Investigações detalham o “passo a passo” do crime em Guarapari; agressor usou habilidades de luta para dominar a vítima e realizou atos de extrema perversidade após a morte.
Novos detalhes revelados pelos delegados Franco Malini e Fabrício Dutra traçam um cenário de horror e frieza absoluta na morte de Dante Michelini. A dinâmica do crime, ocorrido no dia 19 de janeiro, descrita pela Polícia Civil, aponta que a vítima foi submetida a uma sessão de tortura antes de ser morta e ter o corpo vilipendiado.
O homem acusado de ser o assassino se chama Willian Santos Manzoli. Ele veio da Bahia e morava em Guarapari desde o final de dezembro de 2025. Manzoli estava preso desde o dia 28 de janeiro por descumprimento de medida protetiva.
Michelini é conhecido na literatura policial capixaba por ter sido um dos acusados no Caso Araceli em 1973.
Leia também
O Ataque: Habilidade em Capoeira e Domínio
De acordo com o delegado Franco Malini, o agressor não agiu por impulso momentâneo. Ele espreitou Dante enquanto este se alimentava, aguardando o momento de vulnerabilidade para iniciar o ataque.
O suspeito, que é praticante de capoeira, utilizou sua agilidade e técnica de luta para subjugar Dante rapidamente. Durante a luta corporal, a força física e o conhecimento marcial do agressor foram determinantes para ferir e dominar a vítima, impedindo qualquer chance de defesa eficaz.
Métodos de Crueldade e Mutilação
A investigação aponta que a morte não foi instantânea. O delegado Fabrício Dutra destaca que Dante sofreu intensamente:
Tortura em Vida: A vítima foi agredida repetidamente enquanto ainda estava consciente.
Mutilação: O agressor utilizou instrumentos para causar ferimentos graves e mutilações (com indícios de amputação de órgãos genitais), antes de proceder com a decapitação.
A Execução: O ato final foi realizado com uma faca, utilizada para separar a cabeça do corpo.
O trajeto macabro: da cena do crime ao mercado
O comportamento do assassino após a decapitação revela uma ausência total de remorso. Após urinar sobre a cabeça de Dante, um ato de profunda humilhação e desprezo, o criminoso iniciou um deslocamento bizarro por Guarapari.
De bicicleta, ele carregou a cabeça da vítima até a região central, próximo ao mercado e à peixaria. Lá, tentou se livrar do membro lançando-o na água. Na primeira tentativa, a cabeça boiou. Com frieza, ele a resgatou e, utilizando arame e pedras, improvisou um peso para garantir que a cabeça afundasse e não fosse encontrada.
“Conversa com o Corpo”
O desfecho da dinâmica criminosa chocou até os investigadores mais experientes. Após descartar a cabeça, o homem retornou ao sítio onde o corpo (tronco e membros) permanecia.
“Ele retornou no outro dia, sentou ao lado do corpo sem vida, sem cabeça, fuma um baseado e fica conversando com o corpo. Ele ficou ali, devagando”, relatou o delegado Fabrício Dutra.
Motivação
O que levou um homem de 29 anos a cometer um crime de tamanha perversidade não foi apenas um desentendimento pessoal, mas a aplicação de uma “justiça” paralela regida pelo código de ética do crime. Segundo o delegado Fabrício Dutra, a motivação nasceu do estigma.
Após ser expulso das terras de Dante Michelini sob agressões dois dias antes, o suspeito buscou refúgio em “bocas de fumo”. Lá, ao relatar o ocorrido, foi recebido com escárnio. Os criminosos locais utilizaram o termo “Jack” (gíria do submundo para estupradores) para descrever Dante Michelini e humilhar o agressor. “Você apanhou de um Jack? Levou surra de estuprador?”, eram as frases que ecoavam.
Mesmo sem ter vivido a época do Caso Araceli (1973), o agressor foi bombardeado pela fama que Dante carregava há cinco décadas. Para os investigadores, essa pressão psicológica feriu o “orgulho” do criminoso e transformou a vingança em um ato de “limpeza moral” aos olhos do tráfico. O assassinato, a decapitação e o ato de urinar na cabeça da vítima foram a forma que o agressor encontrou para “lavar sua honra” perante os seus pares, provando que não era submisso a um “Jack”.
O Caso Araceli: A Tragédia que Marcou o Espírito Santo e o Brasil
Embora a motivação do suspeito não tenha uma relação direta com o Caso Araceli, o crime é um dos registros policiais mais famosos do país; é uma ferida aberta na memória capixaba e o principal catalisador das leis de proteção à infância no Brasil. No dia 18 de maio de 1973, a menina Araceli Cabrera Crespo, de apenas 8 anos, desapareceu ao sair da escola em Vitória.
Seu corpo foi encontrado seis dias depois, em um terreno baldio atrás do Hospital Infantil, em um estado que chocou a opinião pública: estava desfigurado por ácido, apresentava marcas de tortura extrema e sinais de violência sexual.
Os Réus e a Impunidade
As investigações da época apontaram para jovens de famílias influentes e tradicionais da alta sociedade capixaba. Entre os principais acusados estavam Dante de Brito Michelini (o “Dantinho”), seu pai Dante de Barros Michelini e Paulo Helal.
O Julgamento: Em 1980, os acusados foram condenados em primeira instância por crimes de sequestro, estupro e homicídio.
A Reviravolta: Anos depois, em 1991, após recursos e um novo julgamento, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo os absolveu por falta de provas.
Mesmo com a absolvição jurídica, a condenação social foi implacável. O caso ficou marcado pela sensação de impunidade e pela suspeita de que a influência econômica das famílias dos acusados teria interferido no processo.

