Chega janeiro, e com ele, uma campanha conhecida: o Janeiro Branco. Seu objetivo é chamar a atenção da sociedade para a importância da saúde mental. A iniciativa busca abrir conversas, reduzir preconceitos e lembrar a todos que cuidar da saúde mental é tão vital quanto cuidar do corpo.
É importante, porém, entender essa necessidade em seu contexto real. O sofrimento psicológico não surge no vácuo. Ele é influenciado por pressões do ambiente de trabalho, incertezas econômicas, desafios nas relações, lutos, violências sociais e a constante sobrecarga de informações do mundo moderno. Aqui, é fundamental afastar um equívoco comum que o sofrimento mental não é uma falha ou culpa individual. Trata-se frequentemente de uma resposta humana a fatores externos complexos. Culpar-se por sentir-se ansioso ou deprimido, como se isso fosse uma fraqueza pessoal, apenas adiciona uma segunda carga de dor ao sofrimento original.
A campanha cumpre um papel relevante ao divulgar informações básicas e quebrar tabus. Para muitas pessoas, é a primeira vez que escutam que o esgotamento constante, a tristeza profunda ou a ansiedade intensa podem ser sinais de que a saúde psicológica precisa de atenção — e não apenas “fraqueza” ou “frescura”.
No entanto, há um problema em reduzir um tema tão complexo e permanente a um único mês. O sofrimento psicológico não obedece ao calendário. Crises de ansiedade não esperam por janeiro para acontecer, e a dor de uma depressão não desaparece com a chegada de fevereiro.
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Cuidar da saúde mental não se esgota na palestra motivacional na empresa ou na ação pontual promovida por instituições. Essas iniciativas têm valor ao trazer o tema à tona, mas são insuficientes se não forem acompanhadas de um reconhecimento sério de que o bem-estar psicológico exige um compromisso diário, tanto no plano individual quanto no coletivo.
Essa compreensão também começa a se refletir na legislação trabalhista. A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) foi atualizada para explicitar a necessidade de gestão dos chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho — como assédio, sobrecarga e estresse —, com vigência prorrogada para maio de 2026. A medida reforça que a saúde mental não depende apenas de escolhas individuais, mas também de condições concretas de trabalho que podem proteger ou adoecer.
A simplificação excessiva do tema pode levar à busca por soluções rápidas para problemas que são profundos e exigem acompanhamento sério. Por isso, mais do que slogans, é fundamental saber onde procurar ajuda quando se percebe que não é possível seguir sozinho. A campanha deve funcionar como um ponto de orientação, e não como uma mensagem passageira.
A rede de apoio existe e está disponível durante todo o ano. O Sistema Único de Saúde (SUS) é a principal porta de entrada, por meio das Unidades Básicas de Saúde, que podem encaminhar para serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em situações de apoio imediato, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece escuta sigilosa 24 horas pelo telefone 188. Clínicas-escola de universidades e atendimentos em consultório particular também compõem essa rede de cuidado contínuo.
Que o Janeiro Branco, portanto, seja mais do que um mês de posts e mensagens. Que funcione como um ponto de partida para o acesso real à informação e ao cuidado profissional. A campanha passa, mas o sofrimento não segue o calendário — e o cuidado com a saúde mental precisa permanecer em janeiro e em todos os outros meses.
Por Nilson S. Aliprandi, psicólogo clínico humanista (CRP 11/04916)
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