O líder religioso Alexssandro Silva, Pai Brasinha, integrante do Terreiro Ilê Asé Igbo Ode Oloya, em Jacaraípe, na Serra, relatou ter sido alvo de ataques de intolerância religiosa e ofensas racistas que teriam ocorrido de forma repetida nos últimos dias. O caso terminou com a prisão em flagrante de um homem acusado de proferir as agressões em frente ao espaço religioso e à residência de uma integrante do terreiro.
Segundo Alexssandro, os episódios começaram na terça-feira (8), quando o suspeito teria ido até a frente da casa de uma das integrantes do terreiro, que estava se recuperando de um acidente de trabalho. De acordo com o relato, o homem teria iniciado uma série de ofensas relacionadas à religião praticada pela vítima.
“Ele chegou na casa dela gritando e xingando que ela era macumbeira, pomba gira, feiticeira, satanás, inimiga de Cristo”, contou Alexssandro.
Ainda segundo ele, o marido da integrante do terreiro tentou intervir para evitar que a situação se agravasse e conversou com o homem para que ele deixasse o local. Os envolvidos, conforme o relato, são moradores da mesma rua, onde também funciona o terreiro.
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No dia seguinte, por volta das 17h, Alexssandro afirma que o homem teria retornado ao local e repetido as ofensas. A integrante do terreiro teria enviado uma mensagem pedindo ajuda, temendo que a situação evoluísse para uma agressão física.
Ao chegar ao endereço, o líder religioso afirmou que tentou dialogar com o homem e explicar que as declarações poderiam configurar crime. Segundo ele, porém, acabou sendo alvo de novos ataques.
“Ele começou a me chamar de macumbeiro safado, falso profeta e dizia que eu estava levando as pessoas para o inferno dentro do meu terreiro. Foi quando eu liguei para a polícia para denunciar a situação”, relatou.
De acordo com Alexssandro, durante a espera pelo atendimento policial, o suspeito teria afirmado que não tinha medo da polícia e que sua defesa seria baseada na fé. O líder religioso também acionou o Conselho Municipal de Igualdade Racial e o Departamento de Igualdade Racial da Serra para acompanhar o caso.
Uma equipe da Guarda Municipal que passava pela região foi chamada para verificar a ocorrência. Inicialmente, segundo Alexssandro, os agentes informaram que não poderiam conduzir o homem porque não haviam presenciado o início dos fatos. Durante a conversa com as partes, porém, o suspeito teria repetido as ofensas na presença dos agentes.
“Ele voltou a me chamar de macumbeiro safado na frente dos policiais. Foi nesse momento que entenderam que havia flagrante e fizeram a condução dele para a delegacia”, afirmou.
O caso foi registrado na Delegacia Regional de Laranjeiras e, segundo o Conselho Municipal de Igualdade Racial da Serra, o suspeito foi autuado com base no artigo 20 da Lei nº 7.716/89, que trata de crimes resultantes de preconceito de raça ou cor.

Para Alexssandro, situações como essa ultrapassam uma ofensa individual e representam um ataque à liberdade religiosa e à cultura de comunidades de matriz africana. “Não é apenas sobre mim ou sobre o terreiro. É sobre o direito de cada pessoa exercer sua fé com respeito e segurança. Se não dói na consciência, vamos fazer doer no bolso”, afirmou.
O líder religioso também relatou que episódios de intolerância já haviam ocorrido anteriormente na região, envolvendo manifestações religiosas realizadas por integrantes de uma igreja nas proximidades do terreiro. Segundo ele, após diálogo com a proprietária do imóvel onde funcionava a instituição religiosa, o contrato de locação teria sido encerrado.
A Polícia Civil e Guarda Municipal da Serra foram procurada para comentar o caso e a matéria segue em atualização.