Mestre Álvaro
Yuri Scardini é autor do livro 'Serra: a história de uma cidade' e escreve sobre política e economia

Realidade do RJ é trágica, mas abre excelentes oportunidades econômicas para Serra

Serra - Rio de Janeiro
Os galpões do Porto Canoa Log ocupam uma área de 93,6 mil m2 e são exemplos da vocação da Serra na atividade logística. Foto: Divulgação

Não é necessário estar muito informado para saber que o Rio de Janeiro enfrenta profundas instabilidades governamentais. De questões de segurança pública a diversos outros aspectos da vida em sociedade, o estado experimenta crises contínuas que, infelizmente, mancham a reputação de um dos locais mais belos do planeta. Entretanto, pragmaticamente, não existe um vácuo de poder, seja ele político ou econômico. Nesse contexto, o Espírito Santo pode se beneficiar do caos institucional em que o estado vizinho está imerso.

No passado, o protagonismo econômico e político do Rio de Janeiro trouxe prejuízos econômicos aos capixabas, inversamente, o atual período de intensa e prolongada instabilidade pode posicionar o Espírito Santo como um farol de antítese à desordem e violência vividas pelos cariocas, especialmente em relação à atividade logística. E é nesse contexto que a Serra se destaca.

Já não cabe em uma mão a contabilidade de quantos governadores do Rio foram presos nos últimos anos.  Dura realidade que se soma à total perda de controle governamental em relação aos conflitos entre grupos criminosos, como traficantes, milicianos e narcomilicianos.

Nessa guerra urbana carioca, as empresas de logística tornam-se reféns do crime, visto que o roubo de cargas se estabeleceu como um ‘segmento’ econômico lucrativo para as facções, que usam o lucro para sustentar e expandir seus exércitos paramilitares. Estudos recentes sobre roubos de carga no território carioca revelam que os criminosos consolidaram essa prática como uma maneira rentável de arrecadar fundos, uma vez que os caminhões roubados podem ser levados para comunidades ‘protegidas’ pelo próprio aparato das facções e posteriormente comercializadas nos mercados clandestinos. Ou seja, o crime no Rio de Janeiro encontrou diversas outras maneiras de ganhar dinheiro, para além do comércio de droga ilícita.

Já se discute a fuga de investimentos do setor logístico do Rio de Janeiro, impulsionada pelos altos custos de segurança. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou um estudo que registrou 3.225 casos de roubos de cargas em 2023, uma média de nove roubos por dia, com base nos dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). Levando em conta o valor médio das cargas roubadas, a Firjan estima que o prejuízo direto às empresas do setor nesse ano alcançou R$ 283 milhões. A título de comparação, o Espírito Santo registrou 23 ocorrências de roubo de carga no primeiro semestre de 2023.

A Firjan alertou também que os custos indiretos decorrentes dessa trágica realidade carioca são quase impossíveis de mensurar, visto que a violência urbana descontrolada obriga as empresas a adotarem medidas severas e custosas para mitigar os riscos e minimizar os prejuízos, o que acaba por aumentar suas despesas e reduzir sua competitividade no mercado.

A contratação de seguro veicular no Rio de Janeiro, por exemplo, é comparativamente exorbitante em relação ao Espírito Santo, e em algumas áreas, nem mesmo é possível contratar tal serviço pois não há disponibilidade. Esta situação é consideravelmente mais grave — e paradoxalmente mais atrativa para o contexto do Espírito Santo — quando observada sob a perspectiva do sudeste brasileiro.

Isso ocorre porque o problema se estende também ao estado de São Paulo. Juntos, cariocas e paulistas concentram a maior parte das ocorrências de roubo de cargas no país. Entre os anos de 2015 a 2022, São Paulo e Rio de Janeiro representaram 82% do total de crimes dessa natureza, segundo dados do estudo “Panorama de roubo de carga na cadeia logística”, realizado pela ICTS Security. No mesmo estudo, o Espírito Santo apresentou uma incidência abaixo de 1%.

Vale destacar que a realidade do roubo de cargas no Rio pode ser muito pior do que os dados oficiais sugerem, considerando que, a partir de maio de 2023, ocorreu uma mudança burocrática na maneira como os registros de roubo de cargas eram classificados. A Secretaria de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro passou a diferenciar veículos com menos de 1,5 toneladas que não cumprem critérios específicos, como placa vermelha, nota fiscal, inscrição no Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Carga e seguro obrigatório de responsabilidade civil do transportador. Os veículos com cargas roubadas que não seguem esses critérios passaram a ser contabilizados nas estatísticas como roubo de veículos ou de rua, e não como roubo de cargas, o que, na prática, não altera a realidade das vítimas e dos prejuízos do setor logístico, servindo apenas para mascarar o problema.

O Espírito Santo é muito atrativo para receber a fuga de investimentos privados no Rio de Janeiro, pois geograficamente, há pouca diferença entre os dois estados; já em relação a São Paulo, as distâncias começam a ser significativas, pois se afasta do Nordeste brasileiro, que é um grande centro consumidor. Quanto a Minas Gerais, o estado é menos competitivo por não ter acesso direto ao mar. A posição geográfica estratégica do Espírito Santo confere uma vantagem única, possibilitando alcançar 60% do PIB brasileiro em um raio de até 1.200 km — uma proximidade estratégica comparável apenas com o próprio Rio de Janeiro.

Claramente, o Rio de Janeiro possui maior competitividade em termos de infraestrutura ferroviária, portuária, aeroportuária e rodoviária. No entanto, o Espírito Santo tem avançado nesse aspecto, e talvez a balança entre custo e benefício comece a pesar. Amplos projetos estão em andamento, mas o mais importante é reconhecer que a solidez fiscal e orçamentária do Espírito Santo, aliada à boa ambiência de negócios, à liberdade econômica para investir e à organização institucional capixaba, contrasta completamente com a realidade do Rio de Janeiro, que parece ter perdido o controle ou sido cooptado em sua governança por grupos alheios ao poder e interesse público.

Neste contexto, a Serra está estrategicamente localizada dentro do estado, que está melhor posicionado geograficamente e institucionalmente para a atividade logística. A cidade se encontra na intersecção de toda essa estrutura portuária, o que faz do Espírito Santo o quarto estado brasileiro com maior movimentação portuária. Atualmente, há 10 portos, entre unidades em funcionamento, em construção e em processo de estruturação.

A Serra tem a reputação de ser uma cidade industrial, o que é verdadeiro. No entanto, a Serra também é uma cidade logística, uma realidade já consolidada, com amplo espaço para expansão dessa vocação. Desde 2008, o setor de Serviços superou a Indústria na composição do PIB, impulsionado fundamentalmente pela atividade logística. A obra do Contorno do Mestre Álvaro foi um marco recente, mas o futuro parece ainda mais promissor com o Contorno de Jacaraípe, que se ligará a outro projeto, uma nova estrada que conectará este viário a Aracruz e Linhares, passando por fora de Praia Grande e Santa Cruz.

Ambos os contornos, de Jacaraípe e Mestre Álvaro, podem se tornar nas próximas décadas os novos corredores logísticos da cidade, expandindo essa atividade para a metade oeste da cidade, uma área quase despovoada e menos adensada do que a faixa leste. A própria BR-101 entre Carapina e Serra Sede, que se tornará a futura Avenida Municipal Mestre Álvaro, já tem vocação natural para isso e, com sua municipalização, parte significativa da burocracia será eliminada, além de receber investimentos públicos estratégicos.

A atividade de logística impõe um ritmo de investimentos em infraestrutura rodoviária constante, e isso tem acontecido na Serra. Recentemente a Prefeitura da Serra pleiteou 58 milhões de dólares em crédito internacional, com objetivo de fazer duas grandes e importantes obras: a terceira ligação entre Serra e Vitória, paralela à Avenida Norte Sul passando por dentro do Complexo de Tubarão; e a estrada ligando o Civit II a BR-101, que vai eliminar o tráfego de caminhões de dentro da malha urbana.

Esta atividade está em expansão global, impulsionada pela irreversível tendência de crescimento do e-commerce. A cadeia de negócios da logística, ou supply chain, é um sistema complexo que, de forma resumida, abrange desde a encomenda de matérias-primas até a armazenagem e entrega ao cliente final. Além de ser uma ótima pagadora de impostos municipais, uma vez que o setor de Serviços é taxado pelo ISS, imposto que vai para os cofres das cidades, além é claro do ICMS, que depois proporcionalmente retorna como cota parte transferida pelo Governo do Estado.

Há alguns anos, a Serra se revelou uma opção viável para empresas que desejam expandir sem a necessidade de investir em infraestrutura própria. Galpões e armazéns são amplamente utilizados na cidade para terceirizar a logística. A atividade imobiliária é particularmente intensa nesse aspecto, com investidores locais adquirindo áreas, construindo enormes estruturas de galpões e sublocando-as. Exemplos disso são o Porto Canoa Log e o recém-inaugurado Apex Pitanga, dois empreendimentos que chamam a atenção pelo tamanho.

Existem dúvidas sobre a sustentabilidade do setor no Espírito Santo após o fim dos benefícios fiscais, como o Invest e o Compete, que serão descontinuados com a implantação da nova Reforma Tributária. Com isso, as alíquotas de impostos serão uniformizadas em todo o país, e o Espírito Santo perderá um importante instrumento de atração de negócios. Embora alguns possam ver ameaças econômicas nessa mudança, pode ser que o futuro revele ser uma oportunidade. Se a guerra de benefícios fiscais entre os estados for eliminada, outros critérios serão levados em conta por investidores e empresários. Portanto, estados bem organizados, com estabilidade jurídica e institucional, controle do poder público na área da segurança e perspectivas de investimentos em infraestrutura rodoviária, como é o caso do Espírito Santo, poderão se destacar.

As crises envolvendo o Rio de Janeiro representam uma oportunidade de negócio para a Serra. Inclusive, o município deveria considerar abrir um escritório de negócios no Rio de Janeiro, destinado a incentivar, dialogar, apresentar e articular junto às empresas a transferência ou abertura de filiais na Serra. Essa ação poderia ser realizada em conjunto com as empresas gestoras dos polos industriais, especialmente aqueles dedicados à logística, ou mesmo em diálogo com o Terminal Industrial e Multimodal da Serra – TIMS, que é um centro integrado de infraestrutura e operações logísticas voltado ao abastecimento nacional e ao mercado internacional. Esse polo público pertence ao próprio município da Serra. Assim como na política, não existe vácuo de poder na economia.

 

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