A “maldição” da Presidência da Câmara da Serra

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Crédito: Divulgação

A sonhada cadeira de presidente da Câmara é sempre objeto de intensa disputa política na Serra. Não é para menos: o vereador escolhido para a função passa a gerir um orçamento milionário, além de ter a prerrogativa de nomear servidores — o que fortalece suas bases políticas — e ocupar o posto de autoridade legislativa mais influente do município, sendo ainda o segundo na linha de sucessão à Prefeitura da Serra.

No entanto, os privilégios escondem alguns fatos objetivos ligados ao cargo. Uma análise dos últimos 20 anos de presidência da Câmara da Serra revela que o exercício da função não projetou politicamente aqueles que a ocuparam; ao contrário, acabou se tornando a porta de entrada para o declínio de suas carreiras. Dizer que há uma “maldição” incrustada na presidência da Câmara talvez seja injusto com a nobreza da função, mas o histórico, sem dúvida, chama a atenção.

Presidentes que se desgastaram no cargo: Adir, Aloísio e Cézar

Entre 2005 e 2006, o então vereador Adir Paiva comandou a Casa. Considerado um parlamentar desenvolto, sofreu forte desgaste político, especialmente em um caso envolvendo a compra de cadeiras massageadoras. Não conseguiu se reeleger e nunca mais retornou à Câmara.

De 2007 a 2008, o cargo ficou com o habilidoso Aloísio Santana. Ele enfrentou problemas na prestação de contas e desgaste junto à opinião pública por causa do aumento dos subsídios dos vereadores. Também não se reelegeu.

De 2009 a 2012, Cézar Nunes assumiu a presidência. Com trânsito fácil entre os parlamentares e boa relação com a Prefeitura, enfrentou problemas no Tribunal de Contas e precisou se defender em um longo processo judicial, correndo o risco de ser considerado ficha suja. Em 2016, não conseguiu voltar ao Legislativo.

Esses três ex-presidentes, muito embora tenham enfrentado problemas de ordem judicial e de imagem junto à opinião pública, conseguiram manter a harmonia entre os poderes, preservar a estabilidade entre os vereadores e avançar em agendas administrativas. Ainda assim, acabaram se desgastando no exercício da função.

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Presidentes marcados por instabilidades e crises políticas: Guto, Neidia e Caldeira

Em 2013, Guto Lorenzoni (Rede) assumiu a presidência. Teve dificuldades em manter hegemonia no plenário e enfrentou um grupo que se voltou contra ele. Acabou sendo rifado do cargo. Conseguiu manter-se na política por algum tempo, mas sem projeções maiores. Na 18ª Legislatura (2017-2020), não obteve reeleição.

De 2015 a 2018, Neidia Maura ocupou a presidência, em um dos períodos mais conturbados da política serrana. Conhecida pelo perfil linha dura, colecionou desafetos. Em 2017, surpreendeu ao migrar da oposição para a base do então prefeito Audifax Barcelos, sem nunca se integrar de fato ao grupo. O movimento foi considerado um dos episódios de maior desgaste político recente na Serra.

No entanto, em 2018, Neidia foi afastada sob acusação de corrupção. Mais tarde, foi condenada a 5 anos e 10 meses de prisão em primeira instância. Ela recorreu e segue em liberdade.

Dessa crise surgiu Rodrigo Caldeira, que aprofundou ainda mais a instabilidade política ao assumir a presidência em 2018. Protagonizou uma disputa pessoal com o então prefeito Audifax Barcelos, marcada por acusações mútuas de envolvimento com “crime organizado”.

Politicamente, Rodrigo foi um péssimo presidente. Toda a briga que protagonizou não resultou em nada concreto e acabou desgastando toda a Câmara. Na eleição de 2020, dos 23 vereadores, apenas cinco conseguiram se reeleger — e Rodrigo não conseguiu se projetar para um cargo maior.

Saulinho quebrou o ciclo de crises, mas foi afastado cautelarmente

Em 2022, Rodrigo deixou o comando e quem assumiu foi Saulinho da Academia. Sob sua gestão, a Câmara recuperou certo nível de estabilidade que não se via há anos. Investiu em modernização, inaugurou um Procon interno e promoveu políticas de inclusão. Na eleição de 2024, Saulinho foi reeleito como o vereador mais votado da história da Serra, o que projetava um cenário bastante positivo para a disputa seguinte, em 2026.

No entanto, em 2025, uma investigação conduzida pelo Ministério Público levou ao seu afastamento do cargo por decisão judicial, sob a acusação de tentar obter vantagens indevidas. O afastamento é de caráter cautelar e pode ser revertido por instâncias superiores, mas representou um banho de água fria em uma trajetória em plena ascensão.

Guardadas as diferenças de cada caso, Saulinho tornou-se o sétimo presidente consecutivo a enfrentar problemas no exercício da função, muito embora tenha conseguido estabilizar a Câmara e promover governabilidade ao Executivo.

O afastamento de Saulinho foi especialmente sentido no universo político, já que ele havia quebrado um ciclo de instabilidades e tensões que começou a se tornar mais evidente na gestão de Guto, agravou-se sensivelmente com Neidia e alcançou status de crise institucional sob Caldeira.

Dias após o afastamento de Saulinho, o Ministério Público revelou um amplo esquema de corrupção envolvendo os ex-presidentes Neidia Maura e Rodrigo Caldeira, o que agravou ainda mais o desgaste da imagem da Câmara da Serra como instituição.

Presidência da Câmara: um caixão político?

Historicamente, muito antes mesmo dos últimos 20 anos, a presidência da Câmara da Serra não tem sido um vetor de crescimento na carreira política de quem a exerce. Há décadas não se vê um presidente do Legislativo municipal alcançar projeção estadual.

Para se ter uma ideia, o último exemplo de ascensão após a presidência foi Aldary Nunes. Ele foi presidente da Câmara entre 1971 e 1973 e, em seguida, eleito prefeito da Serra, exercendo mandato até 1977.

Paralelamente, quando se observa os políticos serranos que tiveram crescimento pessoal e alçaram voos maiores, nota-se em comum o fato de que todos passaram longe da mesa diretora da Câmara. Entre os exemplos estão os ex-vereadores Brice Bragatto, Sérgio Vidigal, Márcia Lamas, Wanildo Sarnáglia, Roberto Carlos, Givaldo Vieira, Bruno Lamas, Vandinho Leite, Alexandre Xambinho e, mais recentemente, Fábio Duarte e Pablo Muribeca.

É difícil diagnosticar a causa desse processo, já que certamente é multifatorial: envolvem-se os contextos políticos de cada época, decisões equivocadas, o aprimoramento e atuação dos órgãos de fiscalização e controle e até questões de natureza humana. O fato, porém, é que politicamente não tem compensado ser presidente da Câmara da Serra há pelo menos 50 anos — com problemas cada vez mais acentuados nos últimos 20.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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