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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Bactérias e mutação genética no rio Doce com lama da Samarco, diz estudo

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Gabriel Almeidahttps://www.portaltemponovo.com.br/
Morador da Serra, Gabriel Almeida é repórter do Tempo Novo há mais de quatro anos. Atualmente, o jornalista escreve para diversas editorias do portal.

A lama da Samarco atinge o litoral capixaba na foz do rio Doce. Foto: Agência Brasil

Além do todos os problemas que já causou e segue causando na principal fonte de água do Espírito Santo, o rio Doce, a lama da Samarco (Vale + BHP) esconde outro perigo: a proliferação de bactérias e mutações genéticas que podem causar danos à saúde de quem consome a água, como pescado ou carne de animais que usam o rio para dessedentação. É o que aponta estudo do Instituto Alberto Luiz de Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Segundo o estudo, que foi publicado na revistaScience of Total Environment no início de novembro, as bactérias se alimentam do ferro presente na lama do rejeito da extração de minério, que está depositada no leito e margens do rio Doce e dos rios Gualaxo do Norte e Carmo, os dois últimos localizados em Minas Gerais. Com o rompimento da barragem da Samarco em Mariana – MG há três anos, foram lançados 45 milhões de toneladas de rejeitos na bacia do rio Doce.

O estudo é baseado no doutorado da pesquisadora Marcelle Codeiro, foi coordenado pelo pesquisador Fabiano Thompson. Foram analisadas amostras de 16 pontos afetados na bacia, no ES em Baixo Guandu, Mascarenhas, Colatina, Linhares e Regência. E além dos parâmetros tradicionais da qualidade da água como a presença dos compostos orgânicos e metais, também analisou o DNA e metogenoma dos organismos presentes nos rios.

De acordo com Thompson, a cada temporada de chuva os rios ficam mais volumosos e fazem desprender a lama das margens e do fundo, misturando-a de novo à água. Situação que favorece a proliferação das bactérias que consomem ferro e nitrogênio, este último indicador de que o rejeito pode conter substâncias orgânicas não declaradas pela Samarco. Uma delas, a amina, pode ter sido usada na extração do minério. 

“O rio Doce é um doente crônico. Suas águas precisam ser monitoradas permanentemente e o ideal é que não fossem consumidas, mas diante da necessidade, é preciso cuidado. Os maiores riscos são para crianças e fetos. A lama não é inerte, tem metais pesados. É preciso investigar também o impacto no mar, principalmente em organismos fixos como corais. E isso está sendo feito por outras instituições”, pontua o pesquisador.

No Espírito Santo, o rio é responsável pelo abastecimento das sedes das cidades de Baixo Guandu e Colatina. A foz do Doce em Regência era um dos principais pontos pesqueiros do litoral e a lama afetou e segue afetando o mar. Pescadores do litoral do município da Serra, por exemplo, relatam que as vendas de pescados caíram cerca de 50% desde que a lama chegou ao litoral em novembro de 2015. 

Criada pela Samarco para reparação dos danos, a fundação Renova se posicionou sobre os questionamentos levantados. Através da assessoria de imprensa, admitiu que usa o composto éter-amina no manuseio do minério, mas negou que a substância tenha chegado às áreas afetadas pela lama.

Quanto à proliferação de bactérias, disse que já ocorria antes do rompimento da barragem e que a causa é o lançamento de esgoto sem tratamento.  Disse que tem programa que prevê R$ 500 milhões para auxiliar os 39 municípios mineiros e capixabas da bacia a implantar saneamento básico, incluindo tratamento de esgoto e destinação de lixo.  

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