseiro desse”. A grave acusação de Cea revoltou os vereadores, que apontaram “falta de humildade” e “falta de diálogo” por parte do parlamentar. Na sequência, ele ainda ouviu sermões de vários colegas contra sua conduta e seus posicionamentos, considerados por eles “levianos”.

Quem era o homenageado

Joelson dos Santos nasceu em São Mateus e se mudou ainda jovem para Jacaraípe. Formado em Geografia pela Ufes, atuou como professor e era conhecido pela ligação com o mar e o surfe. Amigo do vereador, ele morreu em julho de 2025, aos 48 anos.

Por que a Câmara da Serra rejeitou o projeto

O principal argumento contra a proposta foi a falta de diálogo. O vereador Fred (PDT) afirmou que o CEMEI é uma conquista antiga da comunidade, anterior ao mandato de Cea, e que o bairro tem uma liderança comunitária que trabalha com ele. Cea havia dito que conversou com o prefeito antes de apresentar o projeto, mas Fred rebateu: “O prefeito não é dono de voto de ninguém aqui”.

Na mesma linha, Cabo Rodrigues (MDB) disse que “faltou humildade, faltou diálogo”. Já Leandro Ferraço (PSDB) contou que pediu vista do projeto, em acordo com o presidente da Comissão de Educação, George Guanabara (Podemos), para abrir espaço a uma negociação. Segundo ele, Cea recusou e respondeu: “Nós vamos pro pau!”.

Cea, por sua vez, sustentou que nenhum vereador precisa de permissão de liderança comunitária para legislar. Ele também lembrou que avenidas e praças da Serra homenageiam pessoas sem ligação direta com os bairros, como o pai do ex-governador Renato Casagrande, o pai do ex-prefeito Audifax Barcelos e Getúlio Vargas. “Não retiro de pauta porque eu não sou homem frouxo e não tenho medo de perder”, afirmou.

Regimento chamado de “porcaria”

O plenário pegou fogo quando Cea ergueu o regimento interno e perguntou: “Eu gostaria de saber se essa porcaria aqui tem valor nessa casa”. Mais tarde, em vez de recuar, comparou o documento à Constituição, que, segundo ele, hoje “nem para segurar a porta” serve. Depois, chamou a própria Constituição de “outra porcaria”.

A fala dominou as respostas. Paulinho do Churrasquinho (PDT) disse ter ficado chocado. Além disso, o Professor Renato Ribeiro (PDT) cobrou que Cea apontasse onde o regimento foi descumprido, já que as regras garantem tanto a apresentação quanto a rejeição de um projeto.

Ataque a lideranças de Jacaraípe

Cea também mirou lideranças comunitárias. Sem citar nomes, afirmou que uma liderança teria pedido R$ 30 mil para apoiar a esposa dele na eleição e a chamou de “liderança prostituta”. Na sequência, generalizou e disse que não vai baixar a cabeça para “liderança que se vende como a grande maioria de Jacaraípe”.

Acusação de racismo revolta vereadores

A insinuação de racismo provocou a reação mais dura. “Meu avô é negro”, disse Cabo Rodrigues, que classificou a fala de Cea como covardia. O vereador ainda agradeceu, em tom de ironia, por Cea não ter partido “para a porrada igual ele faz na rua por aí”, se referindo a um desentendimento ocorrido durante a campanha do primeiro turno, em que Cea quase foi as vias de fato com um candidato.

Renato Ribeiro seguiu na mesma direção. “Vitimização racial não pode mais acontecer nesta casa”, afirmou. Usando o bordão do colega, de que está na política para construir pontes e não muros, completou: “O que Vossa Excelência fez hoje foi construir uma muralha”. Também Raphaela Moraes disse que sequer sabia que Joelson era negro quando votou, já que não conheceu o homenageado.

O que acontece agora

Com a rejeição, a proposta só pode voltar daqui a um ano. Cea já sinalizou que vai insistir. “Talvez daqui a um ano a gente apresenta de novo esse projeto, as coisas mudam”, disse.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é jornalista, publisher e sócio-diretor do Jornal Tempo Novo, veículo fundado em 1983 na Serra (ES) e referência na cobertura da Serra e da Grande Vitória. Conduziu a transformação digital do jornal, que em 2025 foi eleito o melhor site estadual de notícias no Brasil Publisher Awards. No portal, assina a coluna Mestre Álvaro, com análises sobre política, economia, segurança pública, infraestrutura e meio ambiente, sempre com leitura crítica dos fatos e apoio em dados. Formado em Administração pela Ufes, é autor do livro Serra: a história de uma cidade (2024). Recebeu a Ordem do Mérito Domingos Martins e a Comenda Augusto Ruschi, da Assembleia Legislativa do ES, e a Comenda Nelson Mandela, da Câmara Municipal da Serra. Com leitura crítica dos fatos e uso de dados públicos, acompanha de perto a gestão municipal, as eleições e os temas que mexem com o dia a dia de quem vive na Serra. É autor do livro Serra: a história de uma cidade (2024), uma reconstituição jornalística da trajetória do município.

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