A morte da menina Alice Rodrigues, de apenas seis anos, ocorrida em agosto do ano passado no bairro Balneário de Carapebus, na Serra, foi resultado direto de uma disputa entre facções criminosas. A conclusão é da Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), que apresentou nesta terça-feira (17) o resultado final do inquérito.
Ao todo, 14 pessoas foram indiciadas por participação no crime. Desses, nove estão presos e cinco seguem foragidos, incluindo lideranças apontadas como responsáveis pela ordem dos ataques.
Crime faz parte de guerra entre facções
De acordo com a Polícia Civil, o assassinato de Alice está inserido em uma sequência de crimes ligados à disputa territorial entre o Primeiro Comando da Vitória (PCV) e o Terceiro Comando Puro (TCP).
“Esse crime não é um fato isolado. Ele faz parte de uma sequência de ataques que ocorreram naquele período, dentro de uma disputa territorial entre facções”, explicou o delegado adjunto da DHPP da Serra, Paulo Ricardo Gomes.
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Segundo ele, a ofensiva criminosa ocorreu entre os meses de agosto e novembro, com o objetivo de dominar a região de Balneário de Carapebus.
Ordem partiu de dentro de presídio
As investigações apontaram que a ordem para os ataques partiu de dentro do sistema prisional e foi executada por integrantes da facção em liberdade.
O principal mandante, segundo a polícia, é Serginho Cauê, considerado atualmente um dos criminosos mais procurados do Estado.
“Quando há ataques do PCV, a ordem passa por ele. Ele é o responsável por coordenar essas ações no Espírito Santo”, afirmou o chefe da DHPP da Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori.
Ele está foragido e, de acordo com a polícia, pode estar escondido em comunidades do Rio de Janeiro.
Planejamento envolveu reuniões e comunicação direta
A investigação revelou que o crime foi planejado com antecedência e contou com uma estrutura organizada, incluindo reuniões presenciais e comunicação entre os envolvidos.
Pouco antes da execução, uma ligação por aplicativo reuniu integrantes da facção por cerca de 35 minutos, quando foram definidos os detalhes da ação.
“Foi um crime premeditado e planejado. Houve divisão de tarefas e participação de diversos integrantes com funções específicas”, destacou Rodrigo Sandi Mori.
Além disso, a polícia identificou o uso de cartas enviadas de dentro do sistema prisional, intermediadas por uma advogada, com orientações sobre ataques e ações do tráfico.
Estrutura criminosa organizada
O inquérito detalhou a hierarquia da organização criminosa, com divisão clara de funções entre mandantes, articuladores, executores e responsáveis pela logística.
Segundo a Polícia Civil, essa estrutura evidencia o nível de organização do grupo.
“Estamos tratando de uma organização criminosa estruturada, com planejamento, comunicação constante e atuação dentro e fora do sistema prisional”, explicou o delegado Paulo Ricardo Gomes.
Como aconteceu o crime
No dia 24 de agosto, um grupo armado saiu de uma base montada em área de mata com o objetivo de localizar um traficante rival conhecido como “Batata”.
Durante buscas pelo alvo, os criminosos passaram a circular pelo bairro em um veículo roubado.
Ao deixarem a região, o carro dos suspeitos colidiu com o veículo da família de Alice Rodrigues.
Após o impacto, um dos ocupantes do banco traseiro abriu fogo contra o carro.
“O atirador acreditou que se tratava de um veículo de rivais e efetuou os disparos”, explicou Paulo Ricardo Gomes.
A menina foi atingida na cabeça e morreu pouco depois.
Desespero da família e fuga
Segundo a polícia, o pai da criança chegou a sair do carro e implorar para que os criminosos parassem de atirar.
Após perceberem o erro, os suspeitos fugiram a pé, já que o veículo apresentou problemas mecânicos.
Na sequência, tentaram roubar uma motocicleta e, sem sucesso, sequestraram outra família para conseguir escapar do local.
Prisões e avanço das investigações
Dois suspeitos foram presos em flagrante logo após o crime, o que permitiu o avanço das investigações.
A partir dessas prisões, a Polícia Civil conseguiu identificar todos os envolvidos na ação criminosa.
“Todos os autores foram identificados e praticamente todos estão presos. Os que permanecem foragidos são os líderes”, afirmou o delegado-geral da PCES, José Darcy Arruda.
Principal alvo segue foragido
Apesar das prisões, os principais líderes da organização seguem foragidos, principalmente no estado do Rio de Janeiro.
Segundo José Darcy Arruda, a captura desses criminosos é prioridade.
“O Cauê é hoje o nosso alvo principal. Já prendemos seus braços direitos e estamos trabalhando, inclusive com apoio da inteligência do Rio de Janeiro, para capturá-lo”, disse.
Polícia reforça atuação contra o crime
Durante a coletiva, a Polícia Civil reforçou o compromisso no combate ao crime organizado e destacou a atuação integrada das forças de segurança.
“Todo aquele que quiser enfrentar a estrutura do Estado será identificado e preso”, declarou o delegado-geral.