A Serra figura hoje entre os municípios com maior impacto climático do Brasil e da América Latina. Dados do Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), atualizados para 2024, mostram que o município ocupa a 8ª posição no ranking nacional de emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE), aquelas que permanecem na atmosfera após o desconto das poucas remoções ambientais existentes.
Nesse cenário, o Governo do Espírito Santo, por meio do governador Renato Casagrande, lançou, nesta terça-feira (27), o Fundo de Descarbonização do Espírito Santo, iniciativa que pretende financiar projetos voltados à transição energética e à redução das emissões de carbono no Estado, incluindo setores estratégicos concentrados na Serra.
Serra emite mais carbono do que países inteiros
Em 2024, a Serra lançou 12,05 milhões de toneladas de CO₂ equivalente (CO₂e) na atmosfera. Desse total, 88,4% das emissões vieram do setor de Processos Industriais, concentradas integralmente na produção siderúrgica da ArcelorMittal Tubarão.
As remoções de carbono do município, ou seja, o quanto de CO₂ é retirado da atmosfera por vegetação e áreas naturais, foram praticamente insignificantes: apenas 30 mil toneladas, o equivalente a 0,25% do total emitido.
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Com isso, a Serra aparece como:
- 12ª maior emissora bruta de GEE do país
- 8ª maior emissora líquida, já descontadas as remoções
Sozinha, a Serra responde por cerca de 44,1% de todas as emissões líquidas do Espírito Santo e emite mais gases de efeito estufa do que países inteiros, como Uruguai e Paraguai.
Emissões crescem há uma década
Nos últimos dez anos, as emissões da Serra associadas à produção siderúrgica cresceram a uma taxa média de 3,97% ao ano. Em 2014, o município emitia 7,2 milhões de toneladas de CO₂e; em 2024, esse volume chegou a 10,65 milhões apenas no setor industrial, um crescimento de 47,9%.
Para efeito de comparação, o segundo setor que mais polui no município é o de Energia, com 0,96 MtCO₂e em 2024. As emissões industriais da ArcelorMittal foram cerca de 12,7 vezes maiores do que todas as emissões geradas pelos transportes da cidade somadas.
O que são os gases de efeito estufa?
Os gases de efeito estufa (GEE), como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxidos de nitrogênio (NOₓ), são responsáveis por reter calor na atmosfera. Em excesso, intensificam o aquecimento global e aumentam a frequência de eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor.
No caso da Serra, os principais gases liberados pela siderurgia são:
- CO₂, resultante da queima de coque e do processo de redução do minério de ferro
- CO, CH₄ e NOₓ, associados à combustão incompleta e às altas temperaturas dos altos-fornos
Além dos impactos globais, essas emissões estão frequentemente associadas a substâncias que agravam doenças respiratórias, cardiovasculares e ampliam o efeito das ilhas de calor urbanas.
Fundo de Descarbonização surge como resposta institucional
É nesse contexto que o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) lançou o Fundo de Descarbonização do Espírito Santo, apresentado em cerimônia no Palácio Anchieta, em Vitória. O fundo passa a operar sob gestão da BTG Pactual Asset Management.
A iniciativa posiciona o Espírito Santo entre os estados que estruturam instrumentos financeiros voltados à transição energética, utilizando recursos provenientes de combustíveis fósseis para financiar a redução das emissões de carbono.
Fundo nasce com R$ 500 milhões e pode superar R$ 1 bilhão
O Fundo de Descarbonização foi estruturado no modelo de blended finance (financiamento misto), combinando recursos públicos e privados. Inicialmente, recebeu R$ 500 milhões do Fundo Soberano do Espírito Santo (Funses), formado por royalties de petróleo e gás.
Segundo o Governo do Estado, a expectativa é que o fundo supere R$ 1 bilhão em investimentos nos próximos anos, com a entrada de capital nacional e internacional.
Metas climáticas do Espírito Santo
O fundo está alinhado ao Plano de Descarbonização e Neutralização das Emissões de Gases de Efeito Estufa do Espírito Santo, que estabelece:
- redução de 27% das emissões até 2030
- neutralidade de carbono até 2050
O governador Renato Casagrande destacou que o fundo transforma compromissos ambientais em ações concretas, ao direcionar recursos de origem fóssil para financiar a transição energética.
Setores que poderão receber investimentos
De acordo com o edital, o Fundo de Descarbonização poderá financiar projetos nos seguintes segmentos:
- geração de energia renovável (solar, eólica, biogás e biometano);
- tecnologias limpas para a indústria;
- eficiência energética e eletrificação logística;
- reflorestamento e restauração ambiental;
- agricultura sustentável e regenerativa;
- biocombustíveis e combustíveis alternativos;
- transportes de baixa emissão;
- gestão de resíduos e valorização energética.
Os projetos deverão ser desenvolvidos por empresas com sede fiscal no Espírito Santo e atuar diretamente na redução ou compensação das emissões de GEE.
Governança e próximos passos
Estruturado como um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), o mecanismo conta com governança específica e critérios técnicos rigorosos, com supervisão do Bandes e apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS).
A seleção da BTG Pactual Asset Management ocorreu em 2025, após chamada pública com 11 candidatas de todo o país. Os critérios de enquadramento e as condições para acesso aos recursos ainda serão divulgados.
Empresas interessadas em submeter projetos e investidores que desejem participar da iniciativa podem entrar em contato pelo e-mail OL-funses-descarbonizacao@btgpactual.com.