# ‘Terceira onda’ rodoviarista da Serra intensifica pressão imobiliária sobre os eucaliptais da Suzano

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- Published: 2024-12-03T16:31:08-03:00
- Author: Yuri Scardini

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r-145-bilhao-em-seu-complexo-industrial-em-aracruz-1-1024x534.jpg)

Antiga Aracruz Celulose, agora Suzano: proprietária de quase 10% do território da
Serra, enfrenta pressão pelo avanço das novas rodovias.

Quando elevada à condição de cidade, em 1875, a Serra era um município pequeno e
de difícil acesso. Por terra, não havia muitas vias transitáveis; a única estrada
carroçável era a estrada geral da costa. Essa via cortava o litoral e se bifurcava
em outras pequenas estradas, ainda mais precárias, que levavam ao distrito de Carapina
e à Serra Sede. Naquele período, os caminhos mais viáveis para deslocamento eram
fluviais, utilizando o Canal dos Escravos (ainda existente) e o rio Santa Maria 
da Vitória, passando pela Freguesia de São José do Queimado.

A primeira grande transformação ocorreu no início da década de 1920, quando o modal
fluvial entrou em declínio, isolando logisticamente a Serra. Em maio de 1920, ao
assumir o governo do estado, o governador Nestor Gomes designou o secretário do 
Interior e Justiça para construir uma estrada ligando Serra e Vitória. Assim, foi
criada a primeira via terrestre minimamente estruturada entre as duas cidades. Governadores
subsequentes, como Florentino Ávidos (1924) e Aristeu Borges de Aguiar (1928), investiram
na melhoria das estradas de rodagem, tanto entre Serra e Vitória quanto entre Serra
e Nova Almeida, que na época ainda não pertencia ao território serrano. Esse primeiro
ciclo rodoviário se encerrou com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder no Brasil
e o estabelecimento de um interventor no Espírito Santo.

Somente na década de 1960, a Serra voltou a receber investimentos significativos
em rodovias. Esse período foi marcado pela construção do atual traçado da BR-101,
pela criação da Avenida Norte-Sul, pela pavimentação da ES-010 e pela abertura de
vias internas, como a Avenida Eldes Scherrer de Souza (antiga Avenida Civit), em
meio aos grandes projetos habitacionais. Esse segundo ciclo rodoviário foi impulsionado
pelas políticas de infraestrutura do Regime Militar e pelas articulações do ex-prefeito
João Batista da Motta, especialmente durante seu primeiro mandato (1982–1988).

Desde então, não houve investimentos estruturantes que marcassem uma nova era na
Serra. Ainda assim, obras isoladas de grande importância, como a Avenida Audifax
Barcelos (ligação Serra–Jacaraípe), contribuíram para a melhoria da infraestrutura
viária. [Atualmente, a Serra está entrando em um terceiro ciclo de entregas viárias](https://www.portaltemponovo.com.br/serra-vive-eminencia-de-terceiro-ciclo-rodoviarista-com-um-futuro-de-oportunidades/)
que, em conjunto, prometem impulsionar o desenvolvimento econômico, abrir novos 
eixos urbanos e de negócios e redefinir o desenho de ocupação da cidade.

O investimento em infraestrutura rodoviária é fundamental para a Serra. Diferentemente
de Vila Velha e Vitória, onde o capital privado determina grande parte das ações
públicas, na Serra o vetor de desenvolvimento é predominantemente público, criando
oportunidades para investidores a partir de ações governamentais.

Entre as obras já concluídas estão a nova Rotatória do Ó, o Complexo Viário de Carapina,
[ o Contorno do Mestre Álvaro](https://www.portaltemponovo.com.br/a-metade-oeste-serra-sera-novo-farol-de-desenvolvimento-da-cidade-neste-seculo/),
a revitalização da Avenida Talma, o Binário da Norte-Sul e o Sistema Viário Sérgio
Rogério de Castro (Civit I). Essas iniciativas se somarão a projetos promissores,
como o Contorno de Jacaraípe (com inauguração prevista para fevereiro de 2025), 
a terceira ligação entre Serra e Vitória (cujo pedido de empréstimo está no Senado),
a Variante de São Domingos (com ordem de serviço prevista para este ano) e a municipalização
da BR-101, que deve ocorrer em 2025. Esta última permitirá a execução de diversas
melhorias, como mergulhões e passagens de nível; entre outras obras.

Esses investimentos colocam a Serra no terceiro ciclo rodoviário de sua história,
exercendo pressão especial sobre a Suzano, gigante da celulose que detém cerca de
10% do território do município. Essa área inclui a grande mancha verde que separa
Jacaraípe de Nova Almeida, abrangendo todo o vale da Lagoa Juara até as beiradas
do Mestre Álvaro.

Dois projetos rodoviários em especial serão responsáveis por essa pressão: o Contorno
de Jacaraípe e a Variante de São Domingos. Os traçados dessas novas vias atravessam
os eucaliptais da multinacional e têm, entre seus objetivos, a expansão das áreas
ocupadas na cidade, com a destinação de terrenos para indústrias, corredores logísticos
e outros empreendimentos.

As áreas pertencentes à Suzano eram, originalmente, parte da antiga Aracruz Celulose,
que posteriormente se tornou Fibria e, atualmente, Suzano. No início da década de
1970, a [Aracruz Celulose](https://www.suzano.com.br/sustentabilidade/pessoas/comunidades-vizinhas/espirito-santo)
adquiriu vastas extensões de terra a preços ínfimos em uma Serra que começava a 
dar seus primeiros passos rumo à transformação industrial. Essas terras foram destinadas
à expansão das plantações de eucalipto, que abastecem a unidade da empresa em Aracruz,
recebendo madeira extraída em um raio de até 150 km.

Agora, toda essa área será atravessada por dois grandes eixos viários. O Contorno
de Jacaraípe, por exemplo, pretende conectar o Civit II a Nova Almeida, com a possibilidade
de, em uma segunda etapa, ligar essas áreas diretamente aos portos de Aracruz. A
via passará por fora de Jacaraípe, transformando esse novo eixo em uma retroárea
para as atividades portuárias centralizadas em Aracruz. A pressão imobiliária já
chegou à empresa. Tanto o governador Renato Casagrande quanto o vice-governador 
Ricardo Ferraço e o prefeito eleito Weverson Meireles já afirmaram ao Tempo Novo
que pretendem estabelecer um diálogo com a Suzano para criar um entendimento de 
que a cidade precisa avançar no processo de ocupação e que os eucaliptais não devem
ser uma barreira para esse desenvolvimento.

Assim como o Contorno de Jacaraípe, a Variante de São Domingos atravessará os eucaliptais,
interligando Jacaraípe à Serra Sede. Essa conexão permitirá que todas as comunidades
tradicionais localizadas na faixa continental centralizada no centro administrativo
da cidade tenham mais acesso ao litoral sem a necessidade de contornar o município,
o que pode impulsionar um novo boom imobiliário na região, tanto para empreendimentos
residenciais quanto comerciais. Na prática, será possível sair da Serra Sede e chegar
à praia em 10 minutos, ou vice-versa.

A Suzano, conhecida por políticas imobiliárias restritivas, não é vista no mercado
como um ente necessariamente fácil no trato. No entanto, é evidente que a Serra 
da década de 1970, quando a Aracruz Celulose começou a adquirir terras, já não existe
mais. Um novo fenômeno urbano está emergindo com essa terceira onda de investimentos
em infraestrutura rodoviária.

O oeste de Jacaraípe será dinamizado[ pela implantação do ParkLog](https://www.portaltemponovo.com.br/parklog-e-lancado-projeto-promete-conectar-portos-de-aracruz-a-empresas-da-serra-em-30-minutos/),
enquanto a Serra Sede busca expandir a leste, aproximando-se do litoral. Esse movimento
é irreversível, especialmente considerando o adensamento do distrito de Carapina,
que intensifica a pressão imobiliária sobre essas áreas.

Embora se trate de áreas privadas, o interesse público pode sobrepor-se ao privado
em situações estratégicas. Este será, sem dúvida, um debate aprofundado nos próximos
anos, e a Suzano terá que participar ativamente da discussão.
