Colapso no esgoto da Cesan trava R$ 300 milhões em projetos imobiliários na Serra

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Falta de capacidade no sistema de esgotamento sanitário tem dificultado novos empreendimentos e impactado o setor da construção na Serra. Crédito: Ambiental Serra/Divulgação

O colapso no sistema de esgotamento sanitário da Serra, além dos impactos ambientais já conhecidos, começa a atingir diretamente a economia do município. A dificuldade para obtenção de viabilidade junto à Cesan tem travado novos empreendimentos imobiliários, impondo condicionantes que atrasam ou até inviabilizam projetos. Estima-se que cerca de R$ 300 milhões em investimentos privados estejam hoje parados, com reflexos já visíveis na desaceleração do setor e no aumento do desemprego.

Sem a viabilidade técnica da Cesan, nenhum projeto imobiliário consegue avançar. Esse tem sido o principal gargalo enfrentado pelo setor na Serra. Na prática, o sistema de esgotamento sanitário do município está em crise, pois não acompanhou o ritmo de crescimento da cidade, e a Cesan tem condicionado a liberação dos empreendimentos a “soluções” que fogem à sua própria responsabilidade.

Cesan empurra custos e responsabilidade

O Tempo Novo ouviu representantes do setor, como Alexandre Schubert de Azevedo (Ademi-ES) e Douglas Vaz (Sinduscon-ES), que apontam um cenário de paralisação. Hoje, ao solicitarem a concessão de viabilidade, a maior parte dos projetos se depara com duas alternativas impostas pela Cesan: aguardar, sem prazo concreto, a conclusão de obras estruturais de saneamento que, em muitos casos, sequer têm previsão definida; ou assumir integralmente a implantação de sistemas próprios de tratamento de esgoto, arcando com custos elevados, burocracia ambiental e a responsabilidade permanente pela operação.

Isso porque, nesse segundo cenário, toda a responsabilidade passa a ser do empreendedor, incluindo execução da obra, operação e manutenção do sistema, licenciamento ambiental, destinação final dos resíduos e custos de implantação e funcionamento. O resultado é um ambiente de insegurança, encarecimento dos projetos e paralisação de investimentos.

Serra está atrás

Segundo as entidades ouvidas, a cidade começa a ficar para trás em relação aos demais municípios da Grande Vitória, justamente em um momento de alta demanda por novas moradias. De acordo com os dirigentes, estima-se que 20 projetos imobiliários estejam atualmente paralisados, aguardando uma solução junto à Cesan. O Valor Geral de Vendas (VGV) desse conjunto de projetos soma aproximadamente R$ 300 milhões. As entidades informaram que têm buscado diálogo com o Governo do Estado, diante de um cenário de paralisação que começa a afetar diretamente o setor.

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Os dados do 46º Censo Imobiliário do Sinduscon-ES reforçam esse cenário de retração na Serra. Enquanto municípios vizinhos concentram a maior parte dos investimentos, a cidade aparece com participação reduzida tanto em lançamentos quanto em empreendimentos em produção.

Atualmente, a Serra responde por apenas 12,1% dos empreendimentos em produção na Grande Vitória, enquanto Vila Velha lidera com 49,1% e Vitória aparece com 36,4%. Os números indicam que, apesar da alta demanda por moradia na região, os novos projetos têm se concentrado fora do município, evidenciando a perda de competitividade da Serra no setor imobiliário.

Até o segundo semestre de 2025, a Serra havia registrado o lançamento de apenas três empreendimentos residenciais e um comercial, número muito inferior ao observado em municípios vizinhos. No mesmo período, Vila Velha contabilizou 14 lançamentos residenciais e nove comerciais, enquanto Vitória registrou 12 residenciais e seis comerciais, evidenciando, em números, a perda de protagonismo da Serra no mercado imobiliário da Grande Vitória.

Desemprego no setor

O impacto vai além dos canteiros de obra e se espalha por toda a cadeia produtiva ligada à construção civil. Quando um empreendimento deixa de sair do papel, deixam de ser gerados empregos diretos, como pedreiros, serventes, engenheiros e mestres de obra, além de uma série de serviços indiretos que giram em torno desse setor.

Marcenarias, lojas de móveis e eletrodomésticos, empresas de acabamento, decoração, pintura, elétrica e hidráulica, além de fornecedores de materiais de construção, todos sentem os efeitos da desaceleração. Na prática, o travamento dos projetos imobiliários reduz a circulação de dinheiro na economia local e impacta dezenas de profissões que dependem diretamente do aquecimento desse mercado.

Os dados do Caged revelam uma retração preocupante na geração de empregos na construção civil na Serra nos últimos anos. Em 2022, o setor criou 1.465 vagas, número que caiu para 1.376 em 2023 e despencou para 809 em 2024, indicando perda de ritmo em uma atividade que historicamente é um dos principais motores de emprego no município.

O cenário mais recente é ainda mais alarmante: a construção civil deixou de abrir vagas e passou a liderar o fechamento de postos de trabalho, com saldo negativo de 1.618 vagas. Na prática, isso representa avanço do desemprego em um dos setores que historicamente mais geram oportunidades no município.

Enquanto isso, outras áreas seguem em crescimento, como serviços, que em 2025 registraram saldo positivo de 2.412 empregos, e comércio, com 639 vagas. Já a indústria (-177) e a agropecuária (-46) tiveram retrações bem menores. Os números mostram que a crise não é generalizada, mas sim concentrada em um setor diretamente dependente da liberação de novos empreendimentos.

Sem retorno da Cesan

A reportagem procurou a Cesan e a Prefeitura da Serra para que comentassem o assunto e apresentassem suas versões sobre os pontos levantados, especialmente em relação às limitações do sistema de esgotamento sanitário e às condicionantes impostas aos empreendimentos. No entanto, até o fechamento desta matéria, não houve retorno.

Um sistema antigo para uma cidade que cresceu

A estrutura de esgotamento sanitário da Serra foi concebida entre as décadas de 1970 e 1980, período em que a malha urbana começou a evoluir através dos conjuntos habitacionais e possuía uma população significativamente menor.

Atualmente, a maior parte das estações de tratamento de esgoto (ETEs) em operação,  pouco mais de 20 unidades, utiliza o modelo de lagoas de decantação, uma tecnologia amplamente adotada à época de sua implantação, mas que apresenta limitações operacionais e de eficiência frente às demandas atuais.

Com o crescimento urbano acelerado das últimas décadas, a infraestrutura de esgotamento não foi ampliada ou modernizada na mesma proporção, o que contribuiu para o cenário atual de sobrecarga do sistema.

No modelo atual, o sistema de esgotamento sanitário opera próximo do limite de sua capacidade, sendo frequentemente descrito, em avaliações técnicas, como um sistema em situação de saturação operacional.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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