Líder do tráfico na Serra é preso após guerra que deixou 10 mortos em 3 meses

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Ryan Inácio Silva, vulgo “Sementinha” (22 anos): segundo a investigação, ele participou diretamente de parte dos ataques, ordenou outros e também é apontado como liderança do grupo responsável pela sequência de crimes durante a guerra no bairro. Crédito: divulgação/PC-ES.

A Polícia Civil do Espírito Santo anunciou a prisão de Ryan Inácio da Silva, conhecido como “Sementinha”, apontado como um dos principais responsáveis pela sequência de homicídios registrada em Balneário de Carapebus, na Serra. Segundo a Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, ele participou diretamente de diversos ataques entre 22 de agosto e 3 de novembro, período marcado por uma guerra entre facções criminosas no bairro.

Nesse intervalo, conforme a corporação, o confronto deixou 10 homicídios consumados e 12 tentativas de assassinato. Além disso, a polícia afirma que a DHPP Serra esclareceu todos os casos sob sua responsabilidade e formalizou os indiciamentos.

Os investigadores prenderam Ryan no dia 23 de dezembro, em Governador Valadares (MG), após trabalho de inteligência que identificou seu paradeiro fora do Espírito Santo. No entanto, a Polícia Civil divulgou os detalhes da operação apenas agora.

Histórico criminal e fuga do sistema prisional

Segundo a Polícia Civil, Ryan já acumulava histórico criminal desde a adolescência e é considerado de alta periculosidade.

No dia 2 de agosto de 2020, quando tinha 17 anos, ele participou do assassinato do taxista Rodinei, no bairro Jardim Joara, na Serra.

Posteriormente, em 24 de julho de 2021, já maior de idade, matou o pescador Renato Caetano, na região da Lagoa de Carapebus.

Por esse crime, a Justiça o condenou a 48 anos de reclusão, por homicídio consumado e tentativa de homicídio.

Mesmo após a condenação, Ryan fugiu do sistema penitenciário de Viana em 17 de fevereiro de 2025, junto com outros detentos. Depois da fuga, segundo as investigações, ele se aliou à facção PCV para retomar o controle do tráfico de drogas em Balneário de Carapebus. A partir daí, voltou a atuar diretamente na disputa territorial, o que intensificou a onda de violência no bairro.

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Chefe da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori. Crédito: divulgação.

Guerra no bairro: como o grupo agia

De acordo com a DHPP Serra, o grupo planejava os ataques com antecedência e escolhia integrantes da facção rival como alvos principais.

Entre as estratégias identificadas pela polícia, estão:

  • Uso de disfarce de entregador, com mochila de aplicativo, para surpreender vítimas;
  • Emprego de fuzil, pistolas e espingarda calibre 12;
  • Ataques em motocicletas e veículos roubados;
  • Instalação de câmeras clandestinas para monitorar o bairro;
  • Atuação de olheiros e informantes para acompanhar a movimentação policial.

Além disso, a investigação aponta que os criminosos coagiam moradores a instalar sistemas de videomonitoramento para alertar sobre a chegada de viaturas.

Ataques atribuídos a Ryan

11 de setembro

Ryan e comparsas atacaram uma boca de fumo usando disfarce de entregador. Um homem morreu no local e outra pessoa ficou ferida. Testemunhas reconheceram o investigado.

13 de setembro

O grupo realizou novo ataque em uma esquina movimentada, próxima a ponto de ônibus e distribuidora de bebidas. Um dos atiradores utilizava fuzil, que apresentou falha. Mesmo assim, um homem sem ligação com o tráfico acabou baleado.

21 de setembro

Os suspeitos tentaram matar um rival na Rua Jaqueira. A vítima correu e conseguiu se abrigar em uma padaria, escapando do ataque.

29 de setembro

Nesse que a polícia considera um dos crimes mais graves, os envolvidos vestiram roupas semelhantes às da Polícia Civil para simular uma operação. Em seguida, invadiram uma residência e executaram dois alvos conhecidos como “Batata” e “Mineiro”. Uma mulher e uma criança estavam na casa, porém não sofreram ferimentos.

17 de outubro

Segundo a investigação, Ryan ordenou uma execução por telefone. Após a tentativa frustrada, os criminosos perseguiram o carro que socorria a vítima. Durante a ação, o motorista atropelou os atiradores. Um deles morreu no local.

Monitoramento clandestino e controle territorial

A Polícia Civil identificou que Ryan e outro traficante conhecido como “Barba” estruturaram um sistema de vigilância no bairro. Eles utilizaram câmeras particulares e celulares para monitorar a chegada de policiais e a movimentação de rivais.

Com isso, dificultavam as investigações e reforçavam o domínio territorial da facção.

Prisão em Minas Gerais

Depois dos crimes, Ryan deixou a Serra no fim de setembro e se refugiou em Governador Valadares (MG). Após rastrear seus movimentos, a equipe da DHPP Serra montou a operação e efetuou a prisão no dia 23 de dezembro.

Ele voltou ao sistema prisional para cumprir a pena de 48 anos já imposta pela Justiça. Além disso, a polícia o indiciou novamente pelos crimes ligados à guerra em Balneário de Carapebus.

Tentativa recente de nova fuga

Mesmo detido, Ryan teria participado de uma nova tentativa de fuga no dia 16 de fevereiro deste ano. Segundo a Polícia Civil, agentes identificaram danos na cela onde ele estava e encontraram sinais de escavação no piso.

Polícia afirma que esclareceu os casos

A DHPP Serra afirma que concluiu todos os inquéritos referentes aos homicídios e tentativas registrados no período investigado. Parte dos envolvidos já responde a denúncia do Ministério Público.

A corporação reforça que atua na investigação após os crimes e que o trabalho buscou responsabilizar não apenas executores, mas também mandantes, fornecedores de armas e responsáveis pela logística.

Impacto no bairro

De acordo com a Polícia Civil, as prisões reduziram significativamente os confrontos armados em Balneário de Carapebus. Desde então, o bairro não registra a mesma frequência de tiroteios observada durante o período da guerra entre facções.

As investigações continuam para apurar possíveis desdobramentos da atuação do grupo criminoso na Serra.

Foto de Mari Nascimento

Mari Nascimento

Mari Nascimento é repórter do Tempo Novo há 24 anos. Atualmente, a jornalista escreve para diversas editorias do portal, principalmente para a de Política.

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