O Hospital Estadual Dr. Jayme Santos Neves, localizado na Serra, registrou 242 partos de crianças e adolescentes com idades entre 10 e 19 anos ao longo de 2025, segundo dados da Secretaria da Saúde (Sesa). O número reforça a importância da unidade no atendimento obstétrico e integra o panorama estadual sobre a gravidez na adolescência.
Em 2026, entre os dias 1º e 23 de janeiro, o hospital contabilizou 13 partos nessa faixa etária. No mesmo período de 2025, haviam sido registrados 7 partos, indicando aumento nos atendimentos no início deste ano.
Os dados são divulgados durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada de 1º a 7 de fevereiro. No Espírito Santo, houve redução geral dos casos em 2025, com 4.650 partos de mães adolescentes, o que representa queda de 10,8% em relação a 2024, quando foram registrados 5.213 partos, conforme o Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc).
A Secretaria da Saúde destaca que, apesar da redução estadual, os números registrados em unidades como o Hospital Jayme Santos Neves demonstram que a gravidez na adolescência ainda demanda atenção permanente, especialmente por meio de ações de prevenção, acesso à informação, métodos contraceptivos e fortalecimento da atenção básica, além da oferta de assistência qualificada ao parto e ao nascimento.
Para o médico ginecologista e referência técnica da Saúde da Mulher na ‘Rede Alyne’ da Sesa, Eduardo Pereira Soares, a gravidez na adolescência representa um desafio relevante para a saúde pública, por ocorrer em uma etapa da vida marcada por intensas mudanças físicas, emocionais e sociais, essa condição exige atenção especial dos serviços de saúde e das políticas públicas.
Leia também
“A prevenção é fundamental e passa, sobretudo, pelo acesso à informação e ao cuidado. É importante que haja o debate contínuo sobre sexualidade, sexo seguro e métodos contraceptivos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), aliado ao envolvimento das famílias e à realização de encontros coletivos, fortalece a autonomia das adolescentes e reduz riscos. Já nos casos em que a gestação ocorre, o acolhimento adequado é essencial, com captação precoce no pré-natal, estímulo à adesão ao acompanhamento e garantia de assistência qualificada ao parto e ao nascimento da criança”, ressalta o médico ginecologista Eduardo.
Riscos
Além dos impactos biológicos, a gestação precoce provoca efeitos significativos no âmbito social e emocional. A interrupção dos estudos, a redução de perspectivas profissionais e a dependência econômica são consequências frequentes, que contribuem para a manutenção de situações de vulnerabilidade social. Esses fatores também repercutem na sociedade, ampliando a demanda por serviços de saúde, assistência social e educação.
As repercussões alcançam ainda a vida da criança, que pode enfrentar maiores riscos à saúde nos primeiros anos, bem como dificuldades no desenvolvimento emocional e social, especialmente quando a mãe não conta com uma rede de apoio estruturada.
“Diante desse cenário, o enfrentamento da gravidez na adolescência passa pela adoção de estratégias preventivas, como a educação sexual com base em informação de qualidade, a ampliação do acesso a métodos contraceptivos e o acolhimento dos adolescentes nos serviços de saúde. Essas ações são fundamentais para promover cuidado, orientação e proteção, contribuindo para um futuro mais saudável para mães, filhos e para a sociedade como um todo”, discursa o médico.
Atenção Primária
As Unidades Básicas de Saúde (UBS) executam um conjunto estruturado de ações voltadas à promoção, proteção e atenção integral à saúde sexual e reprodutiva, alinhadas às diretrizes do Sistema Único de Saúde. Essas ações contemplam a oferta regular de medicamentos e insumos estratégicos para a prevenção e o tratamento das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), incluindo a sífilis, bem como a disponibilização de preservativos e de métodos contraceptivos, assegurando o acesso equitativo da população.
No âmbito da assistência diagnóstica, as UBS realizam exames laboratoriais e testes sorológicos para IST, essenciais para o acompanhamento clínico, a detecção precoce e o monitoramento das condições de saúde. Esse cuidado é integrado ao atendimento médico e de enfermagem, que ocorre de forma individualizada, com orientações qualificadas sobre saúde sexual e reprodutiva, prevenção de agravos e redução dos riscos relacionados à gravidez na adolescência.
Também são desenvolvidas ações educativas e de promoção da saúde, por meio de atividades coletivas direcionadas a adolescentes, jovens, familiares e responsáveis, realizadas tanto no espaço das unidades quanto em escolas e nos territórios. Quando identificadas situações de vulnerabilidade social ou necessidade de acompanhamento ampliado, as equipes de saúde também realizam visitas domiciliares, fortalecendo o vínculo com as famílias e garantindo a continuidade do cuidado
Entre as iniciativas realizadas pelas Unidades Básicas de Saúde destacam-se o acolhimento com captação precoce da gestante adolescente para sua assistência pré-natal, contando para isso com equipe multiprofissional e papel estratégico dos agentes comunitários de saúde e a criação de mecanismos para estimular a adesão ao acompanhamento pré-natal, assim como assegurar uma assistência adequada ao parto e nascimento.
A referência técnica em Saúde da Mulher da atenção primária da Sesa, Christiani Pontara Faé, reforça a importância dessas iniciativas. “A Atenção Primária à Saúde assume papel estratégico, por ser a principal porta de entrada do SUS, responsável pelo desenvolvimento de ações educativas, acolhimento, aconselhamento e oferta de métodos contraceptivos. A incorporação do implante subdérmico contraceptivo liberador de etonogestrel (Implanon), novo método contraceptivo de longa duração no SUS, fortalece as ações de planejamento reprodutivo e contribui para a redução desses índices”, disse a referência técnica.
O implante subdérmico contraceptivo liberador de etonogestrel é um método contraceptivo considerado vantajoso em relação aos já existentes por sua longa duração (age no organismo por até três anos) e alta eficácia. O método foi incorporado pelo Ministério da Saúde para implementação no Sistema Único de Saúde (SUS) a fim de integrar as iniciativas de fortalecimento da saúde sexual e reprodutiva das mulheres, com foco na redução da gravidez não planejada e na promoção dos direitos sexuais e reprodutivos. O público elegível serão adolescentes e mulheres de 14 a 49 anos.
Atualmente, o SUS disponibiliza os seguintes métodos contraceptivos: preservativos externo e interno; DIU de cobre; anticoncepcional oral combinado; pílula oral de progestagênio; injetáveis hormonais mensal e trimestral; laqueadura tubária bilateral e vasectomia. Entre esses, apenas os preservativos oferecem proteção contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).