Araceli morava e está sepultada na Serra

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Araceli foi sepultada no Cemitério Municipal da Serra Sede, um dos seis cemitérios públicos da cidade. Morte de Dante Michelini reacende caso. Crédito: divulgação.

Um dos crimes mais bárbaros da história do Espírito Santo, que chocou o Brasil, ganhou um novo capítulo nos últimos dias. O corpo de Dante Brito Michelini, de 76 anos, conhecido pelo envolvimento no caso Araceli, foi encontrado decapitado e com sinais de carbonização em um sítio na região de Meaípe, em Guarapari. O fato reacendeu a memória do assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo, ocorrido em 1973.

O que muitos não sabem é que Araceli tinha sua vida ligada à Serra. Moradora do bairro Bairro de Fátima, ela foi sepultada no Cemitério Municipal da Serra Sede, um dos seis cemitérios públicos da cidade, localizado atrás da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município.

Araceli só foi enterrada três anos após o crime, no túmulo de número 1213, devido à demora e às divergências na investigação. No bairro Bairro de Fátima, uma das ruas da comunidade leva o nome da menina, em homenagem à sua memória. Além disso, desde 2025 a Câmara da Serra concede uma comenda que leva o nome de Araceli, destinada a reconhecer o trabalho de pessoas e instituições que atuam no combate ao trabalho infantil.

O corpo de Araceli foi encontrado seis dias após o assassinato, em um matagal nas proximidades do Hospital Infantil, em Vitória, desfigurado e em avançado estado de decomposição.

Repercussão nacional

O caso Araceli Crespo se tornou um marco na história do Espírito Santo. A data de seu desaparecimento, 18 de maio, foi instituída como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A falta de justiça e a impunidade seguem como fontes de revolta e questionamentos, evidenciando falhas e lacunas no sistema judicial brasileiro.

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No dia 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Crespo, então com oito anos, saiu mais cedo do Colégio São Pedro, na Rua General Câmara, no bairro Praia do Suá, em Vitória, onde estudava, mas nunca chegou em casa.

As investigações apontaram que a menina foi induzida a usar drogas e violentada sexualmente antes de ser morta. No entanto, o que ocorreu entre o desaparecimento e a localização do corpo permanece um mistério até os dias atuais. Entre os principais suspeitos estavam Paulo Constanteen Helal e Dante Michelini, integrantes de famílias influentes do Espírito Santo.

O crime gerou grande comoção e mobilizou forças policiais, a imprensa e a sociedade. Protocolos de segurança foram adotados em escolas e até mesmo pessoas com supostos dons paranormais foram acionadas na tentativa de localizar a menina. Apesar da gravidade do caso, ninguém foi responsabilizado.

As investigações iniciais foram marcadas por falhas que comprometeram a produção de provas. O estado avançado de decomposição do corpo dificultou a identificação, que só foi confirmada após exames de cabelo e da arcada dentária.

Ao longo do processo, surgiram diversas suspeitas e acusações, inclusive contra membros da elite capixaba. Contradições e divergências prejudicaram o avanço das apurações e resultaram em poucas pistas concretas.

Quatro anos após o crime, três pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público e levadas a julgamento, entre elas Dante Brito Michelini, conhecido à época como “Dantinho”. Em 1980, as condenações foram anuladas por erro técnico. Em 1991, após novo julgamento, todos os acusados foram absolvidos por falta de provas. O crime prescreveu em 1993.

Morte de Dante Michelini

O corpo de Dante foi localizado na última terça-feira (3) e teve a identificação confirmada nesta quinta-feira (5) pela Polícia Científica do Espírito Santo, após exame papiloscópico realizado no Instituto Médico Legal (IML), em Vitória. A identificação preliminar já havia sido feita por um irmão da vítima, com base em características físicas e nas roupas encontradas no local.

A família foi oficialmente notificada e iniciou os procedimentos para liberação do corpo. Questionada sobre a motivação do homicídio e sobre a localização da cabeça da vítima, a Polícia Civil informou apenas que o caso segue sob investigação da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Guarapari, sem divulgação de outros detalhes até o momento.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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