Produtora da Serra fala sobre Vila das Artes e feira cultural que movimenta Jacaraípe

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A CASA DE PEDRA do Neusso (de chapéu), deflagrou a formação da Vila das Artes, que vai realizar seu terceiro festival
Maria Marta Tomé é sócia de um dos ateliês, o Ecoternura, que trabalha com arte eco sustentável.  Foto: Divulgação

Por Fábio Boa Morte

Nesta entrevista, a produtora e artista plástica Maria Marta Tomé, com mais de 20 anos de carreira,  fala sobre sua trajetória e principalmente sobre a Vila da artes, um local que abriga um conjunto de ateliês e galerias e que também é a  residência e o ambiente de produção de artistas e artesãos. Maria Marta é sócia de um dos ateliês, o Ecoternura, que trabalha com arte eco sustentável.  A Vila, que se tornou um dos principais destinos turísticos do Espírito Santo, se prepara para um grande evento: a feira cultural da Vila das artes, que acontece entre seis e 28 de novembro.

Pode descrever a sua trajetória como artista e produtora cultural?

 Sou Graduada em Artes Plásticas pela UFES (2001), com Mestrado em Estudos em História, Teoria e Crítica da Arte do PPGA/UFES (2020). Também me aperfeiçoei em Gestão de Equipamentos Públicos pela FGV (2013). Atuação por quase duas décadas na gestão pública, nas esferas municipais nas cidades de Serra, Vitória e Cariacica. Atualmente trabalho com consultoria, produção executiva, elaboração de projetos e captação de recursos e incentivos para projetos culturais.  Sou artista sócio-proprietária no Espaço Ecoternura, onde mantenho uma galeria de artes visuais e expõem seus trabalhos de arte ecossustentável. O espaço Ecoternura está localizado na Vila das Artes, na Serra, e integra a Cooperativa de Espaços Culturais da Grande Vitória, que é um coletivo de espaços culturais independentes da região metropolitana de Vitória.

Sobre a Vila das Artes. Como começou?

 A Vila das Artes é conjunto de ateliês e galerias de artes visuais e também a residência e o ambiente de produção de artistas e artesãos, localizada no Bairro São Francisco, em Jacaraípe.

Tudo começou com o primeiro morador, o artista autodidata Neusso Ribeiro, que há mais de tês décadas construiu uma casa de pedra para residir, produzir e expor suas esculturas de troncos, raízes e casqueiros provenientes de áreas desmatadas. Nessa trajetória, Neusso criou uma das mais importantes e conhecidas galerias de arte do Município da Serra: a Casa de Pedra.

Neusso, com seu trabalho, atraiu outros artistas para essa região de Jacaraípe. Hoje a Vila das Artes agrega artistas que têm relevantes e notórias trajetórias artísticas, reconhecidos pela mídia por seus trabalhos/criações de expressão e qualidade no campo da arte, e personalidades atuantes em diversas entidades de representação de segmentos artísticos no âmbito municipal e estadual.

Quais são os eventos e atividades realizadas na Vila das artes?

A Vila das Artes já realizou festivais, encontros e apresentações culturais, cafés da manhã coletivos, e tantas outras ações que movimentaram o lugar, atraíram o público e promoveram o intercâmbio entre os artistas e a comunidade, ampliando a rede de relações entre artistas e o público da grande vitória. A Vila das Artes teve mais de 10 ateliers, mas, infelizmente, não conseguiram manter suas trajetórias na Vila, mas estão atuando em outros lugares e estados.

Embora o mais evidente na Vila das Artes sejam as artes visuais, há artistas que estão sediados no território e que atuam em outras áreas como o audiovisual, cênicas e literatura.

Portanto, o grande atrativo da Vila das Artes é ser um território criativo que a cada dia se consolida como um atrativo e um destino turístico pela sua vocação artística, na Serra.

Na Vila das Artes o público encontra os mais diversos objetos artísticos, criados a partir das mais diferentes e distintas experiências estéticas, cada um com sua linguagem, seus materiais, sua prática e sua maneira de criar e trabalhar a arte.

Os espaços são independentes, abertos à visitação gratuitamente, ou com cobrança de um valor simbólico para manutenção do espaço.

Quais são os planos e projetos para Vila das artes?

Os planos para a Vila das Artes é continuar buscando o reconhecimento da administração pública municipal e estadual, continuar se fortalecendo enquanto um coletivo de artistas e artesão que moram, vivem e trabalham nesse lugar, e embora a monetarização do objeto artístico seja importante como geração de trabalho e renda, não é a única aspiração. Aqui o fazer artístico está disponível e a arte tem lugar de destaque na Vila das Artes. O visitante/público pode estar, passear, entrar em contato com a arte, com os artistas, com os ambientes de criação, os materiais e matérias prima, adentar os ambientes das artes visuais. O aspecto geral da Vila é acolhedor, as ruas são arborizadas, frescas, que trazem um vento suave, reforçando o aspecto de ambiente e território sensível.

Nosso objetivo é continuar elaborando projetos e propostas para dar visibilidade a Vila das Artes, aos artistas e artesãos e ao fazer artístico, sobretudo pela compreensão da importante contribuição que as artes, em todas as suas linguagens: visuais, sonoras, literárias, cênicas, popular, entre outras, entendendo que a arte pode contribuir na constituição de sujeitos críticos e sensíveis, em especial, na atualidade que vemos tantos exemplos de insensibilidade.

Vivenciar a arte é um direito e nós buscamos fazer a nossa parte no município da Serra. Vamos continuar buscando mecanismos, recursos, financiamento e apoio, para oportunizar cada vez mais acesso gratuito as atividades culturais e artísticas na Vila das Artes.

Como a pandemia afetou o cenário artístico do ES?

Afetou muito. A classe artística foi a primeira a parar e será a última a voltar, como já foi dito em uníssono, e é uma realidade do estado, do país e do mundo. Por isso a lei de emergência cultural, conhecida como a lei Aldir Blanc foi aprovada, justamente para socorrer os trabalhadores, que viram suas atividades profissionais, técnicas e de sustento serem interrompidas por esse longo período pandêmico que vivemos desde de março de 2020.

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E tinha que ser assim mesmo. Parar para preservar a vida. A lei socorreu, fez a sua parte, inclusive na Vila das Artes que parte dos espaços culturais conseguiram acessar a lei e receber valores para sua manutenção, via edital publicado pela Prefeitura da Serra.

O Conselho Municipal de Cultura foi essencial nesse processo porque acolheu, orientou, pegou na mão, fez a busca ativa, entrou na vida dos artistas da cidade e fez a lei cumprir o seu papel de chegar na ponta e encontrar os artistas e espaços culturais do município. O Conselho de Cultura, no auge do período pandêmico, fez o papel do executivo municipal que na época vivia um momento de transição de mandato em um ano eleitoral.

Atualmente as atividades estão voltando a Vila das Artes e com elas as pessoas, os visitantes, os turistas. Os espaços culturais, as galerias e ateliês estão empenhados nessa missão de receber o público, inclusive com o objetivo de cumprir as contrapartidas obrigatórias pelo recebimento dos recursos da Aldir Blanc para manutenção de espaços culturais – Inciso II e para realizar a FEIRA CULTURAL DA VILA DAS ARTES, que também será realizada com os recursos da Lei Aldir Blanc. Vale ressaltar que as atividades serão realizadas seguindo os protocolos de segurança estabelecidos pelos órgãos competentes para esse período.

 Quais políticas públicas poderiam ser implantadas para minimizar o impacto da

pandemia?

 Manter a política de fomento para os setores, segmentos, fazedores, produtores, trabalhadores e espaços culturais da cidade, a exemplo da Lei Aldir Blanc. A Serra, pode sentir o que é investir na área cultural. Hoje a Serra respira arte e cultura, por meio das atividades e projetos que foram fomentados pela lei de emergência cultural.

A Serra pode fortalecer os diversos territórios criativos na cidade e merece um olhar que reflita uma política pública eficiente sobre a cultura e a arte na cidade, mantendo o fluxo criativo, permanente e sem interrupção e isso só se faz com um Sistema de Fomento e Financiamento claro, objetivo, forte, com orçamento coerente e consolidado na peça orçamentária da parta da Secretaria Municipal de Turismo, Cultura, Esportes e Lazer da Serra/SETUR.

A Serra já preconizou a maneira de fazer política pública para a área da cultura no estado. A Lei Chico Prego de incentivo à cultura publicava os editais regularmente e mantinha a viabilidade de quase 100% de troca de bônus, quando isso era o maior entrave para a classe artística no estado. Já possuiu um sistema municipal de bibliotecas funcionando que contava com uma biblioteca móvel, exemplo único no estado e que foi um projeto realizado em parceria com a iniciativa privada. Celebrou os primeiros convênios de manutenção e preservação da cultura popular com a Associação das Bandas de Congo da Serra e manteve por 12 anos contínuos a Casa do Congo Mestre Antônio Rosa, um dos únicos espaços culturais com características museológicas, para formação e informação de educação patrimonial de natureza material e imaterial da Grande Vitória. São apenas alguns exemplos de políticas públicas estruturantes, e de transformação cultural profunda, que a Serra já pode contar…

Então podemos afirmar que a Serra sabe fazer, conhece os caminhos, já sentiu os resultados desses investimentos, então agora já pode avançar na gestão da cultura. Uma gestão que envolva a cidade a partir das suas próprias experiências criativas, de suas vivencias culturais, pelo seu próprio olhar periférico e não hegemônico. Um orçamento que responda ao devir dos territórios, da sociedade diversa e potente que compõem essa cidade.  Portanto, nada justifica a Serra não ter uma política pública definida, tecnicamente eficiente, efetiva e com orçamento para a área cultural.

Realizar uma conferência de cultura para ouvir a cidade, conferir e confirmar que a cidade pulsa arte e cultura, que há produtores e fazedores que já trabalham e atuam na cidade há décadas e que há novas iniciativas, novos produtores, novos trabalhadores, outros conceitos e linguagens ativas na cidade. A partir dessa conferência elaborar, efetivar e consolidar um Plano Municipal de Cultura que de fato responda as necessidades e urgências da cidade com vontade política e orçamentária.

Manter atualizado o cadastro municipal de informação e indicadores culturais e não abrir mão da busca ativa para identificar, reconhecer, cadastrar os fazedores, trabalhadores, territórios e equipamentos culturais, criar e instituir o Sistema de Fomento e Financiamento Municipal que inclui lei de incentivo, editais, chamamentos, premiações, aquisição de compra de ativos, bens e serviços culturais e outros certames para manutenção de espaços culturais possa fazer sentido e cumprir os seus reais objetivos.

Sobre a feira da Vila das artes, qual é a proposta do projeto?

O projeto da Feira Cultural da Vila das Artes foi elaborado em pleno período pandêmico, com objetivo de oferecer trabalho e renda para os artistas da Vila das Artes e atividades e apresentações artísticas gratuitas para o público em geral, considerando a função da lei de emergência cultural.

No bojo desses objetivos, oportunizar vivências com a arte e com os artistas provendo intercâmbio dos artistas da Vila com outros artistas.  Serão 07 espaços que realizarão cerca de 15 oficinas e 10 apresentações culturais.

A Feira sempre foi pensada para ser realizada dentro dos espaços culturais e ateliers, de maneira intimista prevendo o retorno as atividades pós período pandêmico com retorno cauteloso, controlando o acesso e observando as medidas de prevenção do Covid 19. As turmas de oficinas são limitadas a no máximo 08 participantes. Todos os espaços têm entrada gratuita, inclusive a Casa de Pedra que tem uma cobrança simbólica de entrada para sua manutenção, mas no período da Feira Cultural a entrada é gratuita.

A Feira oferece as mais diversas atividades e vivencias artísticas e apresentações culturais. Serão momentos de autocuidado e autoconhecimento e que promovam as relações sensíveis com a arte, a natureza e os elementos e materiais naturais e reutilizáveis.

Nas oficinas serão oferecidas produção de tintas naturais, marchetaria em madeira, modelagem em argila, miniaturas de cachorrinhos de lã e tampinhas de plástico, bonequinhas com tecido, guirlandas e velas natalinas com material reutilizado, máscaras de papel mache, pequenas esculturas e quebras cabeças em madeira e estamparia com elementos naturais.

As apresentações culturais se dividem em literárias, musicais, de dança e cênicas.

Quais são os objetivos? Suas principais atividades? Qual o plantel de artistas.

A Feira será realizada na Casa de Pedra de Neusso Ribeiro (mais de 35 anos), no Espaço Ecoternura de Dida Áurea Thomé e Maria Marta Tomé (16 anos), no Atelier Arte de Viver de Vera Silva (20 anos), na Cerâmica da Vila Atelier de Áurea Brandão (10), no Atelier da Denyse Viana e no Espaço da DorArte de Doralice Rocha (5 anos). Recentemente, o Restaurante da Vila das Artes da artesã Lena iniciou suas atividades.

A Vila das Artes também conta com algum comércio local e outros espaços como o Atelier e Bistrô Olhares de Patrícia e Leonardo e o Atelier da Vera Ferreira.

A Vila das Artes é uma das iniciativas mais fortes do ES, tanto artisticamente como em potencial turístico, a sra acredita que falta visibilidade? Por quê?

 A Vila das Artes existe pela arte que produz e apresenta para os mais variados públicos. A arte que a Vila das Artes apresenta qualifica o dia a dia da cidade, movimenta a economia criativa do lugar, e mesmo sendo impactada pela ausência histórica de investimento institucional, principalmente em divulgação e promoção se consolida como um relevante destino e um atrativo turístico na Serra.

Destaco que a Vila se localiza em Jacaraípe, um belíssimo balneário  histórica e culturalmente, que é o cenário da infância de diversas e inumeráveis famílias em especial serranas e mineiras, e na via de acesso a um dos mais importantes patrimônios históricos do Estado, a Igreja e Residência de Reis Magos, que é o quadrado jesuítico mais perfeito da costa brasileira, isso quer dizer que no território nacional essa igreja é uma das poucas edificações que mantém essa forte característica do período colonial brasileiro.

Falta dizer para os pontos turísticos, aos espaços culturais públicos e independentes da cidade onde estão, quem são, o que possui de atrativos, qual as suas programações, qual a distância entre eles, como chegar apresentando itinerários afetivos e acessíveis, o que consumir, enfim criar uma relação entre esses territórios. Quem vai a Lagoa Juara precisa saber que existe a Vila da Artes em Jacaraípe, quem vai à Vila das Artes precisa saber que existe o Centro Cultural Eliziário Rangel, em São Diogo, quem vai ao Sítio Histórico de Queimado precisa saber que há um Museu histórico no Centro da Serra, e quem vai ao Museu precisa saber que há a Sede da Associação das Bandas de Congo da Serra, em São Domingos. A Administração precisa dar visibilidade a esses lugares, promover o intercâmbio entre esses espaços, territórios, ambientes, não pode ser uma promoção espontânea e orgânica, precisa haver uma meta de divulgação que garanta a integração da cidade só dessa maneira saberemos o que é pertencimento afetivo.

Qual mensagem gostaria para o público em geral, que está sendo convidado para a Feira? Quais os dias do evento?

 Siga as redes sociais dos espaços, dos ateliers, dos artistas e artesãos. Trabalhamos sozinhos e muitas vezes temos nossos compromissos.

 A Vila é composta por duas ruas principais onde se localizam ateliês de arte e artesanato cujo preço dos produtos vai de R$5,00 a R$15.000,00.

Visitas podem ser agendadas e podem ser encontradas objetos artísticos, decorativos e utilitários telas, esculturas, quadros, artes e peças de diversos materiais como madeira e cerâmica, arte em papel, com conchas, areias, pedras e fibras naturais, retalhos de tecidos, material orgânico reutilizado, entre outros. Vale a pena conferir, apoiar a arte e o artista local, vivenciar a arte produzida na sua cidade.

A feira vai acontecer em todo o mês de novembro de 2021, sempre dentro dos ateliers e espaços culturais, apenas nos sábados e domingos, no horário de 09 às 18 horas.

 Uma das atividades mais esperadas é a roda de conversa com os artistas, não é mesmo?

Uma das possibilidades e oportunidades que a FEIRA CULTURAL DA VILA DAS ARTES vai criar é a realização da Roda de Conversa que será um momento para conversar, ouvir e escutar os nossos pares. Entender a nossa existência enquanto coletivo de artistas que trabalham com arte e fazeres artísticos e são espaços culturais independentes no cenário da Cidade da Serra.

Será uma roda de conversa para “conversar” sobre as potencialidades da Vila das Artes, como um importante destino/atrativo turístico, com vocação artística e como um território criativo, na perspectiva dos trabalhadores e trabalhadoras da cultura, da economia criativa e do empreendedorismo pelo viés da arte.

Para qualificar ainda mais essa conversa, convidamos agentes públicos, representantes de instituições públicas do estado e do município e representantes de outras entidades culturais privadas.

A Roda de conversa encerra a programação, e será um momento de acelerar, potencializar e esquentar… enfim, valorizar nossos potenciais e tirar lições e indicadores dessa extensa programação que também vai realçar as nossas fraquezas e até aquilo que pode nos ameaçar.

Na ocasião poderemos versar sobre a possibilidade e a importância de um olhar institucional sobre esse lugar. Nesse sentido, convidamos para estar conosco em um momento específico da programação, que é a RODA DE CONVERSA a ser realizada dia 27 de novembro de 2021, no horário de 14h às 18 horas, na Casa de Pedra, Vila das Artes, Bairro Jacaraípe, Serra.

É um evento aberto, mas será necessária inscrição prévia.  Para se inscrever, é preciso ligar para o número: 9 9995 6731.

Confira a programação completa:

Serviço:

Feira cultural da Vila das artes

Quando: de seis a 28 de novembro

Onde: R. Nossa Sra. de Lourdes, 507-427 – Jacaraípe, Serra – ES.

Informações: (27) 9 9995 6731

Foto de Gabriel Almeida

Gabriel Almeida

Jornalista há 11 anos, Gabriel Almeida é editor-chefe do Portal Tempo Novo. Atua diretamente na produção e curadoria do conteúdo, além de assinar reportagens sobre os principais acontecimentos da cidade da Serra e temas de interesse público estadual.

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