
Muita terra solta e exposta à erosão em local que já está sofrendo com deslizamentos. É como ficou a ladeira de acesso ao Alto Galo, em Domingos Martins. A região passa por expansão imobiliária desordenada, com terrenos rurais sendo transformados em áreas menores para atender a demanda por sítios, chácaras e até lotes.
Os estragos ficam próximos à Cascata do Galo, queda d’água com mais de 70 metros de altura que é uma das mais famosas e visitadas das montanhas capixabas. O mais recente desses estragos ocorreu há cerca de 10 dias, quando um trator foi usado para retirar toda a vegetação que havia no terreno às margens do trecho mais íngreme da ladeira de acesso ao Alto Galo. A área afetada fica na encosta imediatamente abaixo da estrada.
Neste mesmo ponto, só que no lado oposto da estrada, em terrenos que estão na parte alta da encosta, platôs estão sendo abertos há pelo menos três anos. Para acessá-los, vias precárias e muito inclinadas foram cortadas com trator na encosta. Para isto, Mata Atlântica foi derrubada. Alguns desses platôs tem placas informando autorização da Secretaria de Meio Ambiente de Domingos Martins.
E com as chuvas dos últimos meses, terra desses platôs e dessa vias precárias desceram e atingiram a estrada do Alto Galo, que chegou a ficar interditada por conta dos detritos. O que deixou a comunidade isolada. Moradores da região conversaram com Tempo Novo sob a condição de não terem seus nomes divulgados.
‘Boiada’ e tragédia anunciada
Um deles disse que a expansão imobiliária sem controle nas montanhas se agravou na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), quando houve retrocesso das políticas ambientais no país. Para esse morador, a retirada total da vegetação na parte inferior da encosta há 10 dias é resultado da “porteira aberta para a boiada passar”, se referindo à fala do ex-ministro Ricardo Salles sobre aproveitar as atenções voltadas à pandemia para desmontar o arcabouço institucional de proteção ao meio ambiente do Brasil.
Outro morador alerta sobre o risco de mais deslizamentos de terra no local. “Com o solo exposto, a erosão vai ser rápida. É uma tragédia anunciada o que vai acontecer no Alto Galo. É uma comunidade de pelo menos 150 famílias que depende da estrada. Os platôs abertos na parte de cima já inviabilizaram a estrada. Durante as chuvas houve deslizamento e a comunidade ficou dois dias isolada”, conta.

Mais lama em rio que abastece 1 milhão de capixabas
A região do Alto Galo faz parte da bacia do rio Jucu, que abastece 1 milhão de moradores na Grande Vitória. E cada vez que a lama desce de encostas onde o solo está exposto nas cabeceiras da bacia, como em Domingos Martins, os córregos e rios menores levam esse material para o curso principal do Jucu. Este, em tempos de muita chuva como agora, fica com as águas cheias de lama. O que prejudica a captação e o tratamento de água feito pelo Cesan na localidade de Caçaroca, entre os municípios de Cariacica e Vila Velha.

Platô aberto em área antes coberta pela Mata Atlântica no Alto Galo: mais risco de deslizamento na estrada e mais terra descendo para o leito do rio que abastece a Grande Vitória. Crédito: Divulgação.
Prefeitura diz que está tudo certo
Em nota, a Prefeitura de Domingos Martins disse que a retirada da vegetação feita recentemente com trator na parte inferior da encosta às margens da estrada do Alto Galo não é irregular. Veja abaixo perguntas feitas por Tempo Novo e as respostas da prefeitura.
Tempo Novo: Essa terraplanagem tem licença ambiental da Prefeitura de Domingos Martins?
Prefeitura: De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e o proprietário do terreno, não foi realizada terraplanagem na área em questão, mas sim uma supressão de vegetação caracterizada como macega, que de acordo com a legislação vigente e o órgão competente (IDAF) não necessita de autorização para supressão.
Tempo Novo: Quem são os responsáveis pela terraplanagem?
Prefeitura: Com relação ao nome dos supostos envolvidos, a Prefeitura de Domingos Martins se resguarda na Lei Geral de Proteção de Dados nº 13.709/2018.
Tempo Novo: Quais são as medidas de mitigação (controle e redução de impacto) e compensação exigidas?
Prefeitura: Por não se tratar de terraplanagem não há medidas de mitigação e compensação exigidas.
Iema, Idaf e Polícia Ambiental
Procurado pela reportagem, o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) disse, por sua assessoria de imprensa, que o caso deveria ser tratado pelo Idaf (Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do ES). Até o momento desta publicação o Idaf não havia retornardo os questionamentos.
Tempo Novo também procurou o Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA). Mas também não obteve retorno até o momento.