O desfecho das investigações sobre a morte de Dante Michelini, o “Dantinho”, encontrado decapitado e carbonizado no início de fevereiro, trouxe à tona detalhes perturbadores sobre a motivação do crime. Segundo o delegado Fabrício Dutra, chefe do Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP), o assassinato foi impulsionado por um “acerto de contas” moral dentro do código de ética do submundo do crime.
O conflito inicial e a humilhação
Tudo começou quando o suspeito, um homem de 29 anos que vivia em situação de rua e utilizava o vasto terreno da vítima (cerca de 51 mil metros quadrados) para se esconder e consumir drogas, foi abordado por Dante. Na ocasião, o proprietário teria expulsado o invasor com agressões físicas.
Ao retornar para as “bocas de fumo” da região, o suspeito passou a ser alvo de chacotas intensas. No linguajar criminoso, Dante Michelini era rotulado como “Jack” — termo utilizado para designar estupradores.
“As pessoas começaram a fazer chacota dele. Diziam: ‘Você apanhou de Jack? Levou uma surra de um Jack?’. Ele ficou com a fama de ter apanhado de um estuprador e isso gerou uma indignação profunda”, explicou o delegado Dutra.
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O crime e o ritual macabro
Alimentado pela repulsa que o crime de estupro causa no sistema de crenças do tráfico de drogas, o homem retornou à propriedade no dia 19 de janeiro. O ataque foi marcado por extrema violência, culminando na decapitação e carbonização da vítima.
O que mais impressionou os investigadores, porém, foi o comportamento do assassino após o ato. De acordo com a “confissão, ele retornou ao local no dia seguinte ao homicídio.
- O ritual: O suspeito sentou-se ao lado do corpo decapitado, acendeu um cigarro de maconha e começou a “conversar” com o cadáver.
- Vilipêndio: O homem admitiu ter urinado sobre a cabeça da vítima enquanto “devagava” sobre a figura do “Jack”.
Fantasmas do passado
Embora o assassino tenha apenas 29 anos e não conhecesse em detalhes o histórico jurídico de Dante Michelini, o rótulo de “Jack” que selou seu destino remete a 1973. Dante foi um dos acusados no Caso Araceli, um dos crimes mais emblemáticos do Brasil, envolvendo o sequestro, estupro e morte de uma criança de 8 anos. Apesar de ter sido absolvido pela Justiça na época, o estigma permaneceu vivo na memória popular e no tribunal do crime”.
O suspeito, que já possuía histórico criminal e havia sido detido recentemente na Bahia por descumprimento de medida protetiva, foi preso e responderá por homicídio qualificado e vilipêndio de cadáver.
O peso do passado: o caso Araceli e a mudança nas leis
A indignação que motivou o assassino de Dante Michelini em 2026 ecoa um trauma nacional que mudou o Brasil. Em 18 de maio de 1973, a menina Araceli Crespo, de apenas 8 anos, desapareceu em Vitória. Seu corpo foi encontrado dias depois, desfigurado por ácido, com sinais de tortura e abuso sexual.
O crime gerou uma revolta sem precedentes e expôs a impunidade de jovens de famílias influentes da capital capixaba. Dante Michelini foi um dos três principais acusados e, embora absolvido por falta de provas após anos de batalhas judiciais, o caso tornou-se o marco zero da proteção infantil no país:
- Dia Nacional de Combate ao Abuso: A data do crime, 18 de maio, foi instituída pela Lei Federal nº 9.970/2000 como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.
- ECA: O caso foi um dos grandes catalisadores morais para a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990.

