Caso Araceli | Serra já tem lei que proíbe dar nome de criminosos a bens públicos

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Dante Michelini, o avô que dá nome à avenida, morreu em 1965, ou seja, oito anos antes de o filho e o neto serem diretamente implicados no caso Araceli. Crédito: Divulgação

Ainda que o nome da Avenida Dante Michelini, na orla de Camburi, não tenha qualquer ligação direta com o caso Araceli, o incômodo por parte de uma parcela expressiva dos capixabas é notório. Ao longo dos anos, manifestações e protestos já foram realizados pedindo a mudança da nomenclatura, além de debates constantes nas redes sociais sempre que o caso volta ao noticiário.

O pleito é considerado legítimo por parte da sociedade, uma vez que, embora a avenida homenageie o empresário Dante Michelini, foram seu filho, Dante de Barros Michelini, e seu neto, Dante Brito Michelini, conhecido como “Dantinho”, que se envolveram em um dos casos policiais mais emblemáticos da história do Espírito Santo: o assassinato da menina Araceli Cabrera Crespo, em 1973.

O debate ganhou novo fôlego com as informações mais recentes que confirmaram a morte de Dantinho, na última quinta-feira (5). Ele foi encontrado decapitado e com o corpo carbonizado em uma propriedade localizada em Guarapari.

Dante Michelini, o avô que dá nome à avenida, morreu em 1965, ou seja, oito anos antes de o filho e o neto serem diretamente implicados no caso Araceli. O corpo da menina foi localizado dias após o desaparecimento, em um matagal nas proximidades do Hospital Infantil, em Vitória, desfigurado e em avançado estado de decomposição.

Serra tem Lei que proíbe dar nome de criminosos

Mesmo sem ligação jurídica direta entre o homenageado e o crime, a associação do nome Dante Michelini ao caso gera desconforto em parte da população. Por esse motivo, a Câmara de Vitória voltou a debater a possibilidade de mudança da nomenclatura da avenida.

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Na Serra, já existe uma lei municipal que trata desse tipo de situação. A legislação proíbe a nomeação de bens, equipamentos e logradouros públicos com nomes de pessoas que respondam a processos judiciais por crimes contra crianças. Embora, tecnicamente, a norma não se aplique ao caso de Dante Michelini (avô), ela tem sido citada como referência em debates semelhantes.

A lei em vigor é a de nº 5.587, de 23 de setembro de 2022, sancionada pelo então prefeito Sergio Vidigal. A norma considera como crimes contra crianças aqueles previstos no artigo 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que veda qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão contra crianças e adolescentes, prevendo punição para atentados aos seus direitos fundamentais, seja por ação ou omissão.

Relação de Araceli com a Serra

O que muitos não sabem é que Araceli tinha sua vida ligada à Serra. Moradora do bairro de Fátima, ela foi sepultada no Cemitério Municipal da Serra Sede, um dos seis cemitérios públicos da cidade, localizado atrás da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município.

Araceli só foi enterrada três anos após o crime, no túmulo de número 1213, devido à demora e às divergências na investigação. No bairro de Fátima, uma das ruas da comunidade leva o nome da menina, em homenagem à sua memória. Além disso, desde 2025, a Câmara da Serra concede uma comenda que leva o nome de Araceli, destinada a reconhecer o trabalho de pessoas e instituições que atuam no combate ao trabalho infantil.

Irmã de Araceli lamenta dor do pai

Com a confirmação da morte de Dante Michelini, familiares de Araceli voltaram a se manifestar. Em diálogo exclusivo com o Tempo Novo, Raquel Honofre Crespo, irmã de Araceli e moradora do bairro Barcelona, na Serra, falou sobre os impactos emocionais que o caso ainda provoca na família.

“Nasci em 79 e Araceli [foi assassinada] em 73. Mas assisti ao sofrimento diário de meu pai. Sinto alívio por ele, pois vi muitas vezes quando algo sobre ela passava no jornal a lágrima escorrer. Ele falava pouco do caso, acho que para não remoer a ferida. Queria muito que ele estivesse vivo hoje para ver a justiça sendo feita”, relatou.

Um nome ligado a um dos crimes mais marcantes do país

O nome de Dante Michelini está historicamente associado ao chamado “caso Araceli”, que completa mais de cinco décadas sem responsabilização penal. Em 18 de maio de 1973, Araceli Cabrera Crespo, então com oito anos, desapareceu após sair mais cedo do Colégio São Pedro, na Praia do Suá, em Vitória. Dias depois, seu corpo foi encontrado em uma área de mata, desfigurado, em avançado estado de decomposição e com sinais de violência extrema.

As investigações apontaram que a menina foi raptada, drogada, violentada sexualmente e assassinada. Entre os principais suspeitos estavam homens pertencentes a famílias influentes do Espírito Santo, incluindo Dante Michelini. O caso gerou comoção nacional, mobilizou forças policiais, a imprensa e a sociedade civil, mas acabou marcado por falhas investigativas, contradições e ausência de provas conclusivas.

Após anos de tramitação judicial, os acusados foram absolvidos em novo julgamento realizado em 1991. O crime prescreveu em 1993, encerrando definitivamente qualquer possibilidade de punição penal.

Foto de Yuri Scardini

Yuri Scardini

Yuri Scardini é diretor de jornalismo do Jornal Tempo Novo e colunista do portal. À frente da coluna Mestre Álvaro, aborda temas relevantes para quem vive na Serra, com análises aprofundadas sobre política, economia e outros assuntos que impactam diretamente a vida da população local. Seu trabalho se destaca pela leitura crítica dos fatos e pelo uso de dados para embasar reflexões sobre o município e o Espírito Santo.

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