# Serra é a ‘cidade política’ mais poderosa do ES – é hora de girar os grandes projetos

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- Published: 2025-02-19T16:26:18-03:00
- Author: Yuri Scardini

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Historicamente, a Serra exerce grande influência política no Espírito Santo. Mesmo
antes de sua formação como sociedade organizada, a região já abrigava o cacique 
Araribóia, há cerca de 500 anos, um dos líderes indígenas mais importantes para 
a formação do Brasil.

Séculos depois, já inseridos no contexto do liberalismo clássico, os serranos continuaram
a desempenhar um papel político relevante em nível estadual.

Não por acaso, alguns dos fundadores da Assembleia Legislativa do Espírito Santo
eram moradores ilustres da Serra e do Queimado, como os padres João Clímaco e João
Luiz da Fraga Loureiro, que, inclusive, foram os dois primeiros presidentes do Poder
Legislativo capixaba (1835 e 1836).

Figuras políticas de destaque também foram fundamentais para a realização de feitos
históricos, como a elevação da Serra ao status administrativo de cidade, em 1875,
pelas mãos do então deputado Major Pissarra ou a instituição do governo estadual
do Espírito Santo pelas mãos de Afonso Cláudio – advindo de uma família de serranos.
Além disso, ao longo das gerações, as famílias Miguel e Castello ocuparam postos-
chave na política capixaba, contribuindo para o desenvolvimento do município e do
estado – inclusive elegendo a primeira mulher deputada estadual, Judith Leão Castello.

Após muitos anos, em uma cidade que passou de uma economia agrícola para um polo
industrial e logístico, e de um pequeno município para o mais populoso do Estado,
a Serra se encontra novamente em uma posição política de destaque — talvez a mais
promissora de sua história político-administrativa.

A Serra é a principal “cidade política” do Espírito Santo. No Parlamento capixaba,
por exemplo, entre os 30 deputados estaduais, cinco possuem domicílio eleitoral 
e vínculo direto com o município: Pablo Muribeca (Republicanos), Fábio Duarte (Rede),
Alexandre Xambinho (Podemos), Bruno Lamas (PSB, atualmente licenciado) e Vandinho
Leite (PSDB), sendo este último líder do governo na Assembleia Legislativa.

No âmbito do Poder Executivo Estadual, também há muitos serranos em posições estratégicas.
Aliás, o próprio governador Renato Casagrande, embora não seja natural da Serra,
tem uma trajetória política intimamente ligada à cidade, tendo atuado como secretário
municipal em duas pastas.

Na estrutura do governo estadual, destaca-se Sargento Valter, ex-deputado e ex-vice-
prefeito da Serra por duas vezes, que hoje é considerado um dos principais braços
direitos de Casagrande.

Na articulação política entre o governo e a Assembleia Legislativa, o líder é Júnior
Abreu, atual secretário da Casa Civil. Conhecido como Juninho, ele é morador da 
Serra e já atuou em diversas áreas e gestões municipais.

No Detran, quem está à frente é o ex-deputado e ex-vice-governador Givaldo Vieira,
que ocupa o cargo de diretor-presidente. Morador da Serra, no passado Givaldo foi
vereador e um dos principais articuladores do movimento popular serrano.

Outro nome serrano no governo é o deputado licenciado Bruno Lamas, membro da tradicional
família Lamas, uma das mais influentes da política serrana nas últimas quatro décadas.
Atualmente, ele ocupa o cargo de secretário estadual de Ciência e Tecnologia.

E o que dizer da recente nomeação do ex-prefeito da Serra por quatro mandatos, Sérgio
Vidigal, para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico? Aliás, o próprio Vidigal
é frequentemente cotado para a sucessão de Renato Casagrande em 2026. Caso essa 
hipótese se concretize e ele vença a disputa, a Serra teria, pela primeira vez na
história, um governador natural do município.

A forte presença da Serra nas movimentações políticas estaduais chama atenção. O
atual prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, por exemplo, construiu sua carreira
como delegado na Serra, antes de migrar para a política na capital.

Além disso, na esfera política, há figuras com vínculos profundos com a Serra que
podem ser reinseridas no cenário, como o ex-prefeito Audifax Barcelos e o ex-deputado
Carlos Manato.

Mas essa influência da Serra no poder capixaba não se restringe à política. O legado
da família Feu Rosa no Poder Judiciário é um exemplo disso, ocupando funções de 
juízes, desembargadores e presidindo o Tribunal de Justiça. Essa família, que dá
nome a um dos principais bairros da Serra, tem raízes profundas no município.

No Ministério Público, o atual Procurador-Geral de Justiça do Espírito Santo, Francisco
Martínez Berdeal, alcançou essa posição tendo em seu currículo atuação na Serra.
Inclusive, sua eleição para o cargo teve como concorrente a Promotora Maria Clara
Mendonça Perim, que construiu sua carreira no Ministério Público com forte atuação
no município.

E o que dizer da liderança da família Castro na Findes? Os Castro foram fundadores
do Civit I e estão entre os principais nomes do setor industrial da Serra e do Espírito
Santo, assim como uma enorme gama de outros empresários. Aliás, não há como falar
de economia no estado sem mencionar a ArcelorMittal Tubarão, a maior siderúrgica
do Espírito Santo e um pilar da economia capixaba — e que está localizada na Serra.

Há lacunas que ainda podem ser preenchidas, como uma representação para a Câmara
Federal, ainda que os deputados Amaro Neto e Jackeline Rocha, em algum momento de
suas trajetórias políticas, tenham tido domicílio eleitoral na Serra. Ainda assim,
é uma certa discrepância que um município com essa relevância não tenha conseguido
eleger um deputado federal com atuação central na cidade. O mesmo ocorre no Senado.
O último “senador da Serra”, por assim dizer, foi o ex-prefeito João Batista da 
Motta, ainda no início dos anos 2000.

Todos esses exemplos refletem o amadurecimento político da Serra, dentro do processo
econômico e migracional que moldou a Serra moderna. Superando diversas dificuldades
históricas, o município está diante de uma oportunidade de atrair investimentos 
e consolidar ações estruturantes. Esse processo, na verdade, já está em curso, especialmente
no que diz respeito à infraestrutura viária.

Com uma prefeitura organizada, planejamento estratégico e diversos de seus líderes
bem posicionados nos espaços de poder capixaba, a Serra pode projetar um futuro 
no qual supera os desafios resultantes da ultra-urbanização descontrolada pós-anos
1960.

Historicamente, o maior problema enfrentado pelo município é o controle da violência
urbana, mas ele se estende a outros aspectos fundamentais da vida em sociedade, 
como a despoluição das lagoas e corpos hídricos, que sempre foram joias naturais
da Serra; a requalificação habitacional, permitindo alterar o perfil populacional
para um modelo menos dependente dos serviços públicos, por exemplo.

Aliás, a habitação é uma área estratégica para a saúde orçamentária da Serra, no
sentido de reduzir ou desacelerar o crescimento contínuo da demanda por serviços
públicos, um fenômeno que ocorre intensamente há seis décadas. O objetivo seria 
alcançar uma qualidade de vida mais próxima à de Vitória, que, por exemplo, ganha
prêmios nacionais em gestão pública de saúde, mas não tem sequer uma UPA devido 
à baixa demanda.

Além disso, o atual contexto político é fundamental para consolidar um processo 
de expansão urbana controlada e planejada, diferentemente do que ocorreu no passado.
Esse crescimento deve requalificar a porção leste do município e avançar para o 
oeste, acompanhando os novos eixos de desenvolvimento nos Contornos do Mestre Álvaro
e Jacaraípe.

Esses projetos viários, inclusive, estimulam o retorno de iniciativas que, no passado,
não reuniram as condições favoráveis para serem realizadas. No entanto, diante desse
novo cenário, elas podem se tornar realidade. Entre essas iniciativas estão o Aeroporto
Internacional de Cargas, planejado nas áreas de eucaliptais da Suzano e a implementação
de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), um projeto estruturante que colocaria
a Serra no centro do comércio exterior do Espírito Santo.

O contexto está posto, as condições são favoráveis e há projetos já pensados e estudados.
As perspectivas são promissoras para um novo ciclo desenvolvimentista pós-industrialização
com liderança política estadual centralizada na Serra.
