A saúde mental em números: o que os afastamentos do INSS revelam sobre o trabalho no Brasil

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Após o avanço do debate sobre a saúde mental como responsabilidade também das empresas, os dados mais recentes do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ajudam a dimensionar a gravidade do problema. Em 2025, o Brasil registrou 546.254 benefícios por incapacidade temporária concedidos em razão de transtornos mentais e comportamentais, segundo informações divulgadas pelo Ministério da Previdência Social no início de 2026.

Mais do que números, ele expressa a quantidade de trabalhadores que, em algum momento do ano, não conseguiram manter suas atividades profissionais sem comprometer sua saúde emocional, enfrentando um sofrimento psíquico significativo, com impactos diretos sobre a renda, a rotina e a vida cotidiana.

Para dimensionar esse cenário, os dados mostram que uma parcela expressiva dos auxílios-doença concedidos em 2025 esteve relacionada a transtornos mentais, consolidando esse grupo de diagnósticos entre as principais causas de afastamento do trabalho no país. As séries históricas do próprio governo indicam um crescimento contínuo desses afastamentos nos últimos anos, tendência que se manteve e se intensificou em 2025.

Quando se observa quem está por trás desses números, um padrão se destaca. As mulheres concentraram cerca de 63% dos benefícios concedidos por transtornos mentais no período analisado. Entre os diagnósticos mais frequentes estão os transtornos ansiosos e os episódios depressivos, conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), categorias que aparecem de forma recorrente nos relatórios oficiais da Previdência.

Esses dados não explicam, sozinhos, as causas do adoecimento, mas ajudam a revelar um quadro mais amplo. O aumento dos afastamentos por transtornos mentais ocorre em um contexto marcado por sobrecarga de trabalho, dificuldades no acesso aos cuidados de saúde, violência, condições precárias de mobilidade urbana, instabilidade econômica, jornadas extensas, múltiplas funções e dificuldades de conciliação entre vida pessoal e profissional. Cada afastamento indica um limite humano ultrapassado, quando as exigências externas deixam de ser compatíveis com a experiência psíquica que a pessoa consegue sustentar.

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Nesse sentido, os números funcionam como um importante indicador social: sugerem que o adoecimento mental não é um problema isolado ou individual, mas um fenômeno profundamente relacionado às formas de organização do trabalho e às condições concretas em que ele é realizado — leitura amplamente discutida por pesquisadores da saúde do trabalhador e da saúde pública.

Atualizações recentes da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforçaram a necessidade de identificação e gestão dos chamados riscos psicossociais nos ambientes de trabalho, como assédio, sobrecarga e estresse crônico. A vigência dessas mudanças foi prorrogada para maio de 2026, com o objetivo de permitir a adaptação das empresas. A medida reconhece que a saúde mental não depende apenas de escolhas individuais, mas também de condições objetivas de trabalho que podem proteger ou adoecer.

Os dados do INSS, portanto, reforçam que a saúde mental deixou de ser um tema periférico. Ela se impõe como uma questão de saúde pública, com efeitos diretos sobre o mercado de trabalho, a previdência social e a vida de milhões de pessoas. Enquanto os afastamentos por transtornos mentais seguem em alta, torna-se evidente que soluções pontuais ou discursos genéricos não são suficientes.

Enfrentar esse cenário exige um olhar amplo, que envolva políticas públicas consistentes, ambientes de trabalho mais responsáveis e uma transformação cultural que reconheça o sofrimento psíquico como legítimo, permitindo falar sobre ele sem preconceito e buscar ajuda sem medo. Os números mostram que cuidar da saúde mental não é apenas uma escolha individual: tornou-se uma necessidade coletiva, urgente e profundamente humana.

Por Nilson S. Aliprandi, psicólogo clínico humanista (CRP 11/04916)

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