Um procedimento investigativo do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) trouxe novos esclarecimentos sobre uma dúvida comum entre moradores da Serra: como o Boulevard Lagoa pode ser considerado um bairro se possui muros, portaria e controle de acesso?
A resposta definitiva está em um conjunto de leis municipais e acordos judiciais que, ao mesmo tempo em que reconhecem a legalidade urbanística do loteamento fechado, também determinaram medidas ambientais relacionadas à Lagoa Jacuném, área de proteção ambiental localizada ao lado do empreendimento. O tema foi analisado em um inquérito civil do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), conduzido pela 7ª Promotoria de Justiça Cível da Serra, que recentemente foi encerrado e arquivado após a avaliação dos documentos e das medidas adotadas no processo judicial.
Ao final da investigação, o Ministério Público concluiu que a estrutura urbanística do Boulevard Lagoa é legal, mas o empreendimento precisou assumir compromissos para corrigir intervenções ambientais próximas à lagoa.
Denúncia apontava danos ambientais e restrição de acesso
A investigação começou após uma denúncia encaminhada à Ouvidoria do MPES em 2022.
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O denunciante alegava que o condomínio Boulevard Lagoa teria cometido diversas irregularidades, entre elas:
- asfaltamento de vias próximo à Lagoa Jacuném
- construção de quiosques e estruturas na margem da lagoa
- instalação de boias restringindo acesso à água
- uso de inseticidas nas áreas de vegetação
- restrição de acesso à lagoa devido ao fechamento do bairro
A Lagoa Jacuném está inserida em uma Área de Proteção Ambiental (APA) criada por lei municipal, o que aumenta o rigor das regras ambientais no entorno.
Diante da denúncia, o Ministério Público solicitou informações à Prefeitura da Serra, por meio das secretarias de Meio Ambiente (SEMMA) e Desenvolvimento Urbano (SEDUR).
Boulevard Lagoa é legalmente um bairro fechado
A investigação confirmou que o Boulevard Lagoa possui base legal para funcionar com acesso controlado.
O empreendimento surgiu originalmente como o loteamento Parque da Lagoa, aprovado pela Prefeitura da Serra em 2006.
Posteriormente, uma lei municipal de 2008 passou a permitir a criação de loteamentos com perímetro fechado e controle de acesso no município.
Nesse modelo urbanístico:
- as ruas e áreas públicas continuam pertencendo ao município
- a prefeitura pode conceder o uso dessas áreas à associação de moradores
- a associação assume a manutenção e gestão dos espaços internos
Foi exatamente esse modelo adotado no Boulevard Lagoa.
Em 2008, o município firmou um termo de concessão de uso das áreas públicas internas do loteamento à associação de moradores do empreendimento.
Isso permitiu que o local tivesse:
- muros
- portaria
- controle de entrada e saída
Mesmo com essas características, juridicamente o local continua sendo um loteamento registrado e regular.
Bairro foi oficialmente criado por lei em 2016
Outra informação que gera confusão entre moradores é o fato de o Boulevard Lagoa ser chamado de bairro.
De acordo com documentos da Prefeitura da Serra analisados pelo Ministério Público, o bairro Boulevard Lagoa foi oficialmente criado por lei municipal em 2016.
Na prática, isso significa que:
- o loteamento fechado está localizado dentro do bairro Boulevard Lagoa
- o bairro é uma divisão administrativa da cidade
- o loteamento fechado possui gestão própria e acesso controlado
Esse modelo urbanístico não é exclusivo da Serra.
Outros empreendimentos semelhantes existem em diversas cidades brasileiras, inclusive no próprio município, como o Alphaville, também localizado na Serra.
Investigação analisou impactos ambientais
Embora a estrutura urbanística tenha sido considerada regular, o Ministério Público também investigou possíveis impactos ambientais na Lagoa Jacuném.
Durante a apuração, técnicos identificaram intervenções próximas à área de preservação, incluindo:
- uma estrada asfaltada que chegava até a lagoa
- a existência de um píer ou deck
- estruturas de apoio nas proximidades da água
A legislação ambiental estabelece limites para ocupação nas margens de lagoas.
Em áreas urbanas, o Código Florestal prevê faixas de preservação permanente que devem ser respeitadas.
Acordo determina retirada de estruturas
Para resolver a situação, foi firmado um acordo judicial no Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) entre o Ministério Público e as empresas responsáveis pelo empreendimento.
Entre as medidas previstas estão:
- retirada do píer ou deck existente
- retirada do asfalto que levava até a lagoa
- recuperação da vegetação da área
- elaboração de plano de recuperação ambiental
- implantação de ações de educação ambiental
Além disso, as empresas concordaram em pagar R$ 50 mil ao Fundo Municipal de Conservação Ambiental da Serra.
O acordo também prevê a apresentação de autorizações e licenças ambientais necessárias para as intervenções.
Denúncia sobre uso de inseticidas foi analisada
Outra questão investigada foi a suposta pulverização de inseticidas nas áreas próximas à lagoa.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou que não havia registro de licença para uso de defensivos agrícolas na área.
Em resposta ao Ministério Público, a associação de moradores afirmou que os produtos utilizados no local são inseticidas domissanitários voltados ao controle de mosquitos, semelhantes aos usados em ações de combate à dengue.
Segundo a entidade, os serviços são realizados por empresas especializadas e licenciadas.
Ministério Público decidiu arquivar investigação
Após analisar os documentos, respostas da prefeitura e o acordo firmado no processo judicial, o Ministério Público concluiu que:
- a existência de loteamento fechado no local é legal
- as questões ambientais já estavam sendo tratadas judicialmente
- parte das denúncias não foi confirmada
Diante disso, a Promotoria decidiu arquivar o procedimento investigativo.
Um contraste urbano na Serra
Localizado às margens da Avenida Talma Rodrigues Ribeiro, o Boulevard Lagoa é considerado um dos empreendimentos imobiliários mais valorizados da Serra.
Algumas residências do local podem superar R$ 10 milhões, segundo estimativas do mercado imobiliário.
O loteamento fica em frente ao bairro Feu Rosa, que durante muitos anos carregou estigmas ligados à pobreza e à violência urbana.

