A reportagem exibida pelo Fantástico na noite deste domingo (29) provocou forte repercussão em todo o país ao revelar um suposto esquema de corrupção envolvendo policiais civis do Espírito Santo. Parte da produção foi gravada em Novo Horizonte, na Serra, em frente ao Departamento Especializado em Narcóticos (Denarc), local onde as drogas apreendidas ficam armazenadas no Estado.
A denúncia tem como base investigações conduzidas pela Polícia Federal do Brasil e pelo Ministério Público do Espírito Santo, que reuniram áudios, vídeos e depoimentos. O material aponta que policiais civis do Denarc teriam se aliado a criminosos para desviar drogas apreendidas em operações e revendê-las no mercado ilegal. O caso, que já vinha sendo acompanhado por veículos locais, ganhou projeção nacional após a exibição no programa dominical.
Como funcionava o esquema
Segundo os documentos da investigação, parte dos entorpecentes recolhidos em ações policiais voltava a circular por meio de traficantes ligados ao grupo, o que evidencia a atuação irregular de agentes que integravam justamente o setor responsável por combater esse tipo de crime.
O esquema, de acordo com as apurações, começava com a utilização de informantes que, na prática, eram os próprios traficantes. Eles indicavam rivais que estariam transportando drogas e, a partir dessas informações, os policiais realizavam abordagens e apreensões.
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No entanto, nem todo o material recolhido era oficialmente registrado. Parte das drogas era desviada antes mesmo de chegar ao sistema da polícia. Em um dos casos citados pela reportagem, cerca de 500 quilos de entorpecentes teriam sido apreendidos, mas apenas 207 quilos foram contabilizados oficialmente. A droga desviada era então repassada a intermediários ligados ao tráfico, responsáveis pela revenda. Segundo depoimentos, os lucros eram divididos entre policiais e criminosos.
As investigações também apontam que havia negociação direta entre agentes e traficantes. Em um dos relatos, um criminoso afirmou ter comprado 50 quilos de droga por R$ 49 mil. Parte das provas foi obtida a partir do celular de um traficante ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), que mantinha contato frequente com um policial do Denarc.
Além disso, há também relatos de extorsão, onde um dos depoentes afirmou ter pago cerca de R$ 25 mil para ser liberado após uma abordagem. Em outros casos, traficantes teriam sido coagidos a colaborar com o grupo, ampliando o alcance do esquema investigado.
Prisões
As irregularidades são investigadas no âmbito da Operação Turquia, que já teve duas fases. Na primeira, realizada em novembro do ano passado, um policial civil foi preso e outros dois afastados por suspeita de desviar drogas apreendidas para traficantes que atuam na região da Ilha do Príncipe, em Vitória. Entre os principais investigados está o policial Eduardo Tadeu, que atuava há mais de 10 anos no Denarc e é apontado como líder do esquema.
As investigações começaram após a prisão de um dos principais líderes do tráfico da região, em fevereiro de 2024. A partir daí, foram identificados indícios de ligação entre criminosos e agentes públicos, evidenciando possível cooperação ilícita durante operações policiais.
Ao todo, além de cinco policiais civis, outros 15 policiais militares foram investigados e denunciados por possível envolvimento no esquema.
A Polícia Militar do Espírito Santo informou que 14 investigados estão presos preventivamente e afirmou não concordar com condutas ilícitas de seus integrantes.