“Preta safada” | Professora é denunciada por supostas falas racistas na Ufes

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Prédio central da Ufes, em Goiabeiras. Crédito: divulgação.

O Centro Acadêmico Professor Cleber Maciel (Calhis), do curso de História da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), e o Diretório Central dos Estudantes (DCE) divulgaram nota pública na qual denunciam supostas manifestações racistas, capacitistas e preconceituosas atribuídas a uma docente do departamento. A nota não divulga o nome da professora.

Segundo o documento, um dos episódios ocorreu no dia 12 de fevereiro, durante uma aula de disciplina optativa. Na ocasião, a docente fez referência à sua diarista, descrita como uma mulher negra, utilizando a expressão “preta safada”. Além disso, conforme o relato estudantil, ela afirmou que, “depois de sair da senzala”, a funcionária “ficou frouxa”.

De acordo com os estudantes, a fala ocorreu em tom pejorativo e provocou indignação entre os alunos presentes.

A nota também descreve outros episódios. Conforme o documento, a professora afirmou que um estudante negro poderia ser “vendido como um escravo barato”.

Além desses relatos, os alunos afirmam que a docente direcionou comentário considerado capacitista a um estudante autista. Segundo o texto, ela declarou que, se engravidasse de “alguém como ele”, preferiria interromper a gestação.

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Diante disso, as entidades classificam as declarações como racistas, capacitistas, desumanizantes e incompatíveis com o ambiente acadêmico.

Estudantes apontam ambiente hostil

Na mesma nota, Calhis e DCE afirmam que os casos não seriam isolados. Segundo as entidades, existe um “cenário de violência institucional”, que se sustenta por omissões e pela normalização de condutas discriminatórias.

Além disso, o documento menciona relatos de assédio, importunação sexual e intimidação. Conforme os estudantes, essas situações ocorreram ao longo dos semestres e contribuíram para um ambiente hostil a pessoas negras, mulheres, estudantes LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência e alunos em situação de vulnerabilidade social.

Por esse motivo, representantes do Centro Acadêmico participaram de reunião com coordenadoras do Departamento. Eles levaram uma testemunha dos fatos relatados para reforçar os apontamentos.

Processo administrativo

Posteriormente, o Calhis informou que a coordenação abriu processo administrativo e encaminhou o caso à Corregedoria da Ufes. Além disso, a Direção do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN) e a Reitoria tomaram conhecimento da situação.

Segundo o Centro Acadêmico, o procedimento tramita sob sigilo. Ainda assim, a coordenação orientou os estudantes a formalizar denúncias na Ouvidoria para que a Universidade apure os fatos de forma completa.

Além disso, conforme relato estudantil, denúncias antigas envolvendo a mesma docente estariam sendo desarquivadas.

Nota oficial da Ufes

Em nota publicada no dia 23 de fevereiro, a Administração Central informou que recebeu denúncia na Ouvidoria contra a docente por manifestações de caráter racista, capacitista e preconceituoso.

A Diretoria de Prevenção, Mediação de Conflitos e de Correição (DPMC) afirmou que emitiu parecer de admissibilidade em menos de 24 horas e instaurou investigação preliminar sumária. Caso identifique infração disciplinar, poderá abrir Processo Administrativo Disciplinar (PAD).

A Universidade ressaltou que repudia qualquer ato preconceituoso em seus campi. Além disso, destacou que desenvolve políticas permanentes de prevenção e enfrentamento ao assédio e à discriminação.

Por fim, a Administração Central reiterou que apurará todo ato de racismo, discriminação ou assédio e adotará as providências previstas em lei, se necessário.

Próximos desdobramentos

O caso segue sob investigação interna. Como o procedimento tramita em sigilo, a Universidade ainda não divulgou prazos nem informou eventuais medidas cautelares.

Foto de Mari Nascimento

Mari Nascimento

Mari Nascimento é repórter do Tempo Novo há 24 anos. Atualmente, a jornalista escreve para diversas editorias do portal, principalmente para a de Política.

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