O recente caso da jovem que desapareceu em um prédio em Caldas Novas nos convida a uma reflexão que vai além dos fatos. Em meio a comentários e tentativas de explicação, uma frase tem sido repetida com frequência: “ela não levava desaforo para casa”. Muitas vezes dita como elogio à coragem ou à personalidade forte. Mas será que, do ponto de vista emocional, isso é sempre uma escolha?
O ser humano não reage apenas com lógica ou controle racional. Em situações de tensão, ameaça ou conflito, emoções profundas entram em ação. Medo, raiva, sensação de injustiça e experiências emocionais anteriores influenciam nossas respostas, muitas vezes de forma automática. Nem sempre reagir é uma decisão consciente — às vezes, é uma resposta emocional que acontece antes mesmo do pensamento.
Vivemos em uma cultura que valoriza o enfrentamento imediato e a reação direta. Para muitas mulheres, isso se transforma em uma expectativa perigosa: a ideia de que silenciar é fraqueza e reagir é força. No entanto, emocionalmente, reagir nem sempre significa estar protegida. Em alguns contextos, a reação pode aumentar o risco, enquanto o silêncio, o afastamento ou a busca por ajuda podem ser formas legítimas de cuidado consigo mesma.
Rotular alguém como alguém que “não leva desaforo para casa” simplifica demais uma realidade emocional complexa. Essa expressão pode, ainda que de forma involuntária, deslocar a atenção da situação vivida para o comportamento da vítima, quando o essencial deveria ser compreender o contexto, as relações envolvidas e as possíveis situações de violência.
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É importante lembrar que cada pessoa carrega uma história emocional única. Emoções acumuladas, limites ultrapassados e experiências de desvalorização podem emergir de maneira intensa em momentos críticos. Nesses instantes, não se trata de bravura ou imprudência, mas de humanidade.
Casos como esse nos lembram da urgência de falar sobre emoções, limites e segurança emocional. Saúde mental também é aprender a reconhecer quando reagir, quando recuar e quando pedir apoio. Talvez o maior aprendizado seja entender que comportamentos não surgem isolados. Eles carregam histórias, emoções e contextos que merecem ser olhados com cuidado.
Por Helen Cristina Oliveira Santos – Psicologia analítica e estudante de neuropsicologia

