A identificação oficial do corpo de Dante Brito Michelini, de 76 anos, encontrado decapitado e com sinais de carbonização em um sítio na região de Meaípe, em Guarapari, reacendeu a memória de um dos crimes mais emblemáticos e traumáticos da história do Espírito Santo: o assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo, ocorrido em 1973.
O Tempo Novo ouviu Raquel Honofre Crespo, irmã de Araceli e moradora do bairro Barcelona, na Serra. Ela comentou os novos acontecimentos e relembrou o sofrimento do pai, já falecido, que acompanhou por décadas a repercussão do caso sem ver uma responsabilização judicial.
O corpo de Dante foi localizado na última terça-feira (3) e teve a identificação confirmada nesta quinta-feira (5) pela Polícia Científica do Espírito Santo, após a realização de exame papiloscópico no Instituto Médico Legal (IML), em Vitória. A identificação preliminar já havia sido feita por um irmão da vítima, com base em características físicas e nas roupas encontradas no local. A família foi oficialmente notificada e iniciou os procedimentos para liberação do corpo.
Questionada sobre a motivação do homicídio e sobre a localização da cabeça da vítima, a Polícia Civil informou apenas que o caso segue sob investigação da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Guarapari, sem divulgação de outros detalhes até o momento.
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Posicionamento exclusivo da família
Com a confirmação da morte de Dante Michelini, familiares de Araceli voltaram a se manifestar. Em diálogo exclusivo com o Tempo Novo, Raquel Honofre Crespo, irmã de Araceli e moradora do bairro Barcelona, na Serra, falou sobre os impactos emocionais que o caso ainda provoca na família.
“Nasci em 79 e Araceli [foi assassinada] em 73. Mas assisti o sofrimento diário de meu pai. Sinto alívio por ele. Pois vi ele sofrendo muito e vi muitas vezes quando passava algo no jornal sobre ela, a lágrima dele escorria. Falava pouco do caso, acho que pra não remoer a ferida. Queria muito que ele estivesse vivo hoje pra ver a justiça sendo feita”, relatou.
Um nome ligado a um dos crimes mais marcantes do país
O nome de Dante Michelini está historicamente associado ao chamado “caso Araceli”, que completa mais de cinco décadas sem responsabilização penal. Em 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Crespo, então com oito anos, desapareceu após sair mais cedo do Colégio São Pedro, na Praia do Suá, em Vitória. Dias depois, seu corpo foi encontrado em uma área de mata, desfigurado, em avançado estado de decomposição e com sinais de violência extrema.
As investigações apontaram que a menina foi raptada, drogada, violentada sexualmente e assassinada. Entre os principais suspeitos estavam homens pertencentes a famílias influentes do Espírito Santo, incluindo Dante Michelini. O caso gerou comoção nacional, mobilizou forças policiais, a imprensa e a sociedade civil, mas acabou marcado por falhas investigativas, contradições e ausência de provas conclusivas.
Após anos de tramitação judicial, os acusados foram absolvidos em novo julgamento realizado em 1991. O crime prescreveu em 1993, encerrando definitivamente qualquer possibilidade de punição penal.
Ligação de Araceli com a Serra
Embora o crime tenha ocorrido em Vitória, a história de Araceli também está profundamente ligada à cidade da Serra. A menina morava no bairro Bairro de Fátima, no município, e foi sepultada no Cemitério Municipal da Serra Sede, localizado atrás da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade.
Devido à demora e às divergências na investigação, Araceli só foi enterrada três anos após o crime, no túmulo de número 1213. Em Bairro de Fátima, uma das ruas da comunidade leva o nome da menina, mantendo viva a memória de sua história.
Um caso que se tornou símbolo nacional
O desaparecimento de Araceli se transformou em um marco na luta contra a violência sexual infantil no Brasil. Desde o ano 2000, o dia 18 de maio, data do desaparecimento da menina, foi instituído como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
Mesmo após mais de 50 anos, o caso segue sendo lembrado como símbolo das falhas institucionais, da impunidade e da necessidade de políticas públicas mais eficazes para a proteção de crianças e adolescentes.
A morte violenta de um dos principais nomes associados ao crime reacende memórias, provoca novos questionamentos e volta a expor feridas abertas em uma história que, para a família e para a sociedade, permanece sem um desfecho considerado justo.

